Luiza Moura comenta o filme A Queda do Céu, baseado no livro de Davi Kopenawa

Um pouquinho antes do carnaval começar, eu assisti o documentário A Queda do Céu, que está disponível na Netflix. O longa é baseado no livro de mesmo nome, escrito pelo Xamã Yanomami, o incrível Davi Kopenawa. Um parêntese rápido: durante a COP30, fui almoçar com uns amigos em um restaurante típico de Belém e o Kopenawa estava sentado na mesa de trás da nossa. Congelei, não consegui falar nada e fui embora sem tirar nem uma foto com ele. Enfim…
Apesar de nunca ter lido o livro, estava bem curiosa para ver o documentário. Lançado no ano passado e dirigido por Gabriela Carneiro da Cunha e Eryk Rocha, o longa discute a cosmovisão do povo Yanomami, sua relação com a natureza e a realidade enfrentada por eles após a invasão dos garimpeiros em seu território, além de abordar as mudanças climáticas e as transformações que estão acontecendo em suas terras por causa do desmatamento, da grilagem e do garimpo, obviamente.
O documentário não fica trazendo falas de especialistas e profissionais sobre o impacto da crise climática e do modelo capitalista nas vidas dessa comunidade. A ideia não é essa. A partir de imagens das cerimônias dos Yanomami, filmagens de seu dia a dia e algumas poucas falas de suas lideranças, como o próprio Davi Kopenawa, o filme mostra como a natureza não é um Outro, uma coisa que faz parte da vida dos Yanomami. Não, a relação que eles estabelecem com a natureza é de igualdade, respeito e colaboração, entendendo que eles fazem parte de um mesmo mundo.
Algo que chama muita atenção e que fica bastante evidente é a ameaça e os perigos que os garimpeiros trouxeram para a região da Terra Indígena Yanomami (TI Yanomami). Vale lembrar que a invasão do território dos Yanomami foi um problema muito sério, que gerou inúmeros impactos na vida dessa comunidade.
Segundo o mapa de conflitos ambientais do Brasil produzido pela Fiocruz, a presença dos garimpeiros na TI trouxe problemas como: “Alteração no regime tradicional de uso e ocupação do território, Assoreamento de recurso hídrico, Contaminação ou intoxicação por substâncias nocivas, Desmatamento e/ou queimada”, além de danos à saúde como: “Alcoolismo, Desnutrição, Doenças não transmissíveis ou crônicas, Doenças transmissíveis, Falta de atendimento médico, Insegurança alimentar” e outros.
Um momento do filme que ficou marcado na minha cabeça foi quando Davi Kopenawa diz algo como “Quando o céu estiver caindo na cabeça dos homens brancos, vocês vão se lembrar dos Yanomami. Vão perguntar para gente porque isso está acontecendo e nós vamos responder que é uma vingança da Terra contra vocês”.
Eu não sei o quanto a profecia de Kopenawa vai se concretizar, eu acho até que as chances são altas mesmo. Mas o fato é que a Terra teria, realmente, todo o direito de se vingar dos seres humanos, que a viram como objeto a ser dominado durante séculos.
De forma geral, o documentário me impactou bastante, me fez abrir os olhos para questões que eu ainda não tinha imaginado e me fez constatar com ainda mais certeza que para sairmos do buraco onde estamos é cada vez mais urgente ouvir, acolher e seguir os ensinamentos dos povos indígenas. Sem eles, não haverá saída possível para a crise climática e ambiental que estamos enfrentando.






