por João Carlos Salles
Reitor da UFBA critica editorial da Folha de S. Paulo sobre financiamento às universidades públicas

Incêndio em prédio da UFPE em Recife em 7 de outubro (imagem: reprodução STV da Silva / X)
A Folha não falha. Quando menos se espera, ela volta com a mesma ladainha. Que o quadro da manutenção das universidades seja precário e a recomposição orçamentária insuficiente, isso salta a olhos vistos, comprometendo a afirmação da prioridade da educação superior pública federal. Tomar, porém, o tema dos três incêndios na UFPE como mote para a defesa de um modelo obscuro de financiamento das universidades, além de conter uma falácia de non sequitur, traz consigo um sabor de puro mau gosto e falta de pudor. Oportunismo, pois, de imprensa elevada ao baixo clero das ideias, como quando o noticiário das páginas policiais migra em editorial para o debate acerca dos direitos humanos.
Os que compreendem o papel estratégico das universidades e o seu laço interno com um projeto mais generoso de nação não podem silenciar e têm apontado com força e clareza os graves problemas orçamentários ora enfrentados. E devem mesmo mostrar isso com todas as letras, inclusive para o governo Lula, lembrando que o investimento em nossos equipamentos e em nossa gente é o único que, na longa duração, pode impedir que afundemos em um obscurantismo servil. As universidades e os artistas estão, aliás, dando muito bem o seu recado. Neste momento em que as forças progressistas precisam de energia para uma virada, tornada difícil exatamente por políticas destrutivas de austeridade fiscal, os artistas e os estudantes têm espalhado esperança país afora.
Por outro lado, os prosélitos de projetos de privatização dão seus pulos de alegria diante de um quadro precário, agravado nos governos Temer e Bolsonaro e ainda não suficientemente corrigido neste governo Lula. Com isso, aqueles que tratam a universidade como algo a ser domesticado e instrumentalizado logo veem esses problemas como oportunidade para reiterar seu mantra ideológico. Nesse sentido, a Folha não falha e não há de faltar às elites. Elas sempre contarão com sua verve, que, de repetida, nem sempre tem brilho ou elegância capaz de dourar a pílula de alguma mediocridade.
A Folha farfalha, espalha sua ideologia, mas é preguiçosa, às vezes, em seu veneno. Quero denunciar aqui sua preguiça, quando passa a plagiar a si mesma. Até seus detratores têm direito a material novo, a algum argumento além de requentar seu material. Sua preguiça é quase um insulto. Afinal, é quase certo que seus editorialistas são bem remunerados. Logo, que trabalhem mais e melhor, pois não deixa de ser triste reler mais do mesmo e com menos brilho. Compare-se o editorial da Folha de S. Paulo de 19 de outubro de 2026, “Custeio das universidades exige reformas”, com o de 23 de maio de 2025, “Não haverá dinheiro que baste para universidades públicas”. Falta ao texto de agora a verve voltairiana que sobrava no editorial anterior; preserva-se apenas o veneno.
A Folha é falha, porque fiel à sua filiação. Simplesmente, não escuta quem lida com a gestão universitária, recusa-se a dar espaço às análises produzidas pela própria academia, cuja competência, por uma espécie de ignorância seletiva, só reconhecem em assuntos específicos. Vê de fora o problema, exatamente por não ter qualquer estima pelo projeto decerto caro de uma rede nacional capaz de ensino, pesquisa e extensão.
Por economia, a Folha favorece o antigo ideário de que a pesquisa deva se restringir a uns poucos centros, sendo fiel, portanto, à antiga inspiração de Paulo Renato — hostil ao projeto de centros de excelência espalhados por todo o país. Sua avaliação é errada e enviesada. Por preguiça? Não. Por ideologia. Tudo se torna ocasião para levantar o tema do pagamento de mensalidades pelos estudantes, a redução da estabilidade dos servidores e, obviamente, as parcerias público-privadas — no que, aliás, encontram aliados insidiosos inclusive no atual governo.
A Folha só falha, então. Seus editoriais deveriam ser mais bem escritos, mas são a expressão do que se identifica com a constituição de bolhas ideológicas, ou seja, redomas imiscíveis ao contraditório, infensas à diferença. Em um mundo ideal, poderiam ilustrar pensamentos, honrando inclusive a chamada O que a Folha pensa. Ao contrário, em nosso mundo real, tais editoriais estão longe de ser espaço de pensamento, reduzindo-se à prédica ideológica. Podiam ser mais refinados e mais bem escritos. Nós os leríamos com mais ou menos revolta, mas com algum prazer intelectual. Infelizmente, a Folha prefere há muito preparar dilúvios, não quer soluções.
João Carlos Salles é filósofo, reitor da Universidade Federal da Bahia (UFBA)



