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Decifrando o voo da gaivota interestelar
Astronomia

por | 12 dez 2019

A nebulosa da Gaivota (foto: Bob Franke)

A nebulosa da Gaivota tem esse nome por causa de seu formato, semelhante ao de uma ave batendo as asas. Ela é composta principalmente por outras três nebulosas – nuvens interestelares de gás e poeira: a Sh 2 – 292 (a cabeça), a Sh 2 – 297 (a ponta de uma das asas) e a Sh 2- 296 (as asas). E foi justamente a origem dessa região das asas que um grupo de pesquisadores, liderados pela astrônoma Beatriz Fernandes, conseguiu desvendar.

O trabalho coordenado por Fernandes, 34 anos, pós-doutoranda do Instituto de Astronomia e Geofísica da Universidade de São Paulo (IAG-USP), mostrou que a nebulosa da Gaivota é, na verdade, parte de uma gigantesca concha estelar descoberta pela equipe – que denominou a estrutura de “CMa shell” (concha CMa) –, formada por sucessivas explosões de supernova. “Ao analisar imagens da associação CMa OB1, vemos claramente que a nebulosa Sh 2-296 é, de fato, parte de uma grande estrutura, uma grande concha elíptca”, contou Fernandes.

Imagem mostrando uma das estrelas fugitivas e a frente de choque. A seta amarela indica a direção do movimento da estrela fugitiva (imagem: Beatriz Fernandes)

A equipe também identificou três estrelas “fugindo” dessa região, associadas a estruturas de choque em forma de arco (bow shockum tipo de onda formada quando um corpo se desloca a uma velocidade maior do que a do meio, como as ondas na frente de um barco, mas em 3 dimensões), com uma origem comum perto do centro da concha CMa. “Descobrimos que as estrelas fugitivas provavelmente foram ejetadas de um aglomerado de estrelas progenitor, em três sucessivas explosões de supernovas ocorridas há aproximadamente 6, 2 e 1 milhão de anos atrás”, explicou.

A região estudada, as três estrelas fugitivas e a posição original das estrelas (início das setas) antes de serem ejetadas pelas explosões de supernova. As setas indicam a direção do movimento das estrelas fugitvas. (Imagem: Beatriz Fernandes)

O grupo já vinha – e continua – estudando a formação estelar associada à nebulosa da Gaivota, onde já se suspeitava que uma explosão de supernova no passado poderia ter desencadeado a formação de estrelas. “Foi a presença das estrelas fugitivas próximas ao que chamamos agora de ‘concha CMa’ que me motivou a investigar se a origem dessas estrelas fugitivas poderia nos dar novos indícios sobre possíveis explosões de supernovas na região”, disse Fernandes ao Ciência na rua.

As sucessivas explosões de supernovas nos últimos 6 milhões de anos podem também ter desencadeado vários surtos de formação estelar na nebulosa Sh 2-296, mas não é esperado que mais estrelas sejam formadas nessa região. Segundo Jane Gregorio-Hetem, professora do IAG-USP, “o trabalho de doutora Beatriz desvendou o mistério sobre a história da formação estelar na Associação Canis Major OB1. Ela encontrou evidências de três eventos de explosão de supernovas que induziram o nascimento de estrelas há alguns milhões de anos. E, ao que tudo indica, não vão ocorrer mais episódios de formação estelar nesta região.”

O estudo de regiões como Sh 2-296, em que a morte das estrelas de maior massa afeta a formação de novas gerações de estrelas, pode  ajudar a entender como as estrelas se formam em diferentes ambientes e como fatores externos podem influenciar o fenômeno. “Nosso próprio sistema solar pode ter tido origem em um cenário como esse”, explicou Fernandes. “Estes estudos têm um importante papel no entendimento da evolução da nossa galáxia, principalmente em termos da distribuição dos elementos químicos. Além disso, pode trazer valiosas informações sobre os estágios iniciais da evolução das estrelas e discos protoplanetários, que circundam as estrelas jovens encontradas nas regiões de formação estelar. É a partir desses discos que teremos a formação de outros sistemas planetários, e esse tipo de estudo, que se refere aos exoplanetas, também é de grande interesse astrofísico na atualidade”.

O próximo passo do grupo é investigar regiões na borda da concha CMa, onde os cientistas suspeitam que a formação de estrelas ainda possa estar ocorrendo, por influência das explosões de supernova. Aqui na Terra, porém, as preocupações são mais mundanas e imediatas: “O Brasil é parte de diversos convênios e colaborações internacionais em astronomia, além de ter pesquisadores de ponta. Há potencial para estarmos no mesmo patamar que o estado da arte no mundo. Mas ainda temos muito o que crescer e acredito que a escassez cada vez maior de verbas, bolsas de pós-graduação e pós-doutorado vão certamente prejudicar isso. Muitos projetos, como este, podem ser interrompidos”, constata Fernandes.

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