Agência Bori
Premiados receberão R$ 500 mil cada; cerimônia acontece em outubro em São Paulo

O pesquisador Mario Murakami (foto: CNPEM)
O pesquisador Mario Murakami, diretor do Laboratório Nacional de Biorrenováveis (LNBR) do Centro Nacional de Pesquisas em Energia e Materiais (CNPEM), e o padre Júlio Lancellotti são os vencedores da edição 2026 do Prêmio FCW, concedido pela Fundação Conrado Wessel. O prêmio reconhece anualmente personalidades ou entidades que se destacam por terem talento inovador, liderança, abrangência social, trabalho, integridade e ética. Na categoria Ciências, o prêmio — que ficou conhecido na imprensa como “Nobel do Brasil” — teve como tema a Transição Energética. Já em Cultura, a edição contemplou a temática Migrações – Direitos Humanos.
Os agraciados foram escolhidos na terça-feira (25) pelas comissões julgadoras, que se reuniram na sede da Fundação, em São Paulo. Os prêmios, no valor de R$ 500 mil cada, serão entregues em cerimônia da FCW em outubro.
“Murakami se destaca por sua contribuição científica para o desenvolvimento de soluções biotecnológicas voltadas à transição energética e ao aproveitamento sustentável da biodiversidade brasileira”, disse Carlos Vogt, diretor-presidente da FCW. “Padre Júlio, por sua vez, construiu uma trajetória de décadas na defesa da dignidade e dos direitos de pessoas em situação de vulnerabilidade, incluindo migrantes e refugiados. São escolhas que reafirmam o propósito do Prêmio FCW de reconhecer trajetórias de excelência, impacto social e compromisso ético.”
Mario Tyago Murakami é diretor do Laboratório Nacional de Biorrenováveis (LNBR), ligado ao Centro Nacional de Pesquisas em Energia e Materiais (CNPEM), em Campinas (SP). Ele também preside a Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio), órgão responsável pela avaliação científica e regulatória de organismos geneticamente modificados e novas tecnologias de edição gênica no Brasil. Seu trabalho é na área de biotecnologia: ele estuda micro-organismos da biodiversidade brasileira para entender como eles funcionam ao nível molecular e usar esse conhecimento na criação de processos industriais mais sustentáveis — por exemplo, fábricas biológicas que usam bactérias ou fungos, em vez de processos químicos tradicionais, para produzir insumos para indústria, energia e agricultura. Aos 45 anos, já construiu uma carreira que combina ciência de ponta, cargos de liderança e a capacidade de conectar a pesquisa acadêmica às aplicações práticas na indústria.
Como diretor do LNBR/CNPEM e coordenador do Programa Fapesp de Pesquisa em Transição Energética, Murakami também lidera estudos voltados a bioenergia (energia obtida de fontes biológicas) e bioeconomia (uso de recursos biológicos para gerar produtos e renda de forma sustentável). Uma parte importante desse trabalho consiste em quebrar moléculas complexas presentes em resíduos agrícolas e industriais — como bagaço de cana ou palha — transformando-as, com a ajuda de micro-organismos, em substâncias mais simples e úteis. A partir dessas pesquisas, sua equipe descobriu novos mecanismos pelos quais enzimas aceleram reações químicas na natureza, além de avançar na compreensão de como esses micro-organismos da biodiversidade processam diferentes fontes de carboidratos. Os resultados já foram publicados em revistas científicas de grande prestígio internacional, como Nature, Science, Nature Chemical Biology e PNAS.
As tecnologias desenvolvidas por sua equipe já passaram de testes de laboratório para testes em maior escala, simulando condições próximas às usadas de fato na indústria, e vêm sendo adaptadas em parceria com empresas. Um destaque é a plataforma OpEn: a primeira tecnologia nacional criada para produzir enzimas usadas na bioindústria. Ela já é utilizada por dezenas de universidades e institutos de pesquisa no Brasil, além de instituições em mais de dez países, posicionando o Brasil como um gerador de novas biotecnologias estratégicas para bioeconomia e transição energética.
“Receber o Prêmio FCW de Ciências é uma enorme honra, especialmente por reconhecer a importância de conectar grandes questões fundamentais da biologia, desde o nível atômico e molecular até a inovação em larga escala necessária para viabilizar uma transição energética de baixo carbono”, afirma Murakami. “O Brasil reúne condições únicas para liderar essa transformação, combinando uma extraordinária capacidade de produção de biomassa associada à agricultura, uma das maiores biodiversidades do planeta, competência científica de nível internacional e um histórico de inovação já demonstrado pelo sucesso da bioenergia.”

Padre Julio Lancelotti, em audiência na Comissão de Educação e Cultura do Senado, em 2025 (foto: Carlos Moura / Agência Senado)
O Prêmio FCW em Cultura de 2026 teve Júlio Lancellotti como agraciado. Lancellotti é pároco da Paróquia de São Miguel Arcanjo, na Mooca, na capital paulista, e vigário episcopal para a Pastoral do Povo da Rua da Arquidiocese de São Paulo. É uma das principais referências na defesa dos direitos humanos e na atenção às populações em situação de vulnerabilidade.
Sua trajetória de atuação social começou antes mesmo da ordenação sacerdotal. Formado em pedagogia e especializado em orientação educacional, trabalhou no Serviço Social de Menores e no Centro de Apoio ao Imigrante, no Brás, onde deu aulas para crianças com dificuldades de aprendizagem. Em 1981, iniciou os estudos de teologia. Foi ordenado sacerdote em 1985.
A atuação de padre Júlio abrange moradores de rua, crianças e adolescentes, jovens em conflito com a lei, pessoas em liberdade assistida, imigrantes, refugiados e outros grupos submetidos a situações de exclusão. Sua ação combina acolhimento direto, assistência e defesa de políticas públicas voltadas à garantia de direitos e à inclusão social.
Na trajetória do padre Júlio, a questão migratória aparece tanto em sua experiência profissional, desde o trabalho no Centro de Apoio ao Imigrante, quanto em uma atuação mais ampla em defesa de pessoas submetidas à exclusão e à vulnerabilidade social. Ao longo das décadas, ampliou esse trabalho para a defesa de migrantes e refugiados, especialmente daqueles que chegam ao Brasil em condições de vulnerabilidade e enfrentam dificuldades de acesso à moradia, ao trabalho, à documentação e aos serviços públicos.
“O reconhecimento ao padre Júlio Lancellotti expressa a compreensão de que Cultura também se faz na construção cotidiana de uma sociedade mais justa, solidária e inclusiva. Sua trajetória demonstra como a defesa dos direitos humanos, o acolhimento e a atenção aos que vivem situações de exclusão podem produzir uma dimensão cultural profunda, ao transformar a maneira como a sociedade enxerga e trata aqueles que dela fazem parte”, disse Carlos Vogt.
A Comissão Julgadora do Prêmio FCW de Ciências foi presidida por nomes de instituições como a ABC (Academia Brasileira de Ciências), Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo) e Fiocruz-Bahia. Já em Cultura, a comissão contou com especialistas de instituições como a Unicamp, a USP e a Academia Paulista de Educação.
Em 2025, o Prêmio FCW de Ciências foi entregue à professora da Universidade de Brasília e pesquisadora da vegetação nativa da região central do Brasil Mercedes Bustamante. O escritor Marcelo Rubens Paiva foi o vencedor do Prêmio FCW de Cultura.



