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O passado que é presente em Minas Gerais

por | 3 ago 2023

Por Luiza Moura

Encantada com Belo Horizonte e arredores, colunista investe contra mineradoras que apoiam iniciativas culturais, mas seguem pondo em risco vastas populações, natureza e belezas da região

Serra do Curral (foto Luiza Moura)

 

Na última semana de julho, fui pra Belo Horizonte, em Minas Gerais. Eu já tinha visitado as cidades históricas de Minas com a escola, há um tempo, mas nunca tinha ido pra BH. Não esperava muita coisa, mas, confesso que a cidade me conquistou, me encantou, e eu saí apaixonada por cada prédio, cada rua, cada esquina daquele lugar. Talvez você esteja se perguntando por que eu tô fazendo um relato de férias em um texto de uma coluna que é sobre clima e questões climáticas. Bom, porque não dá para falar de Minas Gerais sem falar sobre mineração.

Eu fui pra BH logo depois de ter lido dois livros do Krenak, pensador indígena brasileiro que nasceu em Minas Gerais, na região do Rio Doce e que fala o tempo todo sobre a tragédia das mineradoras na região e, especialmente, na vida dos povos indígenas de lá. A presença dessas empresas é, realmente, pesada na cidade. Vários dos museus e das casas de cultura são financiados e patrocinados pela Vale. Sim, isso mesmo, a Vale que foi responsável pelos crimes ambientais em Brumadinho e Mariana, cidades históricas que ficaram cobertas de lama e que até hoje vivem os impactos disso (inclusive, exigimos justiça e reparação).

Como eu sou chata, falei logo para os meus pais que me recusava a entrar em museus financiados pela Vale. E até consegui. Fugi de vários. Mas, no último dia, quando estávamos saindo de Inhotim, eu descobri que aquele lugar sensacional também era apoiado pela Vale do Rio Doce. Fiquei irritada, até porque Inhotim fica em Brumadinho, cidade que a Vale ajudou a soterrar. Mas, tudo bem, o passeio é incrível e realmente vale a pena.

Eu só fico me perguntando o quanto a Vale tá interessada em fomentar a cultura local e quanto disso é uma tentativa meio bizarra de tentar “passar o pano” no que aconteceu nas cidades mineiras e tentar fugir um pouco de responsabilizações. Enfim, greenwashing que chama, né?

Como eu disse, não dá para dissociar a história de Minas da história da mineração. Tá até no nome. Mas, o que me assustou foi que esses projetos megalomaníacos de exploração do solo continuam sendo uma realidade até hoje. No meu último dia em BH, um amigo queridíssimo me levou até um lugar que chama Praça do Papa, no pé da Serra do Curral. E um lugar lindo, com uma vista incrível e que faz a gente se sentir pequenininho perto da imensidão da montanha.

Meu amigo me contou que até bem pouco tempo estavam querendo minerar naquela montanha, que já não é inteiramente preservada. Mais uma vez, eu pergunto, o que estamos dispostos a sacrificar em nome de um “progresso”, de uma “riqueza”, de um “desenvolvimento” que nos obriga a destruir um lugar tão lindo e tão necessário quanto aquele. Para que essa necessidade bizarra de tirar minério de dentro da montanha? Em nome de que? Que desenvolvimento é esse? A gente viu bem os efeitos e as consequências dessa gana mineradora, né Vale? Nenhum museu que você crie vai fazer a gente esquecer o que aconteceu.

Acho que, de forma geral, essa viagem me fez perceber, de fato, a proximidade dos efeitos da mineração. Em São Paulo, eu tô distante disso tudo. A gente sabe dos problemas, dos crimes, dos ataques a direitos de populações originárias e de todas essas questões. Mas, lá em Minas, eu vi. Eu vi a Serra que eles querem esburacar com as máquinas enormes. Eu vi a empresa responsável por dois dos maiores crimes ambientais que já aconteceram patrocinando a cultura como se nada tivesse rolado, eu vi, na entrada do parque, um poema do Drummond de 1976 que já falava sobre os problemas da mineração na Serra do Curral.

Ainda tô tentando processar tudo isso, entender o impacto dessa presença maciça das mineradoras e da mineração por lá. Acho que ainda vou demorar para entender todo o impacto que isso causou em mim, enquanto ativista socioambiental.

Mas, o que eu sei com toda a convicção é que Belo Horizonte mudou minha vida. Me abriu horizontes, escancarou novas possibilidades, mostrou alamedas possíveis de caminhar e de agir. Me fez entender, ainda mais, a urgência de manter viva a chama que me faz levantar e lutar todos os dias. E me fez ficar com mais raiva ainda dessa forma predatória e destrutiva que os seres humanos inventaram para “se desenvolver”. Obrigada por tudo, Belo Horizonte. Tô completamente apaixonada por você e pelas suas muitas histórias. Eu volto logo, prometo.


Luiza Moura é estudante de relações internacionais na PUC-SP e ativista socioambiental

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