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por | 11 mar 2026

Luiza Moura repercute a vitória dos povos indígenas contra a privatização do Rio Tapajós

Foto: Comunicação / Conselho Indígena Tapajós-Arapiuns (Cita) | Cimi

Acho que talvez eu esteja um pouco atrasada para tratar sobre esse tema aqui na coluna. Mas, pensando sobre o que eu iria escrever essa semana, percebi que não poderia não comentar a incrível vitória que os povos indígenas da região do Baixo Tapajós tiveram há cerca de quinze dias.

Vamos começar do começo. Em agosto do ano passado o presidente Lula divulgou o decreto nº 12.600/2025, que previa a inclusão dos rios Tapajós, Madeira e Tocantins no Programa Nacional de Desestatização. Palavras bonitas e complexas para um ato muito ruim: a privatização desses rios. Isso, por si só, já seria um ato grave.

No entanto, a situação se mostrou ainda mais grave. A privatização dos rios vinha sendo muito defendida por grandes empresas do agronegócio, como a Cargill, uma das gigantes do agro, que já opera em portos da região amazônica. A entrega do Tapajós, do Madeira e do Tocantins para a iniciativa privada ajudaria a concretizar um modelo agro-exportador para a região Norte do Brasil, contribuindo para a lógica predatória e destrutiva que já opera em diversos locais do Brasil e do mundo.

Mas, é claro, os povos indígenas da região não iam deixar que as águas amazônicas fossem privatizadas assim, sem lutar e sem resistir. Afinal de contas são eles que, há mais de 500 anos, defendem as florestas e o meio ambiente brasileiro. No dia 14 de janeiro, depois de muitas tentativas de negociar e de se fazerem ouvidos, povos indígenas de diferentes etnias ocuparam uma das sedes da Cargill, na cidade de Santarém.

Pedindo respeito ao rio Tapajós e aos outros cursos d’água amazônicos, os representantes de comunidades indígenas garantiram que não iriam desocupar o espaço até que o decreto 12.600 fosse completamente revogado, garantindo a preservação e um uso adequado das águas.

Foi somente no dia 23 de fevereiro, depois de quase um mês de ocupação e inúmeras ameaças de reintegração de posse e processos jurídicos, que os povos indígenas foram verdadeiramente ouvidos. Com muita articulação, muita resistência e muita luta, no fim de fevereiro o presidente Lula anunciou oficialmente a revogação do decreto, que não deveria nem ter sido promulgado.

O fato é que o movimento indígena mostrou, mais uma vez, que com organização popular, luta coletiva e muita resistência, é possível vencer batalhas que muitas vezes parecem perdidas. A defesa dos territórios, das águas, do ar e das florestas deveria ser algo inegociável. Ainda assim, estamos longe de ver essa pauta ser uma prioridade e uma unanimidade.

Como eu sempre digo aqui, o movimento e a organização dos movimentos de povos indígenas deve ser extremamente respeitado e aplaudido. Não é simples conseguir uma vitória dessas e, mais do que isso, uma vitória completa. Não houve uma concessão de pauta, ninguém amoleceu em nome da “conjuntura política” e as reivindicações que eles faziam — todas absolutamente justas — foram levadas até o fim.

A luta ambiental não pode mais aceitar aquilo que é “menos pior”. Não temos tempo para meias concessões ou ações que mais ou menos defendam a natureza, o meio ambiente e os povos que vivem em harmonia com a floresta. Nossa defesa intransigente daquilo que é correto e necessário tem muito a aprender com a organização, a coletividade e a resistência dos povos indígenas.

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