Por que a cobertura da missão Artemis II fez mais referências às missões Apollo 13 e 18 do que à Apollo 11, que marcou a chegada do primeiro homem ao satélite da Terra?

A Terra, vista no sobrevoo lunar da Artemis II em 6 de abril de 2026 (foto: Nasa)
Se está no horizonte de curto e médio prazos dos programas espaciais da China e dos Estados Unidos pôr astronautas em solo lunar e até instalar bases exploratórias no sempre fascinante satélite da Terra, soa curioso que boa parte dos textos jornalísticos sobre a Artemis II publicados na mídia em 10 de abril e dias seguintes tenha preferido destacar, no panorama histórico das missões espaciais, os voos tripulados da Apollo 13, de 1970, e da Apollo 18, de 1972, em vez daquele estrondoso sucesso da Apollo 11, de julho de 1969.
Neil Armstrong, o primeiro homem a pôr os pés na Lua, e Buzz Aldrin, o segundo, tornaram-se estrelas quase instantaneamente quando boa parte do mundo os viu pela televisão em preto e branco, em imagens de baixa definição, saltitando e dando passos no solo distante e até então intocado, na noite de 20 de julho de 1969 — ou madrugada do dia 21, para países ao leste dos Estados Unidos, com fuso horário adiante de quatro horas ou mais.
Havia um terceiro astronauta, Michael Collins, na missão lançada pelo foguete Saturno 5 desde o Centro Espacial Kennedy, em Cabo Canaveral, Flórida, em 16 de julho. Mas, como ele permaneceu sozinho em órbita no módulo de comando Columbia, enquanto seus companheiros, levados pelo módulo de alunissagem, o Eagle (Águia), gastavam quase duas horas e meia em atividades na Lua, entre outras coisas recolhendo 21,5 kg de material, tirando fotos e instalando aparelhos de medição, seu nome ficou na sombra.
É inimaginável hoje, creio, para as gerações mais novas, a temperatura do debate que incendiou as conversas em grupos das distintas classes sociais, dos mais diversos níveis educacionais, dos mais diferentes contextos culturais, a partir das imagens da televisão vistas diretamente, diz-se, por cerca de 1 bilhão de pessoas — a população do planeta era então de 3,62 bilhões de pessoas.

Em imagem capturada por Neil Armstrong, Buzz Aldrin está em frente ao aparato de um experimento sobre energia solar, na Lua, em 20 de julho de 1969 (foto: Nasa)
Seriam imagens reproduzidas à exaustão e explicadas em detalhes por praticamente todos os jornais e revistas do mundo inteiro, incluindo os jornais cinematográficos, e mesmo, com discrição, é verdade, um veículo como o Pravda, da União Soviética, o grande competidor dos Estados Unidos (EUA) nas conquistas espaciais das décadas de1950 a 1980. Vale lembrar que o astronauta soviético Iuri Gagarin foi o primeiro homem a viajar pelo espaço, a bordo da nave Vostok 1, em abril de 1961. Estávamos então no tempo da chamada Guerra Fria, praticamente iniciada logo após o fim da Segunda Guerra, com os EUA, determinado a se tornar o grande império mundial, à frente da pesada oposição política, econômica e tecnológica aos países do bloco socialista liderado justamente pela União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, a URSS, nucleada pela Rússia.
Por toda a parte, as discussões se prolongariam por dias, e dividiam os que acreditavam que as imagens televisivas reproduziam um feito real e os que asseguravam que tudo não passava de “truque”, de uma montagem para manipular os ingênuos. Céticos e negacionistas sempre existiram (em relação ao pouso na Lua, especificamente, em 2002, ao ser chamado de covarde, mentiroso e ladrão por um desses negacionistas, Buzz Aldrin, então com 72 anos, respondeu com um soco na cara).

Aldrin acertando um gancho de direita em um provocador adepto de teorias da conspiração
Exatamente naquele mês de julho eu iniciara minha longa marcha pessoal de jornalista como estagiária no Jornal da Bahia e, se não gostei de ser escanteada da azáfama e do frisson que tomara conta da redação na preparação da edição que seria publicada logo após o pouso na Lua, lembro de meu entusiasmo ao ler em letras imensas, que então chamávamos de garrafais, a manchete “A Lua é do homem”. Não tinha escrito nenhuma linha, mas me senti desde aquele instante gloriosamente pertencente àquela categoria de gente que narrava cotidianamente importantes feitos para o público em geral: jornalistas.
Mas, de volta ao por quê de a cobertura pós Artemis 2 ter dado mais destaque a missões que não tiveram o peso midiático, simbólico, político e tecnocientífico da Apolo 11, concluo que isso está ligado à questão das distâncias percorridas pelos voos referidos, maiores que a da missão de Armstrong e Aldrin e mais próximas do desempenho da Orion/Artemis. No ponto mais distante de sua aventura para ver o lado nunca antes visto da Lua a Orion esteve a 406.771 quilômetros da Terra.
De todo modo, como a Artemis II antecede o objetivo estadunidense de fazer astronautas pousarem de novo na Lua em 2028, e a China estabeleceu, até o momento, 2030 como o ano para os seus taikonautas chegarem enfim à superfície lunar, as lembranças do passeio dos pioneiros Louis Armstrong e Buzz Aldrin parecem bem apropriadas ao momento. Ainda que o maior objetivo dos dois países que hoje disputam por métodos bastante distintos a hegemonia econômica e tecnocientífica do mundo não seja exatamente passeios, mas uma presença mais permanente no satélite, com dividendos variados para quem fizer isso mais cedo e/ou melhor.
Voltaremos, em breve, a aspectos da tecnociência espacial, inclusive no Brasil.