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São Paulo, 40ºC

por | 14 jan 2026

Colunista comenta  a atual onda de calor em São Paulo e outras cidades brasileiras à luz dos dados recém divulgados pela OMM que identificam 2025 como o terceiro ano mais quente do planeta desde 1850

Forte onda de calor provocou até uma “Operação Altas Temperaturas” em São Paulo, desde o final de dezembro passado (Foto: Paulo Pinto/Agencia Brasil)

O ano passado foi oficialmente o terceiro mais quente já registrado desde 1850. A Organização Meteorológica Mundial (OMM), o braço da Organização das Nações Unidas que analisa questões climáticas e meteorológicas confirmou essa informação, que já estava sendo especulada há algum tempo.

Além disso, os dados da OMM mostram também que a média de temperatura consolidada do período 2023-2025 está 1,48°C acima do nível pré-industrial, de acordo com matéria publicada no site UOL. Isso comprova que estamos muito perto de atingir – e possivelmente ultrapassar – o famoso 1,5°C de aquecimento, limite estabelecido originalmente pelo Acordo de Paris. para a preservação do planeta.

Mesmo tendo começado há apenas 14 dias, 2026 também já se apresenta marcado por altas temperaturas. Já sabíamos, e os cientistas já vinham avisando há um bom tempo, que os eventos climáticos extremos se tornariam cada vez mais frequentes. Eu só não esperava, sinceramente, que os primeiros dias de 2026 fossem tão quentes e insalubres.

Ainda nem chegamos à metade do mês de janeiro e São Paulo já registrou algumas das temperaturas mais altas dos últimos anos. No sábado, dia 10, por exemplo, a capital paulista atingiu a marca de 34,6°C, a maior temperatura registrada no ano.

Já na segunda-feira, dia 12 de janeiro, os termômetros do Rio de Janeiro chegaram a marcar 40,8°C, registrando a temperatura mais alta do verão. A última vez com calor nesse nível tinha sido em fevereiro de 2025, quando a capital fluminense alcançou os 41°C.

Temperaturas tão altas têm causado graves consequências para a população dessas cidades que presenciam verões mais quentes do que o normal nos últimos anos. Segundo dados da Secretaria Estadual de Saúde divulgados no final de 2025, os casos de insolação aumentaram em 27,2% no estado de São Paulo entre os meses de janeiro e outubro de 2025. Se isso não se deve somente aos efeitos da crise climática, tais como o aumento da frequência das ondas de calor e a persistência de temperaturas cada vez mais elevadas em todo o mundo, sem dúvida eles contribuem para isso.

E vale notar, é também efeito da crise climática, enquanto se registra no Brasil recordes de calor, a onda de frio rigorosa no hemisfério norte, que na Europa tem afetado a vida das pessoas e paralisado serviços essenciais, como transportes e voos,.

O fato é que não podemos mais negar a realidade. Estamos vivendo em um período de extremos de temperatura. Ondas de calor e de frio têm sido cada vez mais frequentes e têm se tornado o ‘novo normal’ do período em que vivemos. A crise climática tem trazido impactos reais e perceptíveis para a vida das pessoas, afetando seu cotidiano e sua realidade no Brasil e no mundo.

Se continuarmos nesse caminho, é possível e provável que 2026 bata novos recordes em relação ao aumento de temperatura média do planeta. É urgente adotar políticas públicas que ajudem a diminuir os impactos das ondas de calor sobre seres humanos, animais, cidades, plantas, rios, florestas etc. É preciso compromisso político para colocar em prática tudo aquilo que foi combinado no Acordo de Paris, ainda em 2015, ou seja, há 11 anos.

Além disso, é imprescindível lembrar que a realidade climática não afeta todas as pessoas da mesma maneira — é o chamado racismo ambiental. Um estudo do Instituto Pólis, lançado em 2025, estabeleceu relação entre as desigualdades sociais e as questões ambientais e mostrou que áreas periféricas dos centros urbanos tendem a sofrer mais com os eventos climáticos extremos, como as altas temperaturas.

De acordo com o Instituto Pólis, na cidade de São Paulo, somente 29,5% dos domicílios de favelas e comunidades urbanas estão em vias com árvores enquanto nas regiões centrais essa porcentagem sobe para cerca de 88,9%. Isso comprova, portanto, uma diferença considerável entre periferia e centro também no que se refere a meio ambiente. A arborização urbana é fundamental para controle de temperatura, regulação de níveis de poluição, e até mesmo para a drenagem do solo quando se tem grandes volumes de chuva.  Essa falta de arborização amplia os impactos do calor extremo como o que estamos presenciando nesse momento.

O dossiê completo e o estudo do Instituto Pólis podem ser conferidos clicando aqui.

É fato também que é preciso encarar a realidade como ela é, e passar a apontar os responsáveis por essa situação de forma mais clara. Enquanto a mídia e os políticos usarem os extremos climáticos para fazer propaganda de praias, abrir guarda-sóis nos estúdios de televisão e transformar a situação séria em piada, nós não seremos capazes de combater a desinformação e a crise climática de forma séria e correta.

Só sei que 2026 mal começou e já tem trazido à tona uma realidade urgente, que já tem causado efeitos concretos e que precisa ser tratada com essa seriedade. Não dá mais tempo de fazer piada, achar que é só um calorzinho e achar que por algum milagre, tudo vai ficar bem. Os efeitos da crise climática chegaram com o pé na porta em 2026.


Luiza Moura é bacharela relações internacionais pela PUC-SP e ativista socioambiental

 

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