Estudantes podem influir como nunca no destino da instituição, desde que compareçam às urnas e votem

Coletivo Somos UFBA, formulador do programa da Chapa 2, na frente da reitoria após debate de 14 de maio (divulgação)
A primeira eleição direta para reitor em toda a história das universidades públicas federais brasileiras vai acontecer nos dias 20 e 21 de maio, quarta e quinta-feira desta semana, na Universidade Federal da Bahia, a UFBA — que completa 80 anos, neste ano da graça de 2026.
É um acontecimento, com toda a densidade da palavra. Por isso imaginei, antes de desembarcar em Salvador na quarta, 6, todos os espaços abertos de convivência do campus de Ondina tomados por bandos de estudantes em múltiplas manifestações culturais desde a manhã até a noite, panfletagens intensas entre o desenrolar de improvisadas e provocativas cenas teatrais, bandas de percussão e turmas de sopro se revezando e suas sonoridades cortadas, de tempos em tempos, no vasto espaço acolhedor, pelo encantador minitrio elétrico, sempre presente em grandes momentos da vida recente desta nossa universidade.
Imaginei uma espécie de celebração permanente (embora entre aulas, atividades de pesquisa e extensão que não cabia suspender), com as minhas retinas ainda marcadas pelos primeiros congressos da UFBA antes da pandemia de covid, pela riqueza cosmopolita dos encontros, debates e festas do Fórum Social Mundial nos espaços da UFBA, e por tantos outros grandes momentos de congraçamento que vi e dos quais participei efetivamente, de 2016 ao começo de 2020, antes da pandemia.
A imaginação não era gratuita, estava baseada numa compreensão de que a Lei 15.367/2026 sancionada pelo presidente Lula em 30 de março último e publicada no Diário Oficial da União em 31 de março (e que grande dia para exorcizar com boas leis o horror do Golpe de 1964!) precisa ser saudada como uma grande conquista da luta de anos por uma universidade pública democrática, além de autônoma. A nova lei põe fim ao modelo da lista tríplice que dava ao presidente da República a palavra final sobre quem comandaria cada universidade federal e estabelece que ele deve nomear o candidato mais votado na consulta realizada pela comunidade acadêmica.
A título de informação sobre o que o sistema da lista tríplice permitia a governos autoritários, “a Andifes contabiliza que, de 2019 a 2021, das 50 nomeações feitas pelo ex-presidente Jair Bolsonaro, 18 foram de reitores que não haviam vencido as consultas realizadas internamente nas instituições, situação que gerou tensões e protestos das comunidades acadêmicas”, segundo a Agência Brasil. Lembrete: Andifes é a sigla de Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior, o fórum dos reitores das 69 universidades federais hoje existentes no país.
A imaginação de um campus em festa decorria também da percepção de um poder de influência agora muito maior dos estudantes sobre os destinos da universidade conferido pela Lei 15.367/2026, dado o fim da regra que estabelecia peso de 70% para o voto docente na escolha das reitorias. E na UFBA, de acordo com a Resolução 03/2026 do Conselho Universitário (Consuni), que regulamentou já em 15 de abril o disposto no capítulo XXV da Lei, “o peso do voto de cada segmento da comunidade universitária é fixado em 1/3 (um terço) para o total de aptos a votar de cada segmento”.
Em português claro, os estudantes da UFBA estão equiparados a docentes e a servidores técnicos na escolha do próximo reitor e vice. Eles têm o direito – e o privilégio – de influir mais, ou menos, na definição de quem serão os próximos dirigentes da UFBA, de traduzir, ou não, a vontade da maioria do corpo discente, na exata medida de sua participação na eleição. Por isso eu imaginava uma permanente festa de convocação dos estudantes aos estudantes esses dias na UFBA.
Entretanto, se vi vibração na semana retrasada, quinta-feira, 7 de maio, no auditório da Faculdade de Arquitetura, num amplo debate sobre democracia, e mais ainda, participação intensa no debate dos candidatos na quinta-feira, 14 de maio, no salão nobre da reitoria, de tantos e tão memoráveis eventos ao longo dos 80 anos da UFBA (acreditem, mesmo na ditadura de 1964-1985, antes do famigerado AI-5, a moçada lotava o salão nas assembleias estudantis), também vi ausência e apatia. Também escutei muitas queixas e vi manifestações de tristeza e sofrimento. Vi grandes vazios e ouvi silêncio nos espaços de convivência da universidade.
Nessas duas últimas semanas, acompanhando encontros do candidato a reitor, João Carlos Salles (com quem trabalhei diretamente em comunicação e divulgação científica de 2016 a 2020), e da candidata a vice-reitora, Jamile Borges, com grupos de docentes, servidores técnicos e estudantes de distintas unidades da UFBA, estive atenta a relatos de adoecimento e percepções de fissuras no tecido social da instituição. E comecei a pensar em como os estudantes podem ser convocados à participação em massa nesse processo eleitoral para que se tornem uma força fundamental em direção à luta vibrante pela recuperação da alegria e pela construção do verdadeiro futuro de uma grande universidade autônoma e democrática, radical e criativa, excelente e inclusiva. Porque assim é a universidade pública essencial à luta por um país democrático, socialmente justo e verdadeiramente desenvolvido.



