Reportagem produzida originalmente por Elisa Marconi e Francisco Bicudo para a Giz, revista on-line do Sindicato dos Professores de São Paulo.

 

Na zona sul da capital paulista, região do Real Parque, convivem, lado a lado, como vizinhos separados por um muro, um bairro nobre e rico e uma favela bem grande. Cravada na fronteira nada imaginária que separa as duas realidades, fica a Escola Municipal de Ensino Fundamental José de Alcântara Machado Filho, a única pública da região. O muro que limita o fundo dessa escola também marca o início de um colégio particular bilíngue, que tem mensalidades na casa dos quatro dígitos.

Mergulhada nesse cenário de contradições, e justamente por conta delas, é possível afirmar que há algo de especial brotando na Alcântara – como é carinhosamente conhecida pela comunidade local. Esse processo de (re) descoberta começou em 2006, quando uma equipe de pesquisadores coordenada pela professora da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (FEUSP), Monica Guimaraes Teixeira do Amaral, entrevistou e analisou a produção de estudantes de 13 a 16 anos daquela escola e chegou a conclusões tão interessantes quanto inéditas que acabaram se transformando no livro O que o rap diz e a escola contradiz, publicado recentemente pela Editora Alameda, com auxílio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).

“Nós fomos chamados por uma ONG que atua na região e que é formada por ex-alunos do colégio. Eles estavam preocupados porque a direção que tomava conta da instituição havia mais de 10 anos era extremamente complicada e não apoiava os projetos dos professores. Por isso, já tínhamos uma geração inteira mal formada”, relembra Monica .

A ideia da equipe da Faculdade de Educação da USP foi, então, entrar na escola, conversar com professores, montar projetos e atividades para estimular os estudantes. “Aceitamos o desafio e a boa surpresa é que os docentes foram sempre muito receptivos e empolgados para começar os trabalhos”, conta a professora. Entre 2006 e 2009, os pesquisadores da equipe de Monica trabalharam ao lado dos educadores da escola, deram aulas juntos e foram coletando os relatos dos estudantes. A análise dessas experiências rendeu um trabalho de livre-docência para Monica, chamado A trama e a urdidura entre as culturas juvenis e a cultura escolar: a eróptica’ e a cultura escolar: a ‘eróptica’ como método de pesquisa e de ruptura de campo. O título acadêmico foi obtido em 2010.

Resgate

Uma das frentes trabalhadas no projeto foi um currículo interdisciplinar que abraçava as disciplinas de história, geografia, artes e literatura. Nesse momento, artistas populares do bairro e da região foram convidados a se envolver também. “Juntos, buscamos resgatar a cultura e as heranças dos ancestrais dos estudantes da escola”, lembra a coordenadora da pesquisa. Assim, cada um dos pesquisadores envolvidos seguiu por um caminho. “Tivemos desde a questão indígena até o hip-hop, passando pelo cordel”.

Ao mesmo tempo, um levantamento feito com alunos apontava o que eles esperavam da escola. “As respostas foram bem variadas. Encontramos adolescentes extremamente empolgados e cheios de planos relacionados ao colégio, até jovens bem desmotivados que viam na escola a chance de encontrar os amigos diariamente”, retoma Monica.

Como fruto das atividades com os estudantes, um dado – ou melhor, a omissão de um dado – chamou a atenção dos pesquisadores. Nos trabalhos encomendados para o dia do índio, os alunos listaram uma série de etnias indígenas, mas não trataram dos Pankararu. “Achamos essa ausência muito significativa, já que a comunidade Pankararu reside em peso na zona sul da capital paulista, perto da região da escola estudada. Mais que isso, a comunidade foi formada pela miscigenação de indígenas, negros e sertanejos brancos e chegou a esse pedaço da cidade para construir o estádio do Morumbi nos anos 1950”.

Por que será que os Pankararu não apareciam nos relatos e nos trabalhos dos alunos? “Descobrimos que os alunos tinham vergonha de sua origem. Ninguém se autodenominava pankararu ou descendente deles. Até que um aluno abriu a ascendência e outros o seguiram”, continua a pesquisadora. Estava ali o gancho para o resgate e consolidação de vínculos com os estudantes. Através da recuperação das tradições, das histórias e da trajetória dos Pankararu, os alunos produziram muito material e, principalmente, “resgataram uma identidade escondida”, comemora Monica.

A partir das dificuldades encontradas e enfrentadas pelos ancestrais, os jovens puderam entender e significar a atual situação de violência e condição social desfavorável em que se encontram até hoje. A autora do livro lembra que os Pankararu sofreram um aldeamento forçado por conta da construção da hidrelétrica de Paulo Afonso e Itaparica, ao longo do Rio São Francisco, no Nordeste do país. Acabaram se miscigenando com negros e brancos que também trabalhavam nas obras do sertão. Já com o nome de Pankararu, migraram para o Sudeste para trabalhar em megaobras, como o palácio dos Bandeirantes, o estádio do Morumbi e outras. “Aqui em São Paulo, a situação de miséria continuou e eles não conseguiram galgar degraus sociais, legando a pobreza para os descendentes – os estudantes da escola – até hoje”.

Por outro lado, os alunos finalmente entenderam e deram significado às duas associações pankararu que existem e resistem na favela. “Apesar da falta de espaço apropriado para fazer os rituais e cerimônias, as duas associações conseguem manter e estimular o simbolismo e parte das tradições indígenas”, confirma Monica.

O resultado desse resgate foi a eliminação de parte daquela vergonha inicial e a substituição dela por um certo orgulho. O canal de expressão para falar desse encontro com o passado é – como é esperado quando se trata de jovens – algo bem atual: o rap. “Parte dos descendentes dos Pankararu encontrou no rap uma maneira de contar sua história, falar dos problemas e convocar os iguais a não desistir”, explica Monica. O rap, lembra a professora, é uma linguagem bastante conhecida e natural para esses meninos e meninas. Por isso, fazer dele o canal para contar e cantar suas memórias e percepções foi simples e impactante.

“O nome do livro vem justamente daí, um resgate do passado que não estaciona no passado. Usa o presente para desenhar o futuro”, explica. O que a escola sempre negou, a criatividade e a identidade, agora tinha vazão. Além disso, o rap é a cara do jovem da periferia. É através dele que o adolescente ouve e fala sobre discriminação, pobreza e outros assuntos correlatos. O rap, somado à identidade resgatada, fortalece o jovem, o empodera.

A metodologia escolhida e implantada pela equipe da professora Monica Amaral já está sendo adotada por outras escolas municipais de São Paulo e o livro O que o rap diz e a escola contradiz não precisa ser lido apenas por educadores. “Claro que professores são o principal alvo, mas jovens estudantes, pesquisadores e outros interessados e curiosos pelo assunto da educação também podem ler. E terão muito a aproveitar”, conclui.