Reportagem publicada na La recherche – edição 536

Pierre Vandenginste

Redes de neurônios artificiais desenvolvidas por pesquisadores do INRIA Sophia Antipolis (centro de pesquisa do Instituto Nacional de Pesquisa em Informática e Automação, na sigla em francês) leem mamografias tão bem quanto radiologistas.

Em 18 meses, a startup Therapixel deverá tornar acessível pela internet um software que interpretará mamografias e detectará câncer de mama, com precisão comparável à dos melhores radiologistas.

Foi no INRIA Sophia Antipolis que os dois fundadores da empresa encontraram-se em 2004, dentro da equipe Asclepios, dedicada a imagens biomédicas. “Terminei minha tese e Pierre começou a dele”, recorda Olivier Clatz, hoje presidente da Therapixel, referindo-se a Pierre Fillard, diretor técnico da empresa.

Os caminhos dos dois se separaram, mas a ideia de criar uma empresa germinou e se concretizaria em 2013. A interpretação de mamografias não era o objetivo inicial. “Na época, não imaginávamos que se poderia automatizar completamente uma tarefa tão complexa”, lembra Clatz.

Os dois pesquisadores, que tiveram a oportunidade de estudar as realidades do setor cirúrgico, se dedicam a uma aplicação que lhes parece mais razoável: permitir ao cirurgião, em plena intervenção, acessar a imagiologia existente referente ao paciente operado, por simples comando gestual. “Localizar uma mão em 10 milissegundos, interpretar um gesto, tudo isso nos parecia muito mais factível”. Hoje, o faturamento da Therapixel se baseia essencialmente na comercialização do Fluid, seu aplicativo de navegação gestual para imagiologia médica.

Em 2016, no entanto, a startup entrou em um concurso lançado por organizações americanas de combate ao câncer, o Digital Mammography Challenge (Desafio da Mamografia Digital), com prêmio de um milhão de dólares. Pesquisadores da área de visão artificial de todo o mundo são convidados a participar, criando, por aprendizado automático, uma ferramenta de interpretação de mamografias. Mais de 1200 equipes se inscreveram e trabalharam a partir de um corpus de 640 mil mamografias fornecidas pelos organizadores.

Em maio de 2017, o resultado: a equipe Therapixel levou o primeiro prêmio. A empresa demonstrou sua maestria em ferramentas de aprendizado profundo aplicadas às imagens biomédicas. Desde então a interpretação de mamografias se impôs como objetivo prioritário para a startup. Em 2018, ela já anunciou uma melhoria em sua rede de neurônios. “Nossos resultados são 5% melhores do que os desempenhos estimados dos radiologistas no estudo DMIST, a referência mais frequentemente citada”. Mais precisamente, 75% de positivos verdadeiros contra 70%, em ambos os casos com especificidade de 92% (negativos verdadeiros).

“O objetivo”, diz Clatz, “agora é igualar os melhores desempenhos já publicados de radiologistas (nota da redação: sensibilidade de 86,9%, especificidade de 88,9%). Vamos afinar nossa rede pelos próximos 12 meses. Em seguida, precisaremos de seis a oito meses para obter autorizações junto à União Europeia e, nos Estados Unidos, da Food and Drug Administration (nota do tradutor: agência que regula a comercialização de alimentos e remédios), para lançarmos nosso produto online.

Bons registros

A confiabilidade da rede de neurônios depende da qualidade da matéria prima absorvida [digerée]. “A pesquisa de bons registros de pacientes é primordial”, explica o presidente da Therapixel. “Negociamos com os centros de Nice, Toulouse, com o Instituto Curie em Paris e Gustave-Roussy em Villejuif”. Já aparecem novas pistas. “Começamos a nos interessar pela tomossíntese, uma técnica de imagiologia que fornece imagens do seio em 3D, que poderia substituir a mamografia em 5 ou 10 anos. Em seguida poderíamos nos voltar para fraturas. E também para pulmões, sem dúvida”. A Therapixel agora é bicéfala, uma vez que sua pesquisa está instalada na incubadora Paris Santé Cochin, enquanto a engenharia fica no Sophia Antipolis, abrigada no Le Village by CA, do banco Crédit Agricole.