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Recaatingar: nova lei coloca a recuperação da Caatinga no centro da agenda ambiental

Passos Jr., Nossa Ciência

Lei foi sancionada no dia 10 de junho

Ao coincidir com as discussões globais do Dia Mundial de Combate à Desertificação e à Seca, a sanção da lei reforça a percepção da importância de se proteger (foto: Eduardo Mendonça)

 

A sanção da Lei nº 15.430, em 10 de junho de 2026, marca um momento histórico para o Semiárido brasileiro. Pela primeira vez, a Caatinga passa a contar com uma política nacional específica voltada à recuperação de sua vegetação nativa, transformando em política de Estado uma pauta defendida há décadas por pesquisadores, ambientalistas, gestores públicos e movimentos sociais.

A nova legislação institui a Política Nacional para Recuperação da Vegetação da Caatinga e cria o Programa Nacional para a Recuperação da Vegetação da Caatinga, estabelecendo diretrizes para restaurar áreas degradadas, fortalecer a segurança hídrica, ampliar a produção sustentável de alimentos, impulsionar a bioeconomia e combater o avanço da desertificação.

A repercussão da sanção ganha ainda mais significado nesta quarta-feira (17), quando é celebrado o Dia Mundial de Combate à Desertificação e à Seca, data criada pelas Nações Unidas para chamar atenção para um dos principais desafios ambientais do planeta e que afeta diretamente milhões de pessoas que vivem no Semiárido nordestino.

Um marco histórico para a Caatinga

Relator da matéria na Comissão de Meio Ambiente da Câmara dos Deputados, o deputado federal Fernando Mineiro (PT-RN), ao falar para o Portal Nossa Ciência considerou a sanção um divisor de águas na história da proteção ambiental brasileira. “Tive a honra de ser relator da lei que cria a Política Nacional para Recuperação da Vegetação da Caatinga na Comissão de Meio Ambiente da Câmara dos Deputados, aprovada por unanimidade. Vê-la ser sancionada pelo presidente Lula é um marco histórico na nossa luta de décadas em defesa do meio ambiente e, especialmente, desse que é o único bioma exclusivamente brasileiro”, destacou.

Segundo Mineiro, a política nacional se estrutura em quatro grandes eixos: recuperação de áreas degradadas, produção sustentável de alimentos, fortalecimento da segurança hídrica e incentivo à bioeconomia. A lei também prevê estímulo à pesquisa científica, elaboração de planos de combate ao desmatamento e à desertificação, além de ações de restauração da vegetação nativa – processo que vem sendo chamado por especialistas de “recaatingamento”. “Com a sanção do presidente Lula, a Caatinga se torna o primeiro bioma no Brasil a contar com uma política nacional própria para recuperação da vegetação nativa”, enfatiza o parlamentar.

A urgência da medida é respaldada pelos números. Dados do Ministério do Meio Ambiente apontam que mais de 40% da vegetação nativa da Caatinga já foi perdida e menos de 10% do bioma encontra-se protegido.

Para Mineiro, recuperar a Caatinga também significa promover inclusão social e desenvolvimento econômico. “Impulsionando a agricultura familiar com desenvolvimento sustentável, é possível recuperar a Caatinga e promover a geração de renda para milhares de pessoas que vivem no bioma”, acredita o parlamentar.

Da pesquisa à ação: a Caatinga como solução

Nas universidades, a nova legislação é recebida como uma oportunidade para transformar conhecimento científico em políticas públicas permanentes. O professor titular da Universidade Federal Rural do Rio Grande do Norte – Ufersa, em Mossoró, no Rio Grande do Norte e, coordenador do Instituto Sabiá, Jean Berg Alves da Silva avalia que a lei cria as condições necessárias para integrar recuperação ambiental, pesquisa e desenvolvimento regional.

“A Lei nº 15.430/2026 cria uma base importante para integrar recuperação ambiental, pesquisa e desenvolvimento regional no semiárido”, considera. Segundo Silva, experiências já desenvolvidas pela universidade demonstram que é possível recuperar áreas degradadas sem “abrir mão” da geração de renda para as famílias rurais.

“No Instituto Sabiá, já desenvolvemos iniciativas voltadas à recuperação produtiva da Caatinga e fortalecimento de cadeias produtivas sustentáveis. Projetos como o Raízes do Semiárido e o de Produção de Caprinos e Abelhas Sem Ferrão mostram que é possível associar recuperação ambiental com geração de renda e permanência das famílias no campo”, explica.

Para o pesquisador a degradação do bioma não pode ser atribuída apenas às condições climáticas. “O clima é uma característica natural do semiárido, mas a degradação está ligada principalmente ao uso inadequado do solo, desmatamento e exploração sem planejamento”, observa.

Silva aponta que um dos principais desafios é ampliar os investimentos em iniciativas estruturantes. Nesse contexto, a recente disponibilização de R$ 60 milhões por meio de edital do BNDES e Banco do Nordeste para recuperação de áreas degradadas é vista como um avanço importante.

Mas a mensagem mais contundente do pesquisador se volta para a desconstrução de uma visão historicamente negativa do Semiárido. “A Caatinga é uma solução estratégica para o semiárido”, resume. Segundo o pesquisador, o bioma reúne potencial para atividades sustentáveis como apicultura, meliponicultura, caprinocultura e sistemas produtivos compatíveis com a conservação ambiental.

Preservar para desenvolver

A visão de que desenvolvimento econômico e preservação ambiental devem caminhar juntos também é defendida pelo professor titular da Ufersa Josivan Barbosa Menezes Feitoza, que tem atuação na área de desenvolvimento regional. Para Feitoza, a aprovação da lei chega em um momento decisivo. “O bioma Caatinga precisa urgentemente de ser monitorado e preservado”, alerta.

O professor lembra que décadas de exploração desordenada deixaram marcas profundas no território. “Perdemos belíssimos exemplares de plantas nativas e trechos que poderiam hoje representar alguns parques ambientais nos diferentes municípios. Temos uma caatinga devastada de árvores e de vida animal”, afirma. Embora reconheça que muitas leis brasileiras não conseguem sair do papel, o professor acredita que a nova política abre perspectivas concretas para a recuperação ambiental.

“A sanção da Lei que cria a Política Nacional para a Recuperação da Caatinga traz boas perspectivas para o equilíbrio do bioma. Estados e municípios, em sintonia com a iniciativa privada, podem a partir de agora contar com um instrumento de grande valia.”

Feitoza destaca ainda que o Semiárido precisa se tornar referência internacional em sustentabilidade. “O desenvolvimento econômico pode seguir sem devastar a Caatinga. É uma questão de responsabilidade das instituições com o equilíbrio ambiental”, defende.

Pernambuco já investe em recuperação

Nos estados nordestinos, algumas ações já antecipam os objetivos estabelecidos pela nova legislação. Em Pernambuco, por exemplo, a secretária de Meio Ambiente, Sustentabilidade e de Fernando de Noronha, Nathalie Mendonça Ribeiro, ao conceder entrevista ao Portal Nossa Ciência, considerou a política nacional um marco para toda a região.

“Estamos falando de um bioma exclusivamente brasileiro, que abriga uma rica biodiversidade, abrange milhões de pessoas e desempenha um papel fundamental para a segurança hídrica, climática e econômica da região”, ressalta.

Segundo a gestora, o Governo de Pernambuco já desenvolve iniciativas alinhadas aos princípios da nova lei, entre elas a restauração de áreas degradadas em unidades de conservação e zonas de amortecimento por meio do plantio de 500 mil mudas de espécies nativas até o final de 2026.

A secretária também destaca a criação de seis novas Áreas de Proteção Ambiental em municípios do Sertão pernambucano, a regularização fundiária da Estação Ecológica Serra da Canoa e investimentos de aproximadamente R$ 4 milhões na estruturação da gestão de unidades de conservação por meio de cooperação com o Ministério do Meio Ambiente. “As iniciativas reforçam o compromisso com a proteção da biodiversidade, o combate ao desmatamento e a ampliação das áreas protegidas no bioma”, afirma Ribeiro.

Mais do que uma nova legislação, a Política Nacional para Recuperação da Vegetação da Caatinga surge como uma resposta concreta a um dos maiores desafios ambientais do país. Ao coincidir com as discussões globais do Dia Mundial de Combate à Desertificação e à Seca, a sanção da lei reforça a percepção de que proteger a Caatinga não é apenas preservar um patrimônio natural brasileiro, mas garantir condições de vida, produção e sustentabilidade para milhões de pessoas que dependem diretamente desse bioma singular.

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