As imagens chocantes vindas do Nepal reiteram a urgência de ações para lidar com o aquecimento global

Na semana passada, os olhos do mundo se voltaram para o sul da Ásia, mais especificamente, para a região da Cordilheira do Himalaia. De forma inédita, uma grande avalanche seguida por enchentes catastróficas assolou o Nepal e o Tibete, deixando centenas de pessoas desabrigadas, cerca de 3 mil desaparecidos e aproximadamente 781 mortos.
A vida de muita gente mudou catastroficamente de uma hora para outra, por causa de mais um evento climático extremo. Sinto que já bati muito nessa tecla por aqui e não quero ser repetitiva, mas a situação pede por um reforço: os eventos climáticos extremos vão ser cada vez mais recorrentes e cada vez mais graves. No entanto, assumir isso não basta. Ações são necessárias para evitar que as pessoas sofram as consequências dessa realidade. Mas meu foco hoje não é esse.
Quero falar sobre como as ações humanas podem ter piorado a situação no Himalaia, contribuindo efetivamente para o agravamento desta realidade. Especialistas, como Pedro Côrtes, professor da Universidade de São, apontam que a construção de uma série de usinas hidrelétricas na cordilheira pode ter alterado o relevo nessa região e contribuído para este evento climático extremo.
De acordo com Côrtes, essas obras se baseiam em uma realidade climática que já não existe mais. O professor, que já foi membro do IPCC, afirma que: “[…] entre as décadas de 1990 e 2020, 12% da superfície de gelo da região foi perdida. Com isso, o gelo tende a se desprender com muito mais constância, velocidade e impacto”. O professor diz ainda que as obras “podem acentuar essa tendência porque são interferências no relevo e nas próprias geleiras”.
Nesse sentido, é importante pensar sobre como as ações humanas influenciam diretamente no agravamento desses desastres. Não as ações cotidianas, que são até “pequenas”, como uso excessivo de água, consumo de produtos de origem animal ou uso de carro em vez de transporte público. Estou falando dessas grandes obras, exploração de recursos naturais de forma desenfreada e busca constante por crescimento e desenvolvimento econômicos, que têm se mostrado, sinceramente, inúteis.
Já passou da hora de questionarmos essas grandes obras de infraestrutura, que causam impactos diretos na natureza e que, em vez de melhorar a qualidade de vida das pessoas, podem agravar essas tragédias socioambientais. Questiono, por exemplo, qual é a necessidade de construir usinas hidrelétricas no meio da cordilheira do Himalaia? Em 2026, já temos inúmeros estudos falando sobre a importância de se investir em energia limpa.
Ainda assim, governos insistem nessas obras problemáticas, que perpetuam um modelo falido de desenvolvimento e, na prática, não resolvem nada. Ao contrário.
As enchentes do Himalaia são, mais uma vez, um choque de realidade para quem ainda insiste em não olhar para a urgência do momento que vivemos.
Luiza Moura é bacharela relações internacionais pela PUC-SP e ativista socioambiental






