jornalismo, ciência, juventude e humor
Cientistas correm para evitar derretimento da “geleira do apocalipse” na Antártida

foto: NASA/OIB/Jeremy Harbeck

A geleira de Thwaites é uma massa de gelo no oeste antártico, aproximadamente do tamanho da Grã-Bretanha ou do Paraná, que está derretendo a taxas impressionantes. Uma extensa reportagem publicada em 15 de janeiro pela revista britânica NewScientist traz informações sobre os crescentes esforços que vêm sendo empregados por cientistas para conhecer melhor a geleira e impedir a catástrofe que significaria seu derretimento completo.

Embora ela venha derretendo desde o início dos anos 90, a perda de gelo aumentou muito nos últimos 20 anos, chegando a 35 bilhões de toneladas por ano. Estima-se que seu colapso – sozinho – resultaria em uma elevação de 65 centímetros no nível dos oceanos (ao longo do século XX, a elevação foi de 19 centímetros). Pior: ela serve de apoio para toda a camada de gelo do oeste antártico. Seu colapso, então, poderia significar um aumento de 3,3 metros no nível do mar, dentro de alguns séculos.

A geleira foi a última área litorânea mapeada em detalhes na Antártida, em 1940. Cientistas chegaram lá pela primeira vez no fim dos anos 1950; nos anos 1980 e 1990, alguns navios de pesquisa visitaram a região, mas só em 2004 aviões com radar de penetração no gelo puderam começar a desvendar sua espessura, dado fundamental para a compreensão da interação da geleira com o aquecimento global.

Um acordo de cooperação de US$ 50 milhões entre Estados Unidos e Reino Unido, iniciado em 2018, o International Thwaites Glacier Collaboration, promete aumentar consideravelmente nosso conhecimento sobre a geleira. Antes dele, a maior parte do que se sabia vinha de informações conseguidas por satélite, o que bastou para perceber seu derretimento. Agora, pesquisas de campo poderão ajudar a entender se o derretimento é irreversível, o quanto contribuiria para o aumento do nível do mar e em quanto tempo os efeitos seriam sentidos.

A previsão da taxa de elevação do nível dos oceanos ainda é muito imprecisa – o mais recente relatório do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças do Clima, na sigla em inglês) fala em 26 centímetros a 1,1 metro no ano de 2100, e entender isso é importante para a adoção de medidas paliativas em regiões litorâneas de baixa altitude e habitadas. “Sabemos que a grande incerteza está nos mantos de gelo da Groenlândia e da Antártida. Se realmente quisermos prever o aumento do nível do mar de forma clara e útil, temos que dominar essas duas coisas”, explicou David Vaughan, diretor científico do Serviço Antártico Britânico (British Antarctic Survey, BAS, na sigla em inglês), à NewScientist.

Recentemente, estudo liderado por Eric Rignot, da Universidade da Califórnia em Irvine, nos EUA, obteve dados com um avião com radar de penetração de gelo que permitiram identificar um buraco no fundo da geleira onde antes devia haver 14 bilhões de toneladas de gelo. Outro estudo do autor, ainda por publicar, aponta a existência de mais cavidades similares sob geleiras próximas. A descoberta indica que esses buracos são comuns em geleiras que estão diminuindo, o que pode estar relacionado ao degelo.

Outro fenômeno que tem sido observado, no limite da geleira (ou seja, onde não há solo sob o gelo), é o derretimento por baixo do gelo, aparentemente causado pelo fluxo de águas mais quentes, relacionado ao aquecimento global. “A hipótese é que a água morna esteja causando ou aumentando a taxa de derretimento. Uma das perguntas é: como essa taxa varia de ano a ano? E por quê?”, explicou à NewScientist Karen Heywood, da Universidade de East Anglia, no Reino Unido. Para descobrir, ela vai prender etiquetas que medem temperatura em elefantes marinhos e focas, que mergulham da superfície ao fundo do mar para se alimentar. Ela também vai usar planadores subaquáticos controlados remotamente, com diversos instrumentos, como microfones ou aparelhos que meçam a turbulência na água.

Outro tema importante é o leito rochoso sobre o qual está a geleira – se é liso ou rugoso, seco ou molhado, fatores que influenciam no quanto a geleira pode deslizar. Atualmente, a fricção é estimada, mas uma equipe de pesquisadores liderada por Sridhar Anandakrishnan, da Universidade Estadual da Pensilvânia, nos EUA, pretende mapear parte do leito rochoso, com o auxílio de explosivos que gerem uma onda sísmica, e assim melhorar a modelagem do derretimento.

Mais um aspecto que atrai a atenção dos cientistas é a chamada grounding line (linha de aterramento ou linha de referência), ou seja, o limite onde a placa de gelo desprende do solo antes de deslizar rumo ao Mar de Amundsen. Essa linha tem recuado de um a dois quilômetros por ano. Como a geleira fica sobre uma superfície côncava, cuja altitude diminui no sentido do centro, com a “frente” do gelo apoiada nas bordas, alguns cientistas entendem que, se a linha de aterramento recuar muito, a posição da geleira num declive a tornará instável, acelerando o degelo. Alguns cientistas, inclusive, acreditam que essa tendência irreversível já começou. Pesquisadores estão procurando pontos onde perfurar o gelo até a base rochosa e colocar sensores de ambos os lados da linha, para medir a velocidade com que a parte inferior do gelo está se movendo.

Outra preocupação é com os penhascos que podem se formar, caso a massa flutuante de gelo se perca. O gelo não sustenta penhascos de mais de cem metros de altura, e, conforme um despenque, pode deixar atrás de si outro ainda mais alto, que também vai despencar, num efeito cascata. Nesse cenário hipotético, o manto de gelo da Antártida Ocidental poderia colapsar no próximo século.

Há ainda mais uma frente de pesquisa: a análise de sedimentos do fundo do mar na região em que o gelo encontra o oceano. Os sedimentos podem trazer informações químicas de como a água mais quente influenciou a geleira em tempos remotos, o que pode ajudar a entender que influência essa interação tem hoje e terá no futuro.

Todos esses diferentes trabalhos servirão para criar modelos mais precisos do fenômeno e, ainda que a incerteza não vá desaparecer, ela pode diminuir, sustenta a reportagem da Newscientist. Conhecer o problema é fundamental para quem estiver pensando em soluções para evitar que cidades litorâneas e mesmo pequenos países insulares não sumam do mapa.

Compartilhe:

Acompanhe nas redes

ASSINE NOSSO BOLETIM

publicidade