Pequenos percalços de organização não atrapalham uma experiência radicalmente democrática e pioneira no universo da educação superior no país

Debate proposto por coletivos diversos (foto MM)
Está em curso desde ontem na Universidade Federal da Bahia (UFBA) a primeira eleição direta para a reitoria na história das universidades públicas federais do Brasil. As votações serão encerradas nesta quinta-feira, 21 de maio, às 22 horas, e ainda nesta noite terá início a apuração dos votos dados pela comunidade de estudantes, professores e servidores técnicos para escolher, dentre as diferentes propostas apresentadas pelas quatro chapas inscritas, qual vai efetivamente orientar os destinos da UFBA pelos próximos quatro anos.
Pequenos atrasos verificados na distribuição das 34 urnas e no começo efetivo da votação nas diversas unidades dos campi da UFBA, na manhã do primeiro dia, não terão consequências nos resultados da votação, segundo observadores, justamente dada a extensão do processo, longo o suficiente para a correção e superação de falhas naturais numa experiência nova e de largo alcance.
Vale ressaltar que o pioneirismo da UFBA no novo processo de escolha decisiva de reitores(as) e vice-reitores(as) das universidades federais, sem mais a famosa lista tríplice que até a promulgação da Lei 15.367/2026 precisava ser enviada ao presidente da República para a escolha final dos dirigentes, servirá de parâmetro às instituições congêneres em todo o país. São outras 68 universidades que terão que regulamentar, cada uma, seu processo de eleição direta dos dirigentes daqui por diante.
Nesse sentido, o caráter altamente democrático da campanha, em alguns casos com uma longa escuta da comunidade, exposição de ideias, debate dos problemas e dos rumos desejados para a universidade pública, e cuidadosa construção coletiva do programa — como aconteceu com a chapa “Somos UFBA”, liderada pelos professores João Carlos Salles e Jamile Borges, com largo apoio da comunidade acadêmica nacional, destacados pesquisadores, intelectuais e artistas de todo o país —, certamente irá inspirar as demais universidades.
Destaque muito importante nesse âmbito, aliás, vale para o último debate da campanha, na terça-feira, 19, organizado pelos coletivos de estudantes que passaram a ter acesso à universidade pública brasileira a partir das políticas de inclusão e ação afirmativa da primeira e segunda décadas deste século.
Assim, o Núcleo de Estudantes Indígenas, o Coletivo TransUFBA, o Coletivo de Mães da UFBA, o Coletivo estudantil Negro Ana Célia, o Coletivo de Licenciatura Intercultural Indígena e a Frente Feminina da UFBA, depois de lerem um texto de abertura dos trabalhos elaborado conjuntamente, dirigiram perguntas de seu interesse aos candidato e candidatas a reitor e vice-reitor, concedendo a todos tempo de resposta rigorosamente igual, marcado pelo maracá.
Abordaram questões fundamentais e mesmo polêmicas, conseguindo, entretanto, manter no auditório 2 da Faculdade de Educação, quente e lotado, um clima mais harmonioso do que o de outros eventos. No final apresentarem um documento com um grande número de reinvindicações dos coletivos, pedindo o compromisso assinado de cada uma das quatro chapas com o encaminhamento das questões apresentadas por quem vencesse o pleito.
Reproduzimos abaixo o texto de abertura do debate organizado pelos coletivos citados:
“Esse encontro nasce da iniciativa do Núcleo de Estudantes Indígenas, do Coletivo TransUFBA, do Coletivo de Mães da UFBA, do Coletivo Estudantil Negro Ana Célia, do Coletivo da Licenciatura Intercultural Indígena e da Frente Feminista da UFBA, por entendermos que além de diversa, a comunidade acadêmica é profundamente desigual no que diz respeito às condições econômicas, aos trânsitos e acessos nesse território.
A população indígena, negra, quilombola, trans, PCD, mãe e feminina, incluindo estudantes, docentes, TAEs e trabalhadores terceirizades enfrenta barreiras estruturais e institucionais para sua permanência e participação na universidade. Sabemos que nossas existências, historicamente, nunca foram de fato desejadas nesse território. Nosso acesso à universidade é fruto das lutas dos movimentos sociais. Longe de ter sido uma reparação histórica, resultado de autocrítica profunda das magníficas universidades, as políticas afirmativas seguem tendo sua legitimidade negada cotidianamente, numa academia que muito se auto elogia e pouco repara.
Ainda hoje, à revelia de resoluções aprovadas nessa instituição, permanecemos nos deparando com barreiras propositadamente conservadas, que tentam a todo custo impedir nossos direitos de acessar e produzir conhecimentos nesse território. Nos racismos, nos machismos, nas misoginias, nas transfobias, no elitismo classe média naturalizado, no adultocentrismo ativamente excludente à presença de crianças; nos capacitismos, no ensinoetnocida e na folclorização das pessoas quilombolas e indígenas; nas gestões e didáticas deficientes quando as pautas demandam por inclusão; nos currículos para adaptação que não consideram nossas existências em uma sociedade injusta e desigual; e nas tentativas de desarticulação de movimentos estudantis para manutenção de interesses estritamente partidários.
Não tratar como prioridade nossas demandas por questões básicas de sobrevivência nesse território é nos desumanizar. E isso não significa que não reconhecemos e valorizamos os avanços conquistados, mas afirmar que vocês, assim como nós (como já diziam nossas mães, desde que éramos crianças) não fizemos mais do que nossa obrigação. E ainda há muito a ser feito.
Considerando a seriedade do que está em questão nessa eleição, o foco desse encontro é pensar projeto de universidade, por compreendermos a sua importância. Não por concordarmos com essa auto-imagem tantas vezes cultivada, de lugar iluminado, magnifico por natureza, porque nos envergonhamos de muita coisa da história dessa instituição, mas por apostarmos em sua potência quando implicada com a justiça social e com a produção de conhecimentos comprometidos em garantir vida digna a todas as pessoas.
Como o tempo para conversa é pouco, pedimos a sensibilidade e o compromisso de todas as pessoas presentes para que possamos garantir um bom aproveitamento dele. Nosso desejo é que possamos sair da abstração de promessas vazias.



