Luiza Moura fala da importância do líder indígena, que está internado

Cacique Raoni concedendo entrevista dentro da embarcação “Caravana da Resposta”, durante barqueata da Cúpula dos Povos, na COP 30, em Belém, em novembro de 2035 (foto: Tânia Rêgo / Agência Brasil)
Grande liderança indígena, o Cacique Raoni Metuktire está, desde a semana passada, internado na Unidade de Tratamento Intensivo (UTI), com questões sérias de saúde. Ele, que tem 94 anos, já enfrentou diversas batalhas, e eu, como ambientalista e admiradora, estou aqui torcendo para que ele se recupere prontamente.
Mas não quero ficar aqui falando sobre as questões de saúde do Cacique, acho que isso nem me cabe. Quero falar da importância de ter referências. E sobre como olhar para os mais velhos é fundamental para as novas gerações, para que possamos aprender, entender o mundo, ter percepções novas e diferentes sobre a realidade.
Desde antes de entrar no movimento ambientalista, ali por 2020, eu já conhecia e já admirava o trabalho de Raoni. Defensor incansável da floresta e de seus povos, o líder indígena foi ocupando espaços importantíssimos e se consagrou como um verdadeiro pilar dos movimentos mundiais que lutam pela defesa da Terra, por justiça climática e por respeito aos povos indígenas e tradicionais.
Em 2023, na posse de Lula, Raoni foi uma das lideranças escolhidas para subir a rampa do Palácio do Planalto com o presidente recém-empossado, representando tão bem os povos indígenas deste país, que por tantos anos foram esquecidos, humilhados e silenciados.
Talvez Raoni Metuktire nem saiba, mas ele é uma referência fundamental para minha e para vários jovens da minha geração.
Em 2024, o ex-senador e ex-presidente do Uruguai, Pepe Mujica, deu uma entrevista à Folha de S. Paulo em que falou um pouco sobre o papel dos mais velhos em relação aos mais jovens. Mujica afirmou que: “Na sociedade moderna, há uma crise de avô. O avô é uma figura antropológica que desapareceu porque a família diminuiu. Na história humana, os avós desempenharam um papel. Na história dos povos antigos, a instituição mais antiga do ponto de vista político é o conselho dos anciãos. Não é o governo. É aquele que aconselha e tem duas missões: dizer o que deve ser feito e educar as crianças. No mundo antigo, a única maneira de aprender algo era vivendo. Então os mais velhos transmitiam a herança do conhecimento. Tive a sorte de ter vivido muito e sou velho, então a única ferramenta que tenho é a palavra para dizer algo, ajudar a pensar.”
Para mim, Raoni está neste lugar. Um avô, um ancião, um mais velho. Alguém que viveu tanto do mundo antes mesmo de eu chegar, muito antes de eu pensar em ser ativista. Alguém que vê o mundo com outros olhos e que me ensina diariamente a enxergar a vida de outra maneira, a procurar estabelecer relações mais próximas entre minha vida, meu território e a natureza que me cerca.
Espero que ele fique entre nós por mais alguns anos, e talvez eu fale isso de um lugar puramente egoísta. Mas acho muito difícil imaginar um futuro próximo em que não poderei recorrer aos ensinamentos, às falas e aos olhos de Raoni para tentar buscar soluções para questões que me afligem.
Ao Cacique, fica meu muito obrigada. Minha eterna admiração. E meu desejo profundo de rápidas e prontas memórias. Nós ainda precisamos muito do senhor.






