Colunista questiona se os ganhos econômicos da mineração compensam seus efeitos destrutivos

Área de mineração de terras raras da MP Materials na Califórnia, Estados Unidos (foto: Tmy350 — CC BY-SA 4.0)
Todo mundo já ouviu falar sobre as tais terras raras. Se eu tivesse que chutar, diria que foi um dos dez assuntos mais comentados do último ano. Desde o ano passado, quando os Estados Unidos deixaram claro o seu interesse nesses recursos naturais, o Brasil tem pautado o assunto, discutindo a regulamentação da exploração e batendo na tecla de que esses minérios pertencem ao povo brasileiro.
Antes de continuar esse texto, preciso deixar uma coisa absolutamente clara: eu acho que o território do Brasil pertence ao Brasil. É inconcebível que qualquer outro país queira vir aqui tirar à força o que está no solo brasileiro. Ponto pacífico.
No entanto, eu gostaria de dar um passo atrás. Será que é mesmo o momento de discutir a exploração de terras raras? Porque precisamos falar com todas as letras: explorar minerais críticos significa, necessariamente, cavoucar a terra, instalar fábricas de mineração, poluir rios, quebrar o equilíbrio ecossistêmico instalado nos locais de exploração. E sejamos sinceros: a exploração de minerais já se mostrou um negócio extremamente perigoso e com altos riscos. É só a gente sempre lembrar do que aconteceu em Brumadinho e em Mariana.
O que mais se escuta é que esses minerais críticos são fundamentais para o “desenvolvimento” do Brasil em tempos de inteligências artificiais, produção de chips e tecnologias avançadas. Eu gostaria de perguntar: desenvolvimento para quê? Desenvolvimento para quem? Para os povos indígenas e originários do Brasil isso, certamente, não trará desenvolvimento. Ao contrário, será mais uma violência contra a terra, contra a natureza, contra a Pachamama.
Arturo Escobar, cientista social colombiano e nome reconhecido dos estudos decoloniais, costuma dizer que a ideia de desenvolvimento foi inventada. Criada pelos países do Norte Global, construindo parâmetros impossíveis de serem alcançados, que servem para manter um grupo de países num local permanente de atraso. Esse modelo serviu, também, para destruir a natureza, apagar culturas e colocar em risco uma série de modos de vida que não seguiam esse modelo tosco de crescimento a qualquer custo.
Porém, como o próprio Escobar diz na introdução de seu livro ‘A invenção do desenvolvimento’: “Em muitas partes do mundo, o ‘desenvolvimento’ continua sendo uma importante força social e cultural a ser enfrentada” (tradução minha). É o caso do Brasil, da América Latina e dos países do Sul Global de maneira geral. Seguimos insistindo em um modelo falido, que não nos colocou na mesa de discussão com as potências mundiais e que, na prática, continua prejudicando a nossa própria população.
Em tempos de crise climática — em que a manutenção das florestas em pé, do solo preservado, dos rios limpos, etc, é tão importante — será que deveríamos mesmo estar falando sobre destruir mais territórios em nome de minério? Não foi justamente esse modelo de crescimento que nos colocou nessa situação de colapso social e ambiental?
Entendo que é tempo de construir outros modelos possíveis: com bem-viver, com coletividade e com des-desenvolvimento. Como diz Ailton Krenak, é tempo de construir um futuro ancestral. E discutir a exploração de terras raras, a essa altura do campeonato, simplesmente coloca, ainda mais, o nosso presente e o nosso futuro em risco.
Luiza Moura é bacharela em relações internacionais pela PUC-SP, mestranda em mudança social e participação política pela USP e ativista socioambiental






