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Regina Casé e uma ode às vidas

por | 16 set 2026

Peça solo da veterana atriz reflete sobre a relação humana com o meio ambiente

Foto: Maria Paula Maciel

Na sexta-feira da semana passada, tive o privilégio de assistir Regina Casé no teatro pela primeira vez. Fui com duas amigas mais do que especiais para ver o monólogo ‘Viva! Vida!’ que está em cartaz aqui em São Paulo. A peça é definida como uma “biografia da Terra”, o que faz muito sentido quando vemos a discussão feita em cima do palco.

Ao longo de um pouquinho menos de duas horas, Regina Casé conduz os espectadores para os tempos longínquos de formação do nosso planeta, passando por pontos importantes dessa trajetória. Com tiradas de humor hilárias, momentos emocionantes e bonitos e uma cenografia bem especial, a peça nos faz refletir sobre a Terra, nossa relação com ela e o que temos feito com essa bolinha flutuante.

A atriz, de forma muito bem feita, mistura a ciência, as cosmovisões indígenas, as mitologias do Candomblé, as mitologias Munduruku, Yanomami, Guarani e outras, fazendo uma verdadeira bricolagem de percepções sobre a formação do planeta, suas origens, a forma como os seres humanos afetam e são afetados pelo meio ambiente e pela natureza.

É preciso destacar, porém, que a peça não é só humor e gracinhas. Casé traz críticas firmes e contundentes sobre a forma que os seres humanos escolheram se relacionar com o meio ambiente. Ela pontua, por exemplo, que, apesar de vivermos no Brasil, sabemos quase nada sobre nossas florestas e plantas. Fazendo um jogo com a plateia, a atriz prova seu ponto: se mostrarmos fotos da Torre Eiffel, do Big Ben, da Estátua da Liberdade, uma criança de cinco anos vai saber dizer o nome desses lugares. Mas, essa mesma criança não saberia reconhecer uma Sumaúma, um Buriti, um Ipê. Por que sabemos tão pouco sobre nossas árvores? Por que não conhecemos nossas florestas?

‘Viva! Vida!’ é uma ode a todas as formas de vida! Humanas e não humanas. Científicas, biológicas e mitológicas. A junção de todas essas visões questiona o desmatamento, as queimadas, a destruição dos recursos naturais, a desconexão que temos com o território, as florestas, os rios e o meio ambiente.

A peça faz críticas importantes ao uso das inteligências artificiais, aos datacenters gigantescos que consomem quantidades absurdas de água e a como o ser humano tem se tornado mais individualista, mais egoísta, menos capaz de pensar por conta própria, recorrendo sempre a essas máquinas que — como diz Casé — parecem cada vez mais interessadas em se tornar seres humanos.

‘Viva! Vida!’ me fez gargalhar e refletir sobre as belezas e as dificuldades de ser um ser pensante que habita este planeta. A peça, que fica em cartaz só até este próximo fim de semana aqui em São Paulo, é um deleite para quem quer se divertir de forma inteligente e para quem, assim como eu, enxerga o meio ambiente e a crise climática em cada momento do dia a dia.


Luiza Moura é bacharela em relações internacionais pela PUC-SP, mestranda em mudança social e participação política pela USP e ativista socioambiental

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