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Pesquisa da UFBA descobre terapia com luzes eficaz no combate a bactéria altamente resistente
Saúde e inovação

por | 18 nov 2019

Fernanda Caldas, Edgardigital

Uma terapia com luzes que combate a Enterococcus faecalis – uma superbactéria de difícil controle, que provoca lesões dentárias e uma série de infecções, entre as quais urinárias, intra-abdominal e da corrente sanguínea  – foi o método que o pesquisador Fernando José Pires Sampaio desenvolveu em seu doutorado em biotecnologia em saúde pelo Instituto de Ciências da Saúde da Universidade Federal da Bahia (ICS/UFBA). Simples, de baixo custo e altamente eficaz, o método pode ser usado nos meios odontológicos e hospitalar.

A técnica alcança um percentual de inibição bacteriano de 99,999998%. “É o equivalente a sete ciclos logarítmicos, estando acima do que é descrito na literatura corrente, que reduzia para apenas três ciclos logarítmicos a população desse microrganismo”, afirma Sampaio, que é cirurgião-dentista. Isso significa que o estudo foi feito em nanogramas (da ordem do bilionésimo do grama) e não microgramas (ordem do milionésimo), como é comum na área – o que amplia a segurança dos procedimentos e, consequentemente, garante maior seletividade e melhores resultados. “Essa dimensão possibilita uma maior segurança no uso da terapia”, observa.

“É um método que não apresenta contraindicações terapêuticas. Pode ser usado em crianças, idosos, pacientes imunossuprimidos [que têm deficiência imunológica], transplantados e até na UTI”, afirma Sampaio. A terapia fotodinâmica não gera resistência microbiana, resultado que se difere dos malefícios do uso de agentes antimicrobianos comumente empregados na área de saúde, que geram bactérias cada vez mais resistentes aos medicamentos.

A terapia fotodinâmica antibacteriana não é tóxica, é de rápida aplicação e indolor. Outro importante aspecto da terapia é gerar um “bônus terapêutico” que promove um estímulo secundário ao sistema imune, responsável pelos mecanismos de defesa do corpo. Esse benefício ocorre porque a técnica promove a interação com cromóforos (átomos de uma molécula, responsável pela cor) naturais das hemácias. Elas absorvem energia e geram o chamado efeito fotobioestimulador, que transforma a energia luminosa em energia química, através da cadeia respiratória da célula, produzindo mais fonte de energia e melhorando o metabolismo celular, explica Sampaio. “Os mecanismos de ação da terapia geram estresse oxidativo, fotoindução da imunidade e a fotoautofagia, ação que inibe a cultura do Enterococcus faecalis”, descreve Sampaio.

Para fins de estudo, foram utilizadas diferentes concentrações do corante. O grupo 1 utilizou a concentração de 3,32 ηg/ml e não apresentou modificações no dente após o uso do fotossensibilizador. Nas demais, é ampliada a concentração do corante

O estudo utilizou luz vermelha laser e LED de baixa potência e o fotossensibilizador azul de dimetilmetileno em nanoconcentração. Em sua aplicação na terapia, esse corante azul é altamente diluído em água, não causando pigmentação no dente, mucosas ou pele, “o que permite utilizá-lo com segurança nos tratamentos odontológicos sem que haja riscos de pigmentação nas estruturas internas do dente”.

Intitulada “Eficácia da terapia fotodinâmica antibacteriana contra Enterococcus faecalis utilizando derivados fenotiazínicos associados ao laser e led vermelhos”, a pesquisa de doutorado gerou uma patente, atualmente sob a gestão da UFBA. Uma parte de seus resultados também foi publicada na respeitada revista Journal of Photochemistry & Photobiology, B: Biology (Jornal de Fotoquímica e Fotobiologia, B: Biologia), no qual, além de Sampaio, assina o time que colaborou na realização do estudo.

Atualmente pós-doutorando em Odontologia pela USP São Carlos-SP (INCT de Óptica Básica e Aplicada às Ciências da Vida), Sampaio divide os bons resultados da pesquisa com o seu orientador, Antônio Luiz Barbosa Pinheiro, da Faculdade de Odontologia (Centro de Laser), e com o co-orientador, Paulo Fernando de Almeida, do Laboratório de Biotecnologia e Ecologia de Microrganismo (Labem) do Instituto de Ciências da Saúde. Ele também não esquece a cooperação de Iuri Pepe, do Laboratório de Propriedades Óticas (Lapo) do Instituto de Física, e os dos demais colegas pesquisadores.

Natural da cidade de Ruy Barbosa, na Bahia, o cirurgião-dentista lembra as noites, os domingos e feriados de dedicação para execução e coleta de dados, momentos em que muitas vezes esteve ao lado dos colegas de pesquisa, numa sinergia em prol do estudo. O percurso não foi fácil, conta o dentista: os percalços tiveram início já no mestrado, quando os resultados não foram satisfatórios, em razão do grande desafio e do curto período do mestrado, de apenas dois anos, problemas que se somaram à contaminação de amostras, tornando os resultados imprecisos. Porém, o estudo promissor ganhou logo espaço no doutorado, quando ele teve mais tempo e melhores condições para a conclusão da pesquisa.

“Luz não é só holística, é ciência”, brinca Sampaio. O pesquisador já  trabalha em novos desafios a partir do estudo, seja no combate a outras bactérias, fungos, parasitas, seja para melhor compreender os efeitos da terapia fotodinâmica do ponto de vista bioquímico no interior da célula.

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