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Estados Unidos, China e a nova corrida espacial

Presidente da Agência Espacial Brasileira comenta a perspectiva da instalação de bases permanentes na Lua

Representação artística da da estação espacial chinesa Tiangong (imagem: Shujianyang – CC BY-SA 4.0)

A instalação de bases de exploração na Lua, com a consequente presença contínua de humanos ali, não está mais no campo das conjecturas — “do se acontecerá” —, mas do quando isso ocorrerá, e é bastante plausível que até 2050 já tenha se tornado uma realidade, prevê o presidente da Agência Espacial Brasileira (AEB), Marco Antonio Chamon. “Não se trata de ficção científica, mas de algo realmente viável dado o conhecimento científico contemporâneo”, reitera.

Esse cenário está no horizonte de China e Estados Unidos, os dois principais atores da atual corrida espacial, muito distante, na avaliação de Chamon, de uma espécie de reedição atualizada da primeira corrida, a dos anos 1960 e 1970 entre União Soviética e Estados Unidos, que, entre outros feitos, conseguiu pôr Neil Armstrong e Buzz Aldrin em solo lunar em julho de 1969. Para lembrar: em mais ou menos duas horas de passeio pioneiro por lá, os astronautas deixaram pegadas, fincaram no terreno uma bandeira estadunidense, recolheram cerca de 20 quilos de amostras do material em volta e retornaram à nave.

Engenheiro pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), mestre em engenharia e tecnologia espacial pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), instituição na qual desenvolveria parte substancial de sua carreira, incluindo a coordenação do programa de satélites científicos, e doutor em eletrônica pela Escola Nacional Superior da Aeronáutica e do Espaço, de Toulouse, na França, Chamon destaca — para marcar a diferença profunda entre as duas corridas — a absoluta predominância do caráter político na disputa de quem chegaria primeiro à Lua, nos anos 1960. Não que esse caráter esteja em absoluto ausente na corrida atual, inclusive para as redefinições geopolíticas em curso no mundo, mas ele o vê entremeado a poderosas questões comerciais que sequer estavam em cena no ambiente da Guerra Fria em que se enfrentavam a maior potência capitalista do mundo e a nação líder da complicada experiência do socialismo real.

Hoje, a par do largo envolvimento e fortes interesses dos fornecedores privados de equipamentos e serviços no empreendimento espacial, em particular pelo lado dos Estados Unidos, delineiam-se possibilidades futuras de exploração econômica de grande monta, mesmo que um tanto distantes, por exemplo, em mineração, que fortalecem o velho mantra, “leva quem chegar primeiro”. Dessa forma, os Estados Unidos vão tratando de saltar obstáculos (ver, a propósito, coluna de Salvador Nogueira) para manter a meta de ter em 2028 astronautas em solo lunar, levados pela Artemis 4, desde que seja bem sucedida a viagem da Artemis 3 em 2027, enquanto a China, muito mais discreta no detalhamento de seus propósitos, vai mantendo com rigor o cronograma parcimoniosamente divulgado e que definiu o ano de 2030 para a chegada de seus taikonautas à Lua.

Ninguém sabe ainda se de fato é viável comercialmente atividade de mineração na Lua. “Por ora é só um potencial distante”, observa Chamon. De concreto, sabe-se que o satélite da Terra tem água e minerais com uma distribuição diferente do que se observa em nosso planeta. “Um exemplo é o hélio 3, sobre o qual ainda se conhece muito pouco, e alguns outros elementos com potencial uso na fusão nuclear.”, diz Chamon.

O fato é que as incertezas nesse capítulo são gigantescas, mas, como é também desmedido o que está em jogo, e se pode vislumbrar ganhos estratosféricos no futuro, além da valorização efetiva das empresas que estão em campo, a par de eventuais prejuízos, parece natural à ganância capitalista o atual investimento de muitos bilhões na nova etapa da corrida espacial. Afinal, o programa Apollo consumiu, de 1960 a 1973, cerca de US$ 25,8 bilhões, correspondentes hoje a alguma coisa entre US$ 260 bilhões e US$ 280 bilhões. Fala-se em 5% do PIB dos Estados Unidos.

Hoje, a Nasa, a agência espacial norte-americana responsável pelo programa Artemis tanto quanto o foi pelo Apollo, tem para 2026 um orçamento de US$ 25 bilhões, com proposta agora de corte para US$ 18 bilhões, de modo similar ao que aconteceu no ano anterior (entretanto, o Congresso garantiu então o retorno ao orçamento programado). Curiosidade: US$ 25 bilhões foi exatamente o custo estimado para os EUA até agora da absurda guerra que desde o fim de fevereiro esse país move, junto com Israel, contra o Irã. Estimado, registre-se, pelo Pentágono, o Departamento de Defesa dos Estados Unidos, nesta semana.

A incerteza orçamentária, os problemas de fornecedores e o tempo curto são desafios grandes para que os EUA cumpram seu cronograma, enquanto que, do lado da China, mesmo que falte informação para se avaliar, “o fato de nada terem alterado de sua programação nos últimos anos leva a crer que manterão a meta de 2030”, diz Chamon.

Superfície lunar capturada pela nave chinesa Chang’e-5 logo após o pouso em 2020 (foto: CNSA / CLEP)

Um longo intervalo

A muitos soa intrigante o investimento para de novo levar humanos à Lua – e dessa vez, dar um caráter permanente à presença humana no satélite – quase seis décadas após a bem-sucedida viagem da Apollo 11. Por que só agora, afinal?

Na verdade, terminada a corrida, com os Estados Unidos exibindo o feito de ter chegado primeiro, não estava entre as possibilidades da época qualquer exploração comercial da Lua, mas sim o avanço do conhecimento científico a seu respeito. Ora, àquela altura a investigação por meios robóticos, infinitamente mais barata, oferecia plenas condições nesse sentido e seguiu-se por aí. “O custo associado à exploração humana é sempre muito alto e, sem novas e fortes razões para tanto, por mais entusiasmo que a população dos Estados Unidos tenha manifestado com a conquista da Lua, não faziam sentido os altos investimentos nessa direção”, observa Chamon.

Entretanto, ele ressalta, nunca mais se desistiria da presença humana constante no espaço e, ainda nos anos 1970, esse objetivo junto com os investimentos se orientaram para as naves tripuladas na órbita da Terra e para as estações espaciais que começam a ser construídas. Já em abril de 1971 a União Soviética lançou a Salyut 1, cuja missão científica o governo considerou 75% bem-sucedida, apesar da falha no embarque da primeira tripulação e do acidente fatal com a segunda tripulação, que permanecera 23 dias produtivos a bordo da estação. Durante a reentrada na atmosfera terrestre, em outubro, os três cosmonautas morreram em decorrência da abertura prematura da válvula equalizadora de pressão.

Em 1973 os EUA lançaram a Skylab e, em 1986, a União Soviética lançou a Mir, que ficou em operação até 2001. Finalmente, viria o grande e caríssimo projeto colaborativo da Estação Espacial Internacional (ISS), proposto pelos Estados Unidos, com uma vertente comercial clara (com venda de serviços de microgravidade inclusive), além dos objetivos científicos, e cujo primeiro módulo, o Zarya, foi lançado pela Rússia em 1996. Os módulos subsequentes incluiriam o laboratório Destiny dos EUA, o Zvezda, módulo de serviço russo, o laboratório europeu Columbus e o japonês Kibo. Todos forneceriam alojamentos, espaços de trabalho, instalações científicas e áreas de armazenamento. Mas, ainda que a ISS nunca tenha ficado vazia, é consenso que o seu retorno comercial foi frustrado.

Militarização do espaço

Se a China cresceu no setor espacial mimetizando todos os desenvolvimentos dos Estados Unidos, com o tempo, diz Chamon, “ela começou a ter objetivos próprios e a militarização do espaço se inclui entre eles”. Em outras palavras, satélites espiões e armas de destruição de satélites em órbita estão em desenvolvimento, enquanto os Estados Unidos criam uma quarta força especial, a espacial e planejam uma quinta, a força cibernética, com vários países copiando essas iniciativas.

“Tudo isso caminha na direção de tornar novamente o espaço uma zona contestada de poder, o que se estende à Lua, com as bases que lá serão instaladas, seja com objetivos de exploração comercial ou de lançamento para outros planetas, Marte em especial”, observa Chanon.

O presidente da Agência Espacial Brasileira acrescenta com ironia que os norte-americanos foram os primeiros a criar, nesse sentido, uma corrida contra eles mesmos, já que a China segue discreta com seus desenvolvimentos e outros países têm limites para acompanhar de perto as apostas dos dois atores principais na campanha da Lua. De todo modo, estão no horizonte malabarismos jurídicos para contornar o velho tratado internacional de 1967 que preconiza que nenhum estado pode se apropriar de um corpo celeste.

Voltaremos ao tema com a parte de “e o Brasil com isso?”.

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