Pesquisa em parceria do Instituto Butantan com universidades investigou motivos para cobras darem bote

Foto: arquivo do pesquisador
A ciência brasileira faturou um Ig Nobel em cerimônia realizada no último dia 3, em Zurique, na Suíça. O prêmio é concedido pela revista Annals of Improbable Research (Anais da Pesquisa Improvável) e tem por objetivo contemplar pesquisas que “fazem rir, depois pensar”. A cerimônia anual tradicionalmente ocorre em Boston, nos Estados Unidos, mas desta vez foi transferida para a Europa, devido à preocupação com vistos de entrada e com a segurança tanto de pesquisadores como de jornalistas; “Não podemos, em sã consciência, pedir aos novos ganhadores, e aos jornalistas internacionais que cobrem o evento, para viajar aos EUA neste ano”, explicou Marc Abrahams, editor da revista e mestre de cerimônias do evento em entrevista à Associated Press, em março.
João Miguel Alves-Nunes, primeiro autor do artigo premiado, comemorou: “Sinceramente eu estou muito feliz. A academia científica às vezes é muito séria, muito pesada, só que nós somos um bando de nerd, na verdade. E esse evento junta um monte de nerd para dar risada da ciência e refletir”. O pesquisador do Instituto Butantan falou com o Ciência na Rua por videochamada de uma praça em Nápoles, na Itália, onde estava passeando dias após a premiação. O Ig Nobel nem sempre é bem compreendido pelo público, que às vezes se apega somente ao ridículo inicial das descrições das pesquisas. Mas a ciência por trás delas é de alta qualidade, feita por cientistas de alto nível! Um exemplo dessa comunhão entre ridículo e excelência: as apresentações dos trabalhos devem durar até 90 segundos, ao fim dos quais três homens vestidos de banana vêm atrapalhar quem está apresentando. “Aí você fala, ‘Nossa, que idiota’, mas quem eram aqueles três bananas? Eram os reitores da Universidade de Zurique”, comenta João Miguel. “Quem estava limpando o palco, porque as pessoas tacam aviãozinho de papel? O ganhador do Nobel de Física, não lembro de que ano”.
O biólogo mencionou exemplos de pesquisas ganhadoras do Ig Nobel com efeitos práticos importantes ou potencialmente importantes. Em 2004, duas pesquisas (aqui e aqui) dividiram o prêmio de Biologia, investigando as bolhas produzidas pelas flatulências de arenques — o que pôs fim à suspeita sueca de que havia submarinos russos em suas águas desde a Guerra Fria. Em 2006, o prêmio de Entomologia foi para uma pesquisa que demonstrou que mosquitos são atraídos por chulé, o que direcionou muito financiamento para o desenvolvimento de armadilhas contra esses insetos, que muitas vezes são uma ameaça à saúde pública (o pesquisador Bart Knols, entre outras coisas, conseguiu acabar com a população de mosquitos da dengue e pernilongos em uma ilha nas Filipinas).
A pesquisa brasileira premiada ganhou na categoria Biologia, “por pisar gentilmente em várias partes de várias cobras peçonhentas — repetidamente, sob várias temperaturas em vários horários do dia — para tentar aprender o que induz e o que não induz uma cobra peçonhenta a morder um humano”. A equipe usou 116 jararacas, sendo 75 adultas, 13 jovens e 29 recém-nascidas. Para testar o que as motivava a dar o bote, cada exemplar era colocado em um espaço de dois metros quadrados por 15 minutos onde depois um pesquisador entrava usando botas e tocava com uma delas, delicadamente, três regiões do corpo do animal — cabeça, meio do corpo e cauda — por dez vezes, randomicamente. Também foram feitos testes pisando no solo, a pouca distância das mesmas regiões do corpo das cobra (a cinco centímetros ou menos). Os testes foram realizados de manhã e de noite, e a temperatura do ambiente e dos animais era medida durante eles. Entre as conclusões da pesquisa, está a tendência a atacar, por parte de serpentes de ambos os sexos, quando há contato. Sem contato, machos menores foram mais tolerantes. Quando o contato era na cabeça, a tendência era maior, diminuindo progressivamente quando era no meio do corpo ou na cauda. Fêmeas tenderam a picar mais quando estavam mais quentes, machos, quando estavam mais frios. Indivíduos recém-nascidos também demonstraram maior propensão a dar botes. Como é sabido que as jararacas do litoral são em média menores do que as do interior, a equipe chegou a um modelo usando essa variável para avaliar a probabilidade de ataques em diferentes lugares. O modelo previa uma maior incidência no litoral, o que foi confirmado por dados epidemiológicos. A pesquisa também encontrou correlação positiva entre temperaturas médias de diferentes regiões e maior probabilidade de ataques. Os resultados podem ajudar, por exemplo, no planejamento de distribuição de soro antiofídico em diferentes lugares do estado.
O artigo foi publicado em maio de 2024 na revista Scientific Reports, do grupo Nature, por uma equipe que une pesquisadores do Instituto Butantan, da Universidade Estadual Paulista (Unesp), da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). No site do prêmio, aparece uma menção à Austrália, mas nenhuma instituição ou cientista australiano participaram da pesquisa. O que acontece é que um dos autores, Ivan Sazima, já aposentado, atualmente vive naquele país.
Meses depois da publicação, o artigo foi retratado, devido a questionamentos em relação à aprovação ética de parte dos experimentos. Ao site G1, a revista explicou que a autorização concedida aos pesquisadores não abrangia o uso de serpentes recém-nascidas nem um dos métodos empregados nos testes. Também ao G1 a equipe declarou que discorda da retratação, alegando que a descrição em inglês pode ter levado à interpretação de que os leves toques com a bota nos animais tratavam-se de pisões. Os pesquisadores, no entanto admitiram um erro, ao pedir autorização para trocar o membro responsável pelos toques nas cobras e para incluir indivíduos recém-nascidos, receberam a autorização para a primeira mudança e entenderam que valia para ambas. Ao Ciência na Rua, João Miguel minimizou o fato, lembrando de uma reportagem da revista Slate, de 2017, cujo título traduzido seria “Quer ganhar um Nobel? Tenha um artigo retratado”.
A substituição do responsável por atiçar as cobras se deu porque João Miguel foi picado em um experimento semelhante, mas com outra espécie: “A cascavel conseguiu perfurar a bota e pegar meu dedo. Descobri que tinha alergia a veneno e ao soro antiofídico. Eu continuei um tempo, o trabalho, ainda. Reforcei a bota com um tipo de pano especial. Só que, num outro trabalho, fui picado de novo e aí desenvolvi uma alergia séria”. Ainda assim, o pesquisador continuou na tarefa com exemplares adultos de jararaca, enquanto o técnico do laboratório ficou responsável por fazer o teste com filhotes. “Ele não queria colocar o pé para os bichos, né?”, explicou João Miguel. A equipe já publicou outro artigo sobre jararacas, o das cascavéis, ainda não.
O demais vencedores da 36ª edição do Ig Nobel, por categoria, foram:
Mecânica: Matilda Brindle, Catherine Talbot e Stuart West (Reino Unido e EUA) por conceberem uma definição mais precisa de beijo — ”interações não agonísticas envolvendo contato oral-oral intraespecífico e direcionado com algum movimento de lábios ou partes da boca e sem transferência de comida” — em formigas, aves, ursos e humanos.
Economia: Paul Piff, Daniel Stancato, Stéphane Côté, Rodolfo Mendoza-Denton, and Dacher Keltner (EUA, México e Canadá), por reunirem evidências de que pessoas de classes mais altas têm maior tendência a roubar doce de criança e outros comportamentos antiéticos.
Química: Sanchari Banerjee, Nathan Coussens, François-Xavier Gallat, Nitish Sathyanarayanan, Jandhyam Srikanth, Koichiro Yagi, James Gray, Stephen Tobe, Barbara Stay, Leonard Chavas, and Subramanian Ramaswamy (Índia, França, Japão, Canadá e EUA) por descobrirem que as proteínas do “leite” de uma barata vivípara contêm o triplo da energia das proteínas do leite de vaca.
Medicina: Prêmio póstumo a Tokuji Unno (Japão) pelo estudo chamado “Como assoar o nariz — um estudo aerodinâmico do assoamento do nariz”.
Física: Randy Hurd, Zhao Pan, Tadd Truscott, Kaveeshan Thurairajah (Canadá, EUA, China e Arábia Saudita) por tentativas teóricas e experimentais de desenvolver um mictório que não respinga.
Tecnologia: Justin Puma, Zhen Yang, Evan Johnston, Zixin Zhang, Xiaoyi Lan, Lingzhi Zhang, Hongyu Hou, Zixin He, Ali Afify, Megan Creighton, Jianyu Li, and Changhong Cao (China, Canadá, EUA, Egito), pelo uso pioneiro de probóscides de mosquitos (a estrutura fina e longa usada para picar, entre outras funções) como bocais para impressão 3D de alta resolução, processo chamado de “necroimpressão”.
Olfato: Ilona Croy, Tomasz Frackowiak, Thomas Hummel, and Agnieszka Sorokowska (Polônia, Alemanha e Suécia), por coletar evidências de que bebês têm um cheiro maravilhoso para seus pais, mas adolescentes não têm.
Paz: Jaimie Arona Krems, Rebecka Hahnel-Peeters, Laureon Merrie, Keelah Williams, and Daniel Sznycer (EUA, Argentina e Austrália), por documentar que valorizamos amigos que são cruéis com pessoas de quem não gostamos.
Ciência do solo: Franz Bender, Marcel van der Heijden, Atlant Bieri, and Pia Viviani (Suíça, Países Baixos e Alemanha), por enterrarem mil cuecas idênticas em mais de 25 países e desenterrá-las após dois meses.


