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O colapso da rede de saúde é uma doença política
covid-19

por | 17 mar 2021

Um ano após o início da pandemia, país vive situação desesperadora

Sepultamento de vítima da covid em 1º de março, em Manaus (Foto: Raphael Alves/Amazônia Real via FotosPublicas)

Mensagem aos leitores com idade média de 20 anos (mas não se sinta alijado se você é mais novo ou muito mais velho, pode ler!)

O Brasil registrou ontem, terça-feira, 16 de março, mais 2.798 mortes por covid-19 em 24 horas e 84.124 novos casos no mesmo período, segundo as estatísticas atualizadas do consórcio de veículos de comunicação. O número total de vidas de brasileiras e brasileiros ceifadas desde o começo da pandemia – oficialmente declarada pela Organização Mundial de Saúde (OMS) em 11 de março de 2020 – rapidamente se aproxima de 300 mil (passou na terça-feira de 282 mil). As projeções para os próximos meses indicam uma corrida acelerada para aterradoras 500 mil ou 600 mil mortes. Quantas poderiam ter sido evitadas? Quantas vidas ainda podem ser salvas?

Na região metropolitana de São Paulo, liderada pela maior e mais rica cidade do país e da América do Sul, as unidades de terapia intensiva de hospitais públicos e privados atingiram também ontem uma taxa de ocupação de 90,6%, o que é o mesmo que dizer, em números, que é praticamente impossível você encontrar a tempo vaga numa UTI e ser salvo por uma equipe de profissionais capazes e dedicados se seu quadro da doença se agravar rapidamente. No estado todo, a taxa de ocupação atingiu 89,9%.

O nome para tudo isso é colapso do sistema de saúde, marcado, entre outros aspectos, por mortes fora do ambiente hospitalar adequado, porque simplesmente não há mais vagas. Assinalado por dramas e desespero familiares quase inenarráveis, de tão pungentes, na porta e em saguões de hospitais.

Esse colapso na segunda e violenta onda da covid-19 que atinge o país todo, e de que São Paulo é uma amostra, resulta de escolhas políticas conscientes, de uma radical e aparentemente deliberada impotência de gestão pública e de comportamentos sociais (festas, aglomerações voluntárias ou involuntárias, negligência nos cuidados recomendáveis de higiene etc.) – nada tem a ver neste momento com insuficiência de respostas da ciência.

A pesquisa científica sobre o alarmante e misterioso Sars-CoV-2 mobilizou, desde o começo de 2020, dezenas de milhares de cientistas de múltiplos campos do conhecimento, no mundo todo, para o esforço de compreender a doença provocada pelo vírus, decifrá-lo em sua bioquímica, biologia, fisiologia e interação com as células humanas, testar candidatas a vacina e potenciais fármacos capazes de tratar a doença e evitar mortes decorrentes de seu agravamento.

O formidável empenho resultou em poucos meses numa enxurrada de alguns milhares de artigos científicos, entre revisados e validados por outros cientistas (no processo chamado de revisão por pares) e publicados no sistema pré-print, ou seja, abertos à comunidade científica sem essa validação prévia. Avançou-se muito rapidamente, assim, no conhecimento do vírus e de suas formas de circulação. Isso deu base às recomendações do distanciamento físico, de uso de máscaras e higiene das mãos, comportamentos que seriam fundamentais para reduzir a contaminação e deter a pandemia.

O empenho resultou também na compreensão de que se estava ante uma doença não apenas respiratória, apesar de a falência dos pulmões ser largamente a causa das mortes, mas sistêmica, a envolver o organismo inteiro. Determinou também o descarte de uma série de fármacos já existentes, testados para ver se funcionavam na minoração da doença. Paralelamente, no front hospitalar, na difícil prática de médicos e outros profissionais de saúde por horas sem fim nas UTIs, avançou-se muito no manejo da doença até o limite do impossível para evitar óbitos.

E, marco realmente notável, em apenas nove meses, com base em plataformas tecnológicas já usadas para desenvolvimento de vacinas contra epidemias anteriores, a comunidade científica oferecia ao mundo as primeiras vacinas eficazes contra a covid, dentre as cerca de 270 que se encontravam em desenvolvimento.

Entretanto, na contramão do que a racionalidade, as evidências científicas e até mínimos padrões éticos civilizacionais recomendavam, o (des)governo brasileiro, via seu presidente e/ou acólitos, produzia as seguintes insanidades:

  • Levava a população a não acreditar na severidade da doença, comparando-a a “uma gripezinha”. Sugeria que pessoas saudáveis, “com histórico de atleta”, jamais teriam sintomas mais graves de covid.
  • Buscava desmoralizar as medidas de distanciamento propostas originalmente por seu primeiro ministro da saúde, por governadores e prefeitos, e incentivava diretamente as aglomerações, participando inclusive de atos contra as instituições democráticas.
  • Ridicularizava o uso das máscaras, dispensando-as seja em solenidades oficiais, seja em suas incursões a diferentes áreas e cidades satélite de Brasília, comendo em meio a aglomerações em lanchonetes e bares, cumprimentando seus seguidores com apertos de mão, depois de passar os dedos no nariz etc. Manteve o mesmo comportamento em outras cidades onde inaugurava obras.
  • Menosprezava as mortes resultantes da covid, argumentando que todos um dia vão morrer (Osmar Terra, do grupo próximo ao presidente – e médico, calculou que a pandemia causaria 3 mil mortes no país).
  • Menosprezava a dor e o luto de quem chorava por seus familiares mortos, classificando-os de maricas.
  • Insistia no investimento em compras de medicamentos para um suposto “tratamento precoce”, como a cloroquina, cuja eficácia foi seguidamente desmentida por estudos científicos (levantamento da BBC News Brasil mostrou que até janeiro o governo gastou nessa empreitada pelo menos R$ 89.597.985,50 e, especificamente com a cloroquina 1.462.561,50.

Mais grave do que todas essas práticas com efeitos no comportamento da população, foi a inépcia administrativa que resultou nos três pontos seguintes:

  • Não tomou medidas necessárias para a compra de vacinas no mercado internacional no momento em que foram oferecidas, em setembro de 2020, e dificultou enormemente as negociações para a compra de insumos da China, além de atacar sempre e violentamente o esforço do Instituto Butantan e do governo paulista pelos testes e, posteriormente, produção local da vacina Coronavac.
  • Cerceamento ao trabalho dos responsáveis pelo Plano Nacional de Imunização (PNI), um grupo com tradição de alta competência técnica, com capacidade para traçar campanhas de vacinação, por meio do Sistema Único de Saúde (SUS) de até 2 milhões de pessoas por dia.
  • Falta de apoio financeiro a pequenos negócios e à população mais necessitada, com a diminuição e, depois, fim do auxílio emergencial, medidas que permitiriam às pessoas ficar em casa e apoiarem as medidas de restrição de circulação.

Em artigo no Estadão do domingo retrasado, 7 de março, observando a questão das novas variantes do vírus, principalmente a P1, em acelerada circulação no país, o respeitado biólogo e colunista do jornal Fernando Reinach dizia que o Brasil vai precisar, como nunca, de seus cientistas. “Combater um coronavírus verde-amarelo é um problema que tem de ser resolvido por brasileiros. Mais do que nunca vamos precisar dos nossos cientistas”, dizia no fechamento do texto.

De acordo. Mas antes mesmo, o Brasil precisa, como nunca, de uma política democrática e de proteção à vida. De respeito ao povo brasileiro. A política da morte em que hoje o país se vê afundando e sendo violentamente esmagado com certeza levará a catástrofe em curso a dimensões inimagináveis.

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