Signatário do programa Artemis, país mira projetos de agricultura espacial e pesquisas em ciência básica de nosso satélite

Foto: Paulo Lanzetta / Embrapa
Criada em 1994 para desenvolver atividades espaciais de interesse do país, a Agência Espacial Brasileira (AEB) tem planos em relação à nova corrida rumo à Lua — modestos, é verdade, mas planos, de qualquer modo. “Identificamos dois segmentos em que o Brasil pode contribuir nessa exploração. O primeiro, em que já estamos há algum tempo, é o de desenvolvimento da ciência sobre a Lua, e o segundo é a agricultura espacial”, conta o presidente da agência, o engenheiro Marco Antonio Chamon.
O Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), de fato, já trabalha no desenvolvimento de nanossatélites que possam orbitar a Lua, realizar estudos da sua radiação, pesquisa dos campos magnéticos e interações na crosta lunar, além de investigar o transporte de poeira pela superfície da Lua causado por fenômenos elétricos e impactos de asteroides. Dessa forma, e sendo o país signatário do programa Artemis desde junho de 2021, é factível que a AEB proponha à Nasa embarcar um satélite em uma de suas próximas viagens, em meados de 2029.
Os dois satélites, um deles com o nome divertidamente óbvio de selenITA e o outro batizado de ITAsat 2, estão sendo montados no Centro Espacial ITA, com algumas partes compradas no exterior. Os testes acontecem no Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), e a fonte da maior parte dos recursos é a Financiadora de Estudos e Projetos (Finep). Em paralelo, a AEB busca parcerias com universidades dos Estados Unidos.
Em relação à agricultura espacial, a AEB criou em parceria com a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) a Frente de Agricultura Espacial do Brasil, cujo propósito central é “alavancar conhecimento de primeiríssima linha para utilizar na área espacial”, segundo Chamon. Dado que se prevê a existência futura de pelo menos duas bases na Lua, com pesquisa em caráter permanente, “será necessário criar recursos locais de sobrevivência, ou seja, água no polo sul lunar, oxigênio, e alimentos com base em espécies vegetais adaptadas a condições distintas de nutrientes e água”, detalha.
Dito de outro modo, já estão em desenvolvimento sistemas de produção de alimentos capazes de operar em condições extremas, como baixa gravidade, alta radiação e ausência de solo. É aí que entram em cena espécies como batata-doce e grão-de-bico, selecionadas por sua resiliência e potencial nutricional. Os trabalhos em curso no âmbito da Rede Space Farming Brazil, que reúne instituições nacionais e internacionais, se estendem para “o uso de tecnologias como sensores, automação e aprendizado de máquina, com foco em sistemas de produção mais eficientes no uso de água e energia”, diz a página oficial da AEB.
Embora o ambiente espacial seja o alvo principal dos avanços esperados nessas pesquisas, eles poderão ser aplicados em contextos terrestres, e isso significa tanto ambientes urbanos em que seja importante produzir alimentos quanto áreas com escassez hídrica ou vulneráveis a eventos extremos. A experiência pré-existente da Embrapa na criação de técnicas para revitalizar áreas degradadas é preciosa nesse sentido.