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Pesquisador brasileiro é premiado com dança sobre cangurus

foto do topo: Weliton Costa (no centro, de bigode) usou roupa e equipamentos de trabalho no campo no vídeo, que também celebra diversidade

Reportagem: Letícia Naísa –Pesquisa Fapesp

Vídeo que relata resultados da pesquisa de doutorado realizada na Austrália é o grande vencedor do concurso internacional Dance your Ph.D

“Diferenças levam a diversidade, isso existe em qualquer espécie”, afirma o biólogo brasileiro Weliton Menário Costa em um vídeo sobre sua pesquisa de doutorado. “É natural.” Isso vale para qualquer espécie, na avaliação do pesquisador, mas ele se refere inicialmente à variação de personalidades em uma população do canguru-cinza-oriental (Macropus giganteus), espécie estudada por Costa na Austrália durante o doutorado, que terminou em 2021. Kangaroo time foi postado no YouTube em janeiro de 2024 e se tornou um sucesso: saiu vencedor da edição deste ano do concurso Dance your Ph.D., promovido pela revista Science e a Associação Americana para o Progresso da Ciência (AAAS), à qual o periódico se vincula.

Criada em 2008, a iniciativa desafia pesquisadores a explicarem seus projetos por meio da dança. São quatro categorias: física, química, biologia e ciências sociais. O primeiro colocado de cada categoria recebe um prêmio de US$ 750 e o vencedor geral, selecionado entre esses quatro, ganha mais US$ 2 mil. Weli (nome artístico do pesquisador, que prefere ser chamado de dr. Weli no meio acadêmico) foi o primeiro brasileiro a levar o prêmio principal do concurso, mas já houve premiados na categoria de Biologia – Natália Cybelle Lima Oliveira, em 2017, e Israel Sampaio Filho, em 2023.

“Eu queria fazer o melhor vídeo da história do Dance your Ph.D.”, conta o pesquisador capixaba. Para John Bohannon, criador do concurso, todos os vencedores são incríveis. “Esse projeto funciona como um algoritmo que seleciona, entre a população mundial de cientistas, aqueles que são talentosos e loucos o suficiente para criar um vídeo narrando uma tese por meio da dança”, comentou em entrevista por e-mail a Pesquisa FAPESP.

“A grande vantagem desse tipo de iniciativa é ajudar os cientistas e pessoas sem formação em ciência a entrarem em um território neutro”, afirma a bióloga e ilustradora científica Carolina Frandsen, pesquisadora do Grupo de Pesquisa em Cultura, Educação e Divulgação Científica da Universidade Estadual de Campinas (CEDICiências/Unicamp) em estágio de pós-doutorado no A.C.Camargo Cancer Center. “Por intermédio da arte, o conhecimento teórico e conceitual importa um pouco menos do que em outros contextos; ela pode quebrar barreiras de comunicação, porque o especialista recorre a elementos que são familiares ao público não especializado” argumenta.

Enquanto a ciência se limita à realidade, a arte pode levar a qualquer lugar, avalia Weli. No clipe Kangaroo time, pessoas de diferentes nacionalidades, gêneros, idades, sexualidades e etnias representam cangurus enquanto dançam a música composta pelo pesquisador-artista. Frases na tela (ver abaixo) explicam a importância da diversidade para os cangurus, entre outros fatos sobre a espécie que o pesquisador descobriu. “A ciência já sabia que esses animais sociais tinham personalidade, mas eu queria investigar como ela se forma e se manifesta, o que afeta sua formação”, explica o biólogo, que realizou sua pesquisa na Universidade Nacional Australiana (ANU), em Canberra.

Por três anos, ele observou de perto a rotina de mais de 300 cangurus que vivem no Wilsons Promontory National Park, localizado no sudeste do país, a cerca de 620 quilômetros (km) da capital. Com a ajuda de colegas, o brasileiro verificou que cada canguru tem personalidade própria, corroborando estudos anteriores, o que resulta em comportamentos diferentes entre si. O que surpreendeu o pesquisador durante o trabalho, no entanto, foi perceber o forte efeito que o grupo tem na comunidade de cangurus. “As diferenças entre grupos desses animais eram maiores do que as diferenças entre os indivíduos, o que indica que eles mudam de comportamento à medida que se deslocam entre grupos”, explica Weli.

Assim como outros seres sociais, os cangurus formam suas personalidades ainda na infância. Embora exibam individualidade, integrantes da mesma família – irmãos, por exemplo, ou mães com seus filhotes – se comportam de forma bastante semelhante mesmo quando estão separados. Em artigo publicado no final de 2023 na revista científica Behavioral Ecology, Weli detalha como a convivência com a mãe ao longo dos dois primeiros anos de vida influencia a formação da personalidade de cada canguru.

Para mostrar isso no videoclipe, convidou uma mãe (humana) e seus dois filhos adolescentes para dançar, assim como amigos que têm uma filha ainda bebê. “Eu precisava mostrar a diversidade nas personalidades dos cangurus, então a solução foi chamar dançarinos com estilos diferentes e mostrar a diversidade que já existe no mundo da dança”, explica. Encontrar pessoas que dançam foi fácil: Weli fazia aulas de salsa e era instrutor de fitdance em paralelo à vida acadêmica. “Meus amigos dançarinos sempre perguntavam quando eu ia dançar meu doutorado, porque eu já tinha falado sobre o concurso nas aulas”, comenta.

No clipe, pessoas representando cangurus dançam funk brasileiro, samba e jogam capoeira em homenagem à brasilidade do pesquisador, e drag queens representam a identidade queer de Weli. “É uma música sobre o meu doutorado, mas também sobre a minha trajetória de migração para a Austrália, eu não queria que fosse só sobre os resultados”, afirma o biólogo. “Tem influência da minha vivência como LGBT, como latino e também a batida de disco, um gosto popular entre os australianos, que me abraçaram”, comenta. A diversidade de estilos de dança chama a atenção na composição e reflete a diversidade cultural que ele encontrou no país.

Para pôr o projeto em prática, Weli contou com a ajuda do australiano Nicholas Moynihan, pesquisador na área de música da ANU. Moynihan conseguiu acesso gratuito ao estúdio de gravação musical da universidade e compôs a música junto com Weli. O brasileiro contou também com a colaboração de outro colega australiano, Nic Vevers, que fez toda a produção audiovisual do clipe, inclusive a operação de câmera e edição. “Foi um dia muito leve e divertido, fomos fazendo as filmagens conforme as pessoas chegavam”, relembra o biólogo. Não houve ensaio. “Cada um se vestiu como quis, eu fui com ‘roupa de biólogo’ – a mesma que usei muitas vezes em campo durante a pesquisa”, conta. “Todo mundo dançou do jeito que sabe para comunicar personalidade e efeitos sociais.”

Tanto dançarinos experientes como colegas da universidade participaram voluntariamente. “Fui conversar com quem eu já sabia que ia gostar da ideia”, diz Weli, que considera muito difícil ser criativo dentro do ambiente acadêmico. “Muitos pesquisadores ainda veem iniciativas como esse concurso como uma ‘perda de tempo’, uma distração do ‘trabalho de verdade’, mas fazer um vídeo como o que eu fiz requer muito trabalho e conhecimento técnico”, reflete o biólogo, que é adepto da interdisciplinaridade e valoriza a divulgação científica por meio de linguagens artísticas. “Fiz um produto musical que partiu da ciência realizada da maneira como deve ser, com rigor”, defende.

Colegas da universidade e de aulas de dança atuaram voluntariamente (foto: Nic Vevers / ANU)

Novos rumos

Com o título de doutor em mãos desde 2021, Weli está em fase de mudança de carreira. Além de ensinar dança, ele canta em bares e quer realizar o sonho de infância de trabalhar com música e arte. Nascido na comunidade rural de Conceição do Castelo, no interior do Espírito Santo, e filho de trabalhadores rurais, Weli estudou na cidade de Alegre e foi incentivado a ser pesquisador por sua professora de biologia do ensino médio. Na graduação no Instituto Federal do Espírito Santo, ainda no campusde Alegre, ele fez parte de um grupo de pesquisa sobre comportamento de caprinos e teve a oportunidade de ir para a Austrália pela primeira vez em 2013 por meio do programa federal Ciência sem Fronteiras.

Diplomado, concorreu a bolsas de pós-graduação no exterior. Não conseguiu no Reino Unido, onde submeteu um projeto para continuar estudando caprinos, mas foi aceito para cursar doutorado na Austrália, sem ter feito mestrado, com bolsa integral para estudar cangurus. “Foi mais fácil aprender estatística do que escrever tudo em inglês”, reconhece Weli. “A escrita foi muito difícil para mim psicologicamente, é um trabalho solitário.”

Dançar, por outro lado, é natural. “A arte me ajudou a me reconectar com a criança que eu fui, enquanto a ciência e meu título me ajudaram a ter validação social e a desenvolver o meu lado intelectual”, diz Weli. Kangaroo time, seu primeiro lançamento, é um manifesto em defesa da riqueza da diversidade humana. Para celebrar sua carreira acadêmica e iniciar a musical, ele está trabalhando em um EP, chamado Yours academically, dr. Weli, e em novos clipes – o mais recente da música Shall we let it go?. “É a minha história de transição de um cientista que quer virar um popstar latino”, afirma. “Mas não é um término com a ciência: só com a carreira formal de cientista.”

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