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Afinal, o que é um vírus?

Alan Felipe e Laura Segovia Tercic

Arte: Lucas Oliveira

Imagine estar em uma escola nova. O professor de biologia, querendo confrontar os alunos, pergunta quem acha que vírus são seres vivos e a sala inteira, tímida, fica com a mão abaixada. Mas você acha que não, que eles têm vida. Você levantaria a mão?

Isso aconteceu com um dos autores deste texto, que decidiu encarar os olhares inquisidores dos novos colegas de classe se sentindo como alguém que carregava a verdade de Galileu Galilei ao dizer que a Terra girava em torno do sol e levantou a mão para dizer “vírus são seres vivos”. Era como se fosse o Nhonho naqueles episódios da escola, dando a resposta certa para o Professor Girafales, e o resto da turma eram todos Chaves, que, equivocadamente, começavam a rir e repetir: “Ai, que burro, dá zero pra ele”.

Só que diferente de Galileu (ou do Nhonho), o professor disse que estava errado e traumatizou um pouco o jovem estudante. Acontece que existem muitas definições do que é considerado vivo. Cada definição segue critérios (ou “regrinhas”) diferentes. É mais ou menos como quando definimos o critério “cheirar o sovaco da camiseta para ver se está ruim” e assim decidir se ela pertence ao cesto de roupa suja ou de volta no armário. São condições que não necessariamente são iguais para todo mundo, mas uma vez decidido em conjunto (por exemplo, sua mãe decidiu esse critério para a casa toda), todos devem seguir.

Essas condições ou critérios não necessariamente refletem a realidade da natureza, mas assim pode-se entender melhor o que estamos tentando conhecer, fazer novos estudos.

Um dos critérios que já foram usados pelos cientistas para definir o que é vida é o de que são todos os seres que “nascem, crescem, se reproduzem e morrem”. O problema dessa definição é que aí até cristais, ou inteligência artificial como a Jarvis do Homem de Ferro, podem ser considerados vivos. Cristais são capazes de surgir (“nascer”), aumentar de tamanho (“crescer”), criar cópias de suas estruturas (“reproduzir”) e deixar de existir caso alguém pise em um, ou seja destruído de alguma outra forma. Poderíamos dizer que isso é “morrer”, por que não?

Segundo os critérios mais bem aceitos pelos biólogos hoje em dia, vírus não são seres vivos. Isso porque para ter vida é necessário ser capaz de, por conta própria, fabricar as moléculas das quais os seres são feitos.

Por exemplo, em nós, seres humanos: cada uma das nossas células fabrica por conta própria, a partir dos alimentos que ingerimos, o material de que somos feitos. É como se pegássemos um alimento, como uma cenoura ou um bolo de chocolate, e desmontássemos suas moléculas igual desmonta-se um carrinho de lego. Cada pecinha de lego simboliza uma molécula que o nosso corpo absorve para rearranjar e montar de outra forma. Os vírus não conseguem fazer isso por conta própria e, para remontar suas moléculas, precisam entrar na célula ou então apenas colocar dentro delas o seu material genético (DNA ou RNA).

O material genético é como um “código de barras” que diz quem nós somos, mas também contém as instruções de como cada célula deve agir. Assim, a célula invadida pára de fazer o que deveria estar fazendo e começa a trabalhar nessa grande produção e montagem de vírus. Uma vez que esteja bem cheia de novos vírus montados, ela se rompe, e os vários novos vírus saem para infectar novas células. E assim por diante. Ou seja, podemos dizer que as células viram escravas dos vírus que chegam nelas. E isso pode acontecer com as células de animais, mas também de plantas e até bactérias. Sim, bactérias em geral são maiores que vírus e também podem ser infectadas por eles.

Arte: Raquel Abe

Protegendo o material genético dos vírus estão uma ou mais capinhas feitas de proteínas e algumas outras substâncias. É essa capinha que permite ao vírus chegar até a célula que vai infectar, assim como faz nosso corpo reconhecer a diferença entre este ou aquele vírus. Há muitos tipos e grupos diferentes de vírus. E a área, dentro da biologia, que estuda isso é a virologia. São os virologistas, por exemplo, que deram o nome Coronaviridae para o grupo do qual o novo coronavírus , que causa a covid-19, além de outros coronavírus, fazem parte. O nome vem de “coroa” por causa do formato de sua capa, com proteínas que parecem uma coroa de espinhos.

Arte: Lucas Oliveira

Como nossos órgãos são feitos de células, uma vez que elas são destruídas acabam prejudicando o funcionamento desses órgãos, e aí ficamos doentes. Também podemos ficar doentes pela reação exagerada do nosso corpo ao detectar que há um invasor dentro dele, do qual estamos tentando nos livrar. Como nas reações alérgicas. No caso do novo coronavírus, as células dos nossos pulmões são atacadas, mas a resposta exagerada para tentar eliminá-lo acaba sendo pior ainda.

Outros tipos de microorganismo, como bactérias, por exemplo, podem também invadir nosso corpo. Só que bactérias são consideradas seres vivos pela ciência. Por que será? Consegue perceber a diferença, considerando os critérios atuais dos cientistas?

Não tenha medo de ser um Galileu, ou uma Galiléia, no meio da multidão. Você só precisa conhecer bem o suficiente os critérios de definição para ter um bom argumento. E, às vezes, podemos chegar à conclusão de que “cheirar o sovaco da camiseta” não é um critério muito bom para categorizar roupas, e criar outro. Mas aí boa sorte para convencer o resto da casa!

 

Alan Felipe é jornalista e pós graduando no curso de jornalismo científico do Labjor, Unicamp.
Laura Segovia Tercic é bióloga e pós graduanda no curso de jornalismo científico do Labjor, Unicamp.

A partir desta semana, o Ciência na rua publica a série Explicando a covid-19 para adolescentes, produzida pelo Lab-19, projeto de divulgação científica de um grupo de alunos do curso de especialização em jornalismo científico do Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo da Universidade Estadual de Campinas (Labjor-Unicamp), engajados, como tantos, em contribuir para a disseminação de informações corretas e confiáveis sobre a epidemia de covid-19 para públicos diversos.

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