Descoberta brasileira alimenta debate sobre, afinal, quando a Humanidade chegou às Américas?

Ciência na rua | 30 de novembro de 2017
DivulgaçãoDetalhe das escavações em Mato Grosso

Detalhe das escavações em Mato Grosso

Por Evanildo da Silveira, para a BBC Brasil

Ferramentas de pedra, fogueiras e adornos recém-encontrados no Mato Grosso e datados de quase 30 mil anos têm dado combustível a uma discussão histórica na arqueologia moderna: a data de chegada dos seres humanos às Américas.

Há diferentes teorias, desde as que afirmam que o evento ocorreu há cerca de 12 mil anos até as que apostam em 100 mil anos ou mais.
A descoberta recente foi feita no sítio arqueológico de Santa Elina, a 80 km de Cuiabá. Os arqueólogos responsáveis pelas escavações, Denis Vialou e Águeda Vilhena Vialou, do Museu Nacional de História Natural da França, afirmam que essa região brasileira já era habitada há pelo menos 27 mil anos.
“Uma prova é a presença de mais de 300 objetos de pedra lascada, com serrilhados e retoques, que só poderiam ter sido feitos pela mão do homem”, afirma Águeda, que realiza escavações na região da Serra das Araras desde 1995.
Outra prova da presença humana, segundo ela, são restos de fogueiras.
‘Tripla raridade’
O material encontrado foi datado por três métodos diferentes, envolvendo desde radiocarbono 14 até luminescência ótica.
Segundo Águeda, o sítio de Santa Elina traz uma tripla raridade : “A primeira é que ocupações humanas pleistocênicas (entre 2,588 milhões e 11,7 mil anos atrás) são raras e por enquanto lá é o único local descoberto no centro do continente sul-americano.”
A segunda e a terceira raridades dizem respeito aos adornos encontrados: alguns foram feitos com ossos de preguiças-gigantes do gênero Glossotherium, já extinto.
“É o primeiro caso no Brasil de uma perfeita associação do homem com a megafauna extinta”, explica ela. “Há a confecção de objetos simbólicos com ossos da megafauna, transformando-os em adornos.”

Discussão desde Colombo
A discussão sobre a data de chegada da Humanidade às Américas remete aos tempos de Cristóvão Colombo, quando desembarcou no Caribe em 12 de outubro de 1492.
Ele foi recebido pelos tainos, um povo amistoso, que o navegador genovês a serviço da Espanha achou que fossem indianos, pois estava convencido que havia chegado à Índia – e permaneceu com essa convicção até a morte.
O descobridor da América não sabia, mas sua chegada ao continente marcou, na verdade, o reencontro de duas linhagens evolutivas do Homo sapiens, que estavam separadas havia pelo menos 50 mil anos: a sua própria, europeia, e a dos primeiros americanos, mongoloides, aparentados com os povos asiáticos.
Desde então, persiste o mistério: como e quando os povos encontrados por Colombo chegaram às Américas?
Teorias não faltam. A mais antiga e resistente é o modelo conhecido em inglês como Clovis-first (Clóvis-primeiro). Deve seu nome a um sítio arqueológico assim denominado, descoberto em 1939, no Novo México, Estados Unidos.

No local, foram encontrados artefatos de pedra lascada, datados de 11,4 mil anos. Segundo essa teoria, defendida principalmente pela comunidade arqueológica americana, a chegada teria ocorrido há cerca de 12 mil anos.
Já o chamado “modelo das três migrações”, sugerido em 1983 por Christy Turner, se baseia num amplo levantamento de diversidade dentária, que concluiu ter havido três levas migratórias da Sibéria para a América.
A primeira, há 11 mil anos, teria dado origem a todos os índios das Américas Central e do Sul e à maioria dos povos nativos norte-americanos. A segunda teria chegado há 9 mil anos e originou os índios ancestrais dos Apaches e Navajos, sobretudo na costa pacífica do Estados Unidos e Canadá. A última seria bem mais recente, há 4 mil anos, e composta pelos ancestrais dos esquimós e povos aleutas (no Círculo Polar Ártico).

Teorias brasileiras
Cientistas brasileiros também têm suas teorias da ocupação das Américas.
Uma delas foi desenvolvida pelo biólogo e antropólogo Walter Alves Neves e pelo geógrafo Luís Beethoven Piló, ambos da Universidade de São Paulo (USP). Eles propõem que os primeiros americanos chegaram ao continente em duas levas migratórias, a primeira há 14 mil anos e a segunda há 11 mil, vindas da Ásia pelo estreito de Bering.
De acordo com eles, a primeira leva seria composta por uma população com traços semelhante aos dos africanos e aborígines australianos. A segunda era de mongoloides, semelhantes aos asiáticos e índios americanos atuais.Uma segunda teoria foi proposta por três geneticistas brasileiros e um antropólogo argentino, defendendo que houve apenas uma leva migratória, há 18 mil anos.
Antes disso, os ancestrais dos migrantes haviam ficado “presos” na Beríngia, região que unia o Alasca ao nordeste da Sibéria e que naquela época não estava submersa (era o ápice do último período glacial e o mar estava 120 metros abaixo do nível atual).
“Essa população abrigava desde tipos semelhantes aos africanos até os parecidos com os índios atuais”, explica Maria Cátira Bortolini, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, uma integrante do grupo.
Há ainda uma terceira teoria sobre a ocupação da América. Bem mais polêmica, ela foi proposta pela arqueóloga Niéde Guidon, com base em suas descobertas em vários sítios arqueológicos no sul do Piauí.
Para ela, o homem chegou à região há nada menos que 100 mil anos, vindo diretamente da África, cruzando o Atlântico, numa época em que o planeta também estava num período glacial, com o mar 120 metros abaixo de seu nível atual.
“Com o isso, o número de ilhas entre a costa euro-africana e a costa sul-americana era bem maior”, diz. “Além disso, as correntes marítimas favoreciam a passagem para leste, para o Caribe e para o litoral norte do Brasil.”

Controvérsia
É nesse contexto que a descoberta do casal Vialou aumenta a controvérsia.
Alguns pesquisadores brasileiros a veem com cautela e outros, como a confirmação de que os humanos chegaram ao continente muito antes do que propõem algumas teorias.

DivulgaçãoFosseis testados com três técnicas diferentes

“Os autores são arqueólogos com excelente formação, portanto suas publicações devem ser levadas em consideração”, diz Guidon. “Todas as descobertas são importantes na arqueologia, pois os vestígios estão geralmente sob a terra e podem desaparecer com o passar dos anos.”
O geneticista Fabrício Santos, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), outro membro do grupo que propôs a teoria de uma leva só de migrantes, é mais cauteloso.
“É mais um sítio com datas antigas”, afirma. “Parece que é bem datado, mas não tem ossos humanos, só dois utensílios furados. Abre perspectiva de que pode ser mais antiga a ocupação da América do Sul, mas faltam mais evidências com vários restos humanos e também ossos.”
No que todos concordam é que o modelo Clóvis-primeiro está ultrapassado, por causa de uma série de descobertas nas últimas décadas.
“A ideia de que a cultura Clóvis teria sido a primeira a surgir na América foi definitivamente descartada devido à antiguidade incontestável do sítio Monte Verde, no Chile, de 12,5 mil anos atrás, diz o pesquisador Francisco Mauro Salzano, do Departamento de Genética do Instituto de Biociências, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRS).
“Além disso, uma série de outras datações na América do Sul e do Norte serviram de reforço ao abandono dessa teoria, inclusive uma ponta de flecha encontrada enterrada na costela de um mastodonte, no sítio Manis, Washington, EUA, datada de 13,8 mil anos atrás.”



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