Yasmin Constante*, Jornal da USP
Pesquisa da USP sugere que a plataforma organiza um novo ciclo de debates, com base em métricas de engajamento e monetização

Letramento digital pode ser caminho para o uso responsável da tecnologia (foto: Szabó Viktor / Pexels)
Um estudo da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP investigou discursos políticos na plataforma YouTube Brasil entre 2013 e 2022 com o intuito de avaliar o seu impacto na configuração de debates públicos. De acordo com a pesquisa, a plataforma é entendida como um ator político, que organiza uma nova forma de debate com base em métricas de engajamento e monetização. As avaliações sugerem um desgaste das instituições democráticas, além de reconfigurações produzidas pela lógica algorítmica em que os conflitos sociais são amplificados.
Paulo Crispim, professor de História e autor da tese Algoritmos, poder e esfera pública: o YouTube como ator político no Brasil (2013 e 2022), explica que o objetivo do trabalho era entender as mudanças neste espaço social após a digitalização. A pesquisa aponta que este processo tem sido mediado por plataformas digitais e, neste caso, destaca o papel do YouTube.
Tradicionalmente, a esfera pública, pensada pelo filósofo alemão Jürgen Habermas, é espaço de debate por meio da razão, que busca formar opinião pública. As avaliações demonstram que dentro das plataformas, onde agora estão concentrados os debates, as configurações mudaram. “A esfera pública, antes pensada como um espaço de mediação institucional, centrada na argumentação, passa a ser um espaço de mediação algorítmica”, afirma.
Em entrevista ao Jornal da USP, Crispim explicou que as Jornadas de Junho de 2013 – série de manifestações populares que aconteceram em todo o País – são um marco na forma de debater e cobrir a política no Brasil. Segundo ele, o movimento, que começou como uma reação ao aumento das tarifas no transporte público, deu início a um novo ciclo político. “O que era uma dinâmica plural caminhou para um percurso mais radical de negação da política tradicional”, afirma.
Segundo o pesquisador, este foi o auge do processo de transformação do debate público mediado por algoritmos, reordenando a esfera pública a partir de critérios econômicos, o que, segundo a pesquisa, resultou na ascensão da nova direita e na interação entre a plataformização e as instituições democráticas.
Além dos desdobramentos na esfera pública, a educação e os movimentos sociais também sofreram impacto. Como professor, Paulo Crispim acompanhou a mudança de comportamento dos estudantes em sala de aula. Segundo ele, foi possível observar indicativos de falsificações de processos históricos e certo nível de negacionismo em relação a temas comuns.
“O recorte está muito baseado neste paradigma, do que 2013 representa para as instituições e para a forma de debater e cobrir a política no Brasil. E, ao mesmo tempo, os desdobramentos do processo; não só na esfera pública e nas instituições, mas também dentro da escola, com movimentos como, por exemplo, o Escola Sem Partido” – Paulo Crispim
Nova mediação
Com a mediação realizada pelas plataformas digitais, as instituições tradicionais, como família, igreja e Estado, perdem espaço e passam a ser ignoradas. O que significa que parte do controle dos debates se torna papel das grandes empresas de tecnologias, as big techs, o que abre espaço para a aplicação da lógica comercial. “Ela [a mediação] é feita pelas empresas, que muitas vezes, impõem os seus interesses ao Estado”, explica.
O pesquisador explica que apesar das mudanças, não se pode culpar as tecnologias, já que elas não criam as disputas. São responsáveis, porém, por operar a mutação do espaço em que as discussões acontecem. “Se a gente tirar todos esses recursos técnicos, não significa que a disputa não exista, que a violência não exista.”
Segundo Crispim, a tese não é sobre a direita brasileira, sobre o YouTube ou sobre política eleitoral: essas questões estão presentes no estudo porque permeiam o tema. Ainda assim, ele aponta que “é um contexto em que a extrema-direita se destaca” e a plataforma se consolida como um dos principais espaços para a circulação dos seus discursos.
No período analisado, produtores de conteúdo, como Olavo de Carvalho e Nando Moura — figuras expoentes da direita —, foram impulsionados e começaram a disputar espaço com veículos tradicionais de comunicação.
O estudo sugere que essa reorganização tem consequências para toda a política, com destaque para o enfraquecimento das mediações jornalísticas, a difusão de discursos antidemocráticos e a corrosão da confiança pública. Mesmo assim, Crispim explica que momentos políticos marcantes, como o impeachment de Dilma Rousseff em 2016 e a eleição de Jair Bolsonaro em 2018, não são só produtos das mídias sociais. “Tem toda uma rede que está para além das redes sociais”, completa.
Parte das análises mostram que atores tradicionais dos meios de comunicação também se deslocaram para as redes sociais, adequando-se a essa nova dinâmica. O pesquisador avaliou veículos como Jovem Pan, Globo e Folha de S.Paulo, e observou que eles atuavam nesses espaços com estratégias semelhantes de audiência e engajamento. “Você precisa ser atraído para aquilo, com uma manchete sensacionalista, com uma imagem impactante, com algo que chama a atenção. Essa lógica perpassa os campos políticos”, destaca.
O resultado deste cenário resulta em uma identidade política performada, e não argumentativa. Ele explica que existe nessa performance um tipo estético que ajuda a compreender a capacidade desses discursos de serem amplificados através do algoritmo, “não importa muito o que você fala também, mas como você fala, o jeito que você fala”. Segundo Crispim, o que predomina são os afetos políticos, o medo e o ódio, porque conseguem ganhar visibilidade.

Manifestação das Jornadas de Junho de 2013 no Distrito Federal (foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom / Agência Brasil)
Letramento digital
O pesquisador destaca que este é um processo que ainda está em curso, por isso, é necessário questionar e buscar alternativas. Para ele, um caminho possível é a implementação de um currículo escolar com foco no letramento digital desde os primeiros anos. O que se vê hoje é a culpabilização da tecnologia, por exemplo, com a Lei Federal nº 15.100/2025, que proíbe o uso de dispositivos eletrônicos portáteis por alunos em todo o Brasil, mas destaca que ainda é cedo para saber quais serão os impactos da medida.
“Isso tem que ser currículo de universidade e de escola básica para todos, ou seja, uma letramento digital, uma alfabetização da coisa mais básica: o que é um algorítmico, o que é uma big tech, o que é um espaço virtual” – Paulo Crispim
Por fim, Crispim diz que medidas como essa são importantes para que os espaços virtuais sejam associados com a materialidade. Eles envolvem o deslocamento de capital, matéria-prima e extração de recursos naturais, mas, ainda assim, o debate parece não refletir este ponto.
Segundo o pesquiador, as soluções precisam ser buscadas em conjunto entre diferentes áreas do conhecimento para ações sistemáticas de médio e de longo prazo.
Mais informações: crispim@hotmail.com, com Paulo Crispim
*Estagiária sob orientação de Fabiana Mariz



