Mariana Garcia, Jornal da Unicamp
Historiador une arte, análise histórica e método foucaultiano em crítica à visão de Brasil como paraíso sexual

A tese aborda as releituras críticas feitas pela artista plástica Adriana Varejão acerca das obras de Jean-Baptiste Debret, como a aquarela Um jantar brasileiro (acima)
O que está por trás da imagem de paraíso sexual que acompanha o Brasil pelo mundo? Para responder a essa questão, o historiador Varlei Rodrigo do Couto investigou a legitimidade de uma versão da história do país – pensada por nomes como Gilberto Freyre e Paulo Prado – que conferiu ao sexo o protagonismo na formação da identidade brasileira. Na tese A erotização do paraíso: uma crítica à construção identitária do Brasil como paraíso sexual, defendida no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH), da Unicamp, o autor procura desmontar essa teoria, para expor um conceito fabricado, no qual a sexualidade assume uma faceta perversa. Em sua pesquisa, o historiador encontra um outro erotismo, vivido e narrado a partir de margens historicamente silenciadas, que o inspira a elaborar um novo conceito histórico.
Desenvolvida no Centro de Pesquisa em Foucault, Gênero e História das Subjetividades (Cefos), do IFCH, a pesquisa constou da linha de pesquisa Gênero, Subjetividade e Cultura Material, instaurada no Departamento de História da Universidade. O colóquio “Ascensão e queda do paraíso tropical”, realizado em 2020 no IFCH, serviu de inspiração para o trabalho do historiador, que foi orientado pela historiadora Margareth Rago, professora do instituto que respondeu tanto pela organização do seminário como pela estruturação do Cefos.
Além de investigar as origens e motivações por trás da visão do Brasil como um paraíso sexual, Couto procurou examinar como essa imagem erotizada atravessou a história do país, explorando, ao mesmo tempo, suas implicações no presente. A arqueogenealogia – método científico foucaultiano em que o passado é contemplado a partir dos discursos que o compõem – norteou a pesquisa. O doutor em história ainda recorreu a textos teóricos decoloniais e às artes de Daiara Tukano, Rosana Paulino e Adriana Varejão como referências para contemplar, em sua análise, a imagem de um paraíso sexual brasileiro sob uma perspectiva sobretudo feminista, indígena e negra.
A análise foi empreendida com base em um material diversificado – entre documentos, imagens e registros históricos. À carta de Pero Vaz de Caminha, somaram-se diários de viajantes do século 16, relatos da mesa inquisitorial, textos jesuíticos e pinturas de [Jean-Baptiste] Debret. Couto também consultou biografias de personagens que viveram às margens da sociedade, literaturas oficiais da fundação do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro e textos que influenciaram os pensadores da Primeira República a consolidar a versão da história do país inspecionada. Com base nos registros dos primeiros europeus a pisar no território brasileiro, o autor da tese concluiu que sua ideia de Brasil não se assemelhava à de um paraíso: estava mais próxima do inferno.
A crítica formulada pelo historiador se concentra no conceito colonialista de erótico, que foi retomado no início do século 20 como peça de um projeto de poder elitista. “Intelectuais e políticos, articulados pelos interesses da Primeira República, mobilizaram esse repertório para forjar uma identidade brasileira conveniente à nova ordem”, diz Couto. Para desenhá-la, resgataram registros coloniais e a literatura dos primeiros viajantes. Seu erro principal, indica o pesquisador, foi adotar uma leitura estritamente literal da forma colonial de pensar o erótico, para explicar a nação. “É um modo misógino de olhar para os corpos e de entender a realidade, que exterioriza e inferioriza o outro.”
Na visão de um Brasil paradisíaco, miscigenado e pacífico, como vende o mito do paraíso sexual, a erotização é transformada em instrumento tanto para apagar um passado – e um presente – marcado pela violência contra as chamadas minorias, como para vulnerabilizar, descredibilizar e submeter indivíduos e desejos. “A ideia de erotização do paraíso, proposta por Varlei, é desmistificar essa leitura perversa do erótico presente na visão de um paraíso sexual”, avalia Rago. “Eles lançam sobre as mulheres, ao longo da história brasileira, um olhar que as empurra para o território do irracional, como se fossem definidas por uma sexualidade excessiva. A partir daí, o próprio país é descrito como guiado pelo instinto e, portanto, incapaz de racionalidade. Nesse enquadramento, o povo precisaria de alguém que o governe, porque esse suposto rebanho brasileiro seria, nas palavras de Paulo Prado, ‘extremamente sexual’”, complementa o historiador.
Problematizando o conceito colonialista do erótico que cercou a cultura brasileira, Couto propõe a elaboração de um novo conceito, capaz de ressignificar o discurso dominante e, ao mesmo tempo, esvaziar uma teoria que, por séculos, tem operado como máquina de violências e exclusões. Trata-se de uma espécie de contra-história, explica, na qual literaturas, artes e formulações não-hegemônicas fazem emergir a imagem de uma nação em que o erotismo se apresenta como pulsão de vida e de criatividade, mesmo sob o peso da opressão. Essa inflexão se apoia, sobretudo, no olhar de quem costuma permanecer fora do campo das decisões, devolvendo centralidade às experiências subalternizadas.“Pensar o Brasil como um paraíso sexual tropical é ainda repetir um conceito colonial do erótico, aquele que reduz o corpo da mulher a lugar de conquista e instrumento da dominação masculina. Mas há outra forma de narrar a história brasileira: a de um país alegre e festivo, que não fez do sexo uma perversão, e sim da sexualidade, do erótico, uma potência de alegria.”
Os autores confrontados, todos homens, foram responsáveis por fundar uma tradição de pensar o Brasil como uma nação harmônica, seja no que diz respeito às raças, seja em relação a questões sexuais. Em Freyre, essa harmonia serviu para estruturar a visão de um país alegre, festivo e acolhedor. “Isso, que passa como uma tradição, entre aspas, dos vencidos, silencia toda uma outra tradição, que é muito forte no Brasil.” Esses ângulos ignorados pela tradição, na pesquisa aparecem na forma de arte. Couto recorre ao trabalho de Varejão como uma lente crítica, para ressignificar, por exemplo, obras de Debret que retratam um Brasil onde brancos e negros escravizados convivem em harmonia. “Em Filho Bastardo, Adriana Varejão traz essa violência sexual que envolveu os corpos africanos. Ela mostra o estupro, nesse jogo intrincado entre o colonizador, o religioso, a indígena e as mulheres africanas.”
A tese, avalia Rago, quebra o silêncio que cerca a herança deixada por autores tradicionalmente considerados intocáveis. Desta forma, traz uma contribuição rara para a academia. “Até então, não se falava que Gilberto Freyre era misógino. Não estamos invalidando o trabalho dele, que é importantíssimo, mas é óbvio que a maneira como pensou formou gerações. Hoje, a gente sabe que a ideia de que o Brasil é uma democracia racial é um mito, que passou a ser criticado. Mas ela imperou por muito tempo, justificando o poder, a exclusão, a hierarquia e a ideia de que as mulheres precisam ser conduzidas porque são muito irracionais e passionais”, destaca a orientadora.



