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Tese sobre ‘O Bem-Amado’ ganha prêmio da Sociedade Internacional para Estudos de Humor

por | 20 jul 2026

Autora do estudo faleceu duas semanas antes da premiação

João Paulo Capelotti (esquerda), Thaís Leão Vieira e Viktor Henrique Carneiro de Souza Chagas, com o certificado de Iza Godoi (foto: divulgação)

A concessão do Prêmio Elias Thomé Saliba pela Sociedade Internacional para Estudos de Humor (ISHS), no início deste mês, à historiada Iza Godoi, da Universidade Federal do Mato Grosso (UFMT), contém pelo menos duas razões de júbilo entremeadas a uma nota densamente triste. Os motivos de alegria estão na homenagem direta da ISHS ao mais notável estudioso do humor no Brasil, ao dar o seu nome ao prêmio, e no reconhecimento à consolidação de uma área de pesquisa multidisciplinar a que Saliba, professor de história da Universidade de São Paulo (USP), deu início e que, ao longo das últimas décadas, vem sendo solidamente construída por estudiosos de diferentes campos.

A nota triste resulta do fato de a primeira pessoa distinguida pela premiação, em reconhecimento à excelência de sua pesquisa de doutorado — cujo objeto principal de análise é a novela ‘O Bem-Amado’, de 1973 —, não ter sequer sabido que seu estudo merecera tal reconhecimento: Iza Godoi faleceu inesperada e repentinamente de um mal súbito em 23 de junho passado, aos 33 anos. Na Conferência anual da ISHS, este ano realizada na Universidade Federal Fluminense (UFF), em Niterói, de 6 a 10 de julho, a premiação foi anunciada.

Vale registrar aqui que uma outra tese de doutorado, “O humor no teatro de Jô Soares”, de Giovani Tozi, orientada por Marcelo Lazzarato, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), conquistou menção honrosa do Prêmio Elias Thomé Saliba.

“Iza se debruçou sobre a obra do dramaturgo Dias Gomes, e particularmente sobre a novela ‘O Bem-Amado’, ainda que tenha lançado um pequeno olhar também sobre a peça do mesmo nome que a originou”, diz Thaís Leão Vieira, sua orientadora e amiga, ainda fortemente abalada pelo desaparecimento súbito e precoce da aluna. “As pessoas, em especial as mais jovens, não sabem do enorme impacto dessa obra para a televisão brasileira e para a cultura brasileira permeada pela televisão nos anos da ditadura”, acrescenta para dar uma noção da importância do estudo da orientanda.

Dentro de um programa de pós-graduação de história, em especial voltado à história da cultura brasileira, e lidando com projetos de comunicação de massa que estavam então sob a mira feroz dos censores do regime, interessava à pesquisadora decifrar como foi possível aquela construção trágico-cômica tão irreverente e crítica passar incólume pela censura institucional da ditadura, ser amplamente divulgada, debatida e popularizada em 1973. 

(Pequeno parênteses para breve sinopse de ‘O Bem-Amado’: adaptação para tevê pelo próprio autor da peça “Odorico, o bem-amado”, de 1962, a primeira novela em cores da tevê brasileira acompanha as peripécias de Odorico Paraguaçu, prefeito corrupto de Sucupira, e o cotidiano dos moradores nessa pequena cidade fictícia no litoral baiano. A grande meta do demagogo Odorico é inaugurar um cemitério na cidade, aliás, slogan de campanha com o qual se elegeu: “Vote em um homem sério e ganhe um cemitério”. O problema é que ninguém morre em Sucupira, e o prefeito recorrerá a artimanhas de toda ordem, com ajuda das impagáveis irmãs Cajazeiras, suas fiéis escudeiras, para conseguir ao menos um defunto que viabilize a inauguração de sua grande obra e o cumprimento da promessa de campanha). 

Indiretamente, a novela fustigava a ditadura no Brasil, dia após dia. “E a pesquisa de Iza busca compreender a natureza das brechas que permitiram nos tempos da ditadura a exibição de uma obra tão iconoclasta da cultura de massa”. Para tanto, ela examina os capítulos da novela e um tanto da peça e analisa exaustivamente os pareceres dos censores. “É como se a censura menosprezasse o humor, o seu poder. Há todo um debate que fica visível nos pareceres, relativo à moralidade dos costumes e à política, mas os censores deixam passar as cenas em que as críticas e as ironias emergem como se tivessem um valor menor, justamente por estarem num contexto de humor”, conta Thaís Leão Vieira.

Um outro material exaustivamente examinado para a pesquisa foram as revistas especializadas na produção televisiva, que tinham na época enorme circulação e eram, digamos, parte integrante das estratégias de popularização dos produtos da tevê. As escolhidas por Iza Godoi foram Amiga, da Bloch Editores, e Cartaz, da Editora Três, que lhe permitiram recuperar todo o trabalho de divulgação da novela e o debate que estava sendo travado em torno dela. 

Dedicada ao projeto de 2021 até 2025, quando defendeu a tese de doutorado, logo premiada no âmbito interno da UFMT, ela trabalhou com a hipótese de que a ação censória do regime em relação à moralidade e à estética se exercia como questão ideológica. Propôs que o humor constituía dentro disso um espaço de negociação, e desenvolveu a ideia central de que, nessa chave, a novela inverte a ideia de vilão e de herói, trabalha com a recepção do público à construção trágico-cômica e constitui junto com ele um eco na interpretação pública da obra.

Expansão do riso na academia

Há vínculos acadêmicos perfeitamente rastreáveis entre a primeira pesquisadora a receber a honraria para estudos sobre humor que carrega o nome de Elias Thomé Saliba — fundamental na constituição desse campo de pesquisa no Brasil, assim como em sua expansão e reconhecimento internacional — e o próprio historiador. E quem consolida esses vínculos é justamente Thaís Leão Vieira, professora de história da UFMT e orientadora de Iza Godoi. 

Graduada, mestra e doutora em história (1996-2011) pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU), ela já tinha uma consistente produção em cultura brasileira na segunda metade do século XX, trabalhando, por exemplo, com teatro e humor em sua tese de doutorado, orientada por Rosangela Patriota Ramos (“Allegro Ma Non Troppo: Ambiguidades do riso na Dramaturgia de Oduvaldo Vianna Filho”) e, a partir daí, também com a produção de humor na televisão, quando resolveu fazer, em 2019-2020, um pós-doutoramento com supervisão de Saliba na USP.

Foi depois desse pós-doc que Thaís orientou a tese de Iza, que havia cerca de 10 anos já fazia parte de seu grupo de pesquisa na UFMT, assim como o companheiro de Iza, o também historiador Thales Biguinatti Farias, professor do Instituto Federal do Mato Grosso (IFMT). 

O resultado das andanças pelo humor televisivo incluiu entre os objetos de estudo de Thaís Leão Vieira a obra de Chico Anísio e, mais recentemente, a do Casseta e Planeta. Ela participa também, entre outras vinculações institucionais, do importante grupo de pesquisa “Trilhas e Circuitos do Riso no Espaço Público Brasileiro (USP/CNPq)”, liderado por Elias Thomé Saliba. 

A propósito, parte substancial da trajetória desse grupo e da expansão do campo de estudos do humor na pesquisa brasileira está contada em uma excelente e divertida entrevista concedida por Elias Thomé Saliba para a abertura da Conferência do ISHS em Niterói (na qual ele não poderia estar presente) aos historiadores João Paulo Capelotti e Viktor Henrique Carneiro de Souza Chagas, organizadores dessa 36ª edição do congresso da ISHS.

Saliba conta nessa entrevista como, nos anos de 1975-1976, com o Brasil ainda patinando nos horrores da ditadura, lhe aparecia como a grande questão os trajetos que tinham permitido ao país passar de um projeto de inspiração liberal ao autoritarismo. E relata como, na consulta dos jornais como fonte fundamental de sua pesquisa de doutorado na Universidade de São Paulo (USP-SP), defendido em 1980/1981, percebia um fundo de comicidade e humor que persistia ante o fracasso completo do liberalismo. Era como descortinar um vasto campo de conflitos que só se “resolviam” através do riso, catártico, libertador ou, seu contrário, riso angustiado, catético, ele conta. 

A pesquisa acadêmica não dava muito espaço nem importância ao humor para a compreensão da história da cultura quando Saliba conseguiu, graças à mente aberta do respeitado historiador Fernando Novais (1930-2026), vencer as resistências dos professores do conselho editorial da Companhia das Letras e emplacar no volume 3 da coleção História da vida privada no Brasil (1998), dirigida justamente por Novais, o artigo “A dimensão cômica da vida privada na República”.

Foi esse artigo que, tempos depois, tendo consumido ao todo seis anos de pesquisa, serviu de base à sua tese de livre-docência na USP, basicamente o mesmo texto do seu livro mais famoso, Raízes do riso: a representação humorística na história brasileira, da Belle Époque aos primeiros tempos do rádio (2002). A nota cômica na defesa da tese ficou por conta da audição de trechos de alguns dos 65 programas radiofônicos de humor que Saliba gravara e com a qual quebrou completamente o sisudo protocolo desse gênero de evento.

Há muito mais que ele revela na entrevista sobre a formação de alunos, o adensamento do campo de pesquisa sobre o humor e a necessária quebra de resistência da universidade ao que era visto como algo por demais prosaico para os altos objetivos acadêmicos. Vale muito acompanhar suas preocupações com a fragmentação do humor no mundo contemporâneo, marcado, em seu olhar, devido ao derretimento da esfera pública e à expansão com baixo controle da inteligência artificial 

Vale muito ouvi-lo diretamente na entrevista. E, para alegria e orgulho do Ciência na Rua, vale muito também ler o seu ensaio “As fronteiras abertas do humor”, peça central do livro Tem graça, mas é sério: os quadrinhos do Ciência na Rua, lançado em 2026 pela Aretê Editora.

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