A partir das imagens da Artemis II, Luiza Moura comenta a importância de uma foto tirada das vizinhanças da Lua décadas atrás

Foto tirada pela tripulação da Artemis II no dia 6 de abril
Nos últimos dias temos acompanhado com entusiasmo as fotos, vídeos e novas informações que a missão Artemis II tem mandado diretamente do espaço sideral para a Terra. A nave, com três astronautas estadunidenses e um astronauta canadense, está orbitando a Lua e, na segunda-feira, fez história ao se tornar a nave espacial tripulada que chegou mais longe da Terra, a cerca de 406.6 mil km do planeta. Dentro da cápsula, os astronautas visualizaram, pela primeira vez, o chamado “lado escuro” da Lua. Vale dizer que o lado escuro já tinha sido fotografado por satélites e sondas antes, mas nunca diretamente por humanos. Em 1968, os tripulantes da Apollo 8 foram os primeiros de nossa espécie a poder observar diretamente a face escondida da Lua.
A comoção diante desse avanço científico me fez lembrar de outros momentos do mundo, quando a corrida espacial estava em seu auge. De maneira surpreendente, uma foto tirada do espaço foi fundamental para a estruturação e organização do movimento ambientalista, ainda nos anos 1960.

Earthrise, a histórica imagem capturada pelo astronauta William Anders, em 1968 (foto: Nasa)
Em 1968, os astronautas que estavam a bordo da missão Apollo 8 capturaram uma imagem que mudou o mundo. A Terra iluminada aparecendo no horizonte lunar. O clique ficou conhecido como Earthrise, livremente traduzido como O Nascer da Terra.
Talvez você esteja se perguntando porque eu estou falando de uma foto da Terra em uma coluna sobre clima e meio ambiente. Na verdade, tem tudo a ver. Depois dela, a Terra passou a ser vista como um elemento frágil, sem muitas fronteiras e que demandaria esse “cuidado” e essa “preocupação”.
Segundo o professor Pedro Côrtes, da Universidade de São Paulo, em sua coluna na CNN Brasil, “A Terra deixou de ser percebida como ilimitada e passou a ser intuída como um sistema finito, interdependente e vulnerável. Foi nesse ponto que Earthrise ultrapassou a ciência e entrou na cultura, convertendo-se em uma das imagens mais influentes do século 20 e em um dos grandes marcos simbólicos do imaginário ambiental moderno.”
Além disso, a imagem levou à criação do Dia da Terra, que se comemora no dia 22 de abril, um evento anual que promove o ativismo e a conscientização ambiental.
Dias atrás, enquanto via as imagens da nave Artemis II, eu me questionei sobre o quanto o planeta já mudou dos anos 1960 para cá. Será que os astronautas serão capazes de ver, lá de cima, o quanto nós já alteramos a superfície terrestre? Será que é possível ver o quanto de cobertura vegetal e natural já se perdeu? Será que uma nova foto da Terra é capaz de impulsionar novamente o movimento ambientalista, nos dando a força que tantas vezes nós perdemos?
Um fato curioso, que chamou bastante minha atenção, é que a atual missão teve uma certa preocupação ambiental. O motor da parte central da Artemis II funciona a partir de uma combinação de hidrogênio e oxigênio líquido, isso é interessante porque a junção química desses dois elementos forma água, não gases poluentes ou tóxicos.
Acho que essa preocupação ambiental é um sinal claro dos nossos tempos. O avanço científico deve andar alinhado com a preocupação ambiental. A ciência não deve parar o seu desenvolvimento mas deve, sim, se reorganizar para encontrar formas mais ecologicamente balanceadas de seguir avançando e fazendo descobertas relevantes.
As imagens que a nave espacial tem trazido são, de fato, espetaculares em termos de beleza e de importância científica. Vamos seguir acompanhando, torcendo para que o movimento ambientalista e os avanços científicos sigam caminhando lado a lado.






