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Redes sociais ajudam cientistas a mapear manchas de óleo no litoral brasileiro

Agência Bori

  • Estudo demonstrou que o Instagram é uma fonte de dados de baixo custo e eficaz para o monitoramento em tempo real de derramamentos de petróleo
  • A pesquisa estabeleceu, pela primeira vez, um protocolo científico padronizado para busca, filtragem e georreferenciamento de observações de óleo a partir de redes sociais
  • O estudo mapeou 312 registros em 170 localidades durante desastre de 2019/2020 e 162 registros em 111 localidades no período de 2022 a 2023

Foto: Roman Odintsov / Pexels

O Instagram pode ser uma ferramenta científica eficaz e de baixo custo para o monitoramento em tempo real de derramamentos de petróleo na costa brasileira. É o que revela pesquisa do Centro de Estudos do Mar da Universidade Federal do Paraná (UFPR), publicada na segunda (30) na revista Ocean and Coastal Research.

O estudo estabeleceu, de forma inédita, um protocolo sistemático para busca, filtragem e georreferenciamento de observações postadas na rede social, comprovando que o conteúdo gerado espontaneamente pelos usuários pode complementar os sistemas de vigilância ambiental tradicionais.

A metodologia consistiu na utilização de 50 hashtags em português, como #ManchasDeOleo e #OleoNoNordeste, para localizar postagens públicas referentes aos desastres de 2019/2020, que atingiram o litoral do Nordeste, e incidentes mais recentes entre 2022 e 2023. Os cientistas realizaram uma filtragem manual para validar se as imagens realmente mostravam óleo na areia, na água ou na biota, além de extrair a data e a localização exata a partir de legendas, comentários ou etiquetas de geolocalização (geotags). Para garantir a ética da pesquisa, todas as informações foram anonimizadas, removendo nomes de usuários e links originais para proteger a privacidade dos cidadãos.

O mapeamento resultou na identificação de 312 registros em 170 localidades durante o desastre de 2019/2020 e 162 registros em 111 pontos no período de 2022 a 2023, abrangendo 11 estados brasileiros. Os dados obtidos via rede social mostraram-se consistentes com a literatura científica e revelaram até mesmo ocorrências inéditas em regiões consideradas hotspots de poluição crônica, como o Sudeste e o Sul do país.

“O monitoramento de derramamentos de petróleo no Brasil ainda é um desafio significativo, e nesse contexto as redes sociais podem atuar como ferramentas complementares relevantes para ampliar a disponibilidade de informações”, explica a oceanógrafa Lorena Nascimento, autora principal do estudo. “A partir dessas informações obtidas no Instagram foi possível identificar de forma sistematizada registros de derramamento de petróleo em grande escala, mas também ocorrências esporádicas ao longo da costa brasileira”, complementa a pesquisadora.

O estudo destaca como a ciência cidadã passiva — ou seja, o aproveitamento de informações compartilhadas espontaneamente pelo público — pode ser um caminho eficaz para resolver problemas concretos. Ao transformar cidadãos comuns em “sensores humanos”, pesquisadores conseguem cobrir lacunas de informação em áreas vastas ou em eventos cujos registros oficiais são escassos ou inexistentes. Essa abordagem oferece uma ampla cobertura espacial e temporal com baixo custo de coleta, sendo particularmente útil para a detecção rápida de desastres ambientais e para o planejamento de ações de limpeza e mitigação de danos.

Neste sentido, o grupo de pesquisa desenvolve atualmente um novo projeto que utiliza inteligência artificial e aprendizado de máquina para monitorar ecossistemas marinhos a partir de dados de redes sociais e notícias online. O foco agora é o aparecimento da caravela-portuguesa (Physalia physalis) no litoral brasileiro, correlacionando os registros de avistamentos feitos por usuários com dados meteorológicos, como os padrões de ventos. “Assim como no caso do petróleo, entender a dinâmica desses organismos, que representam um risco à saúde dos banhistas, é fundamental para aprimorar estratégias de monitoramento e prevenir acidentes nas praias brasileiras”, conclui Lorena Nascimento.

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