UFBA entrega à Nigéria dossiê de pesquisa conjunta que dá base à proteção do patrimônio iorubá

Alguns dos resultados mais pujantes e envolventes de uma vasta pesquisa sobre o patrimônio cultural iorubá, cujos fundamentos foram lançadas na Nigéria no começo de 2020, antes que a pandemia da covid-19 colocasse intramuros parte considerável da população do planeta, serão apresentados na manhã da próxima segunda-feira, 29 de junho, no salão nobre da reitoria da Universidade Federal da Bahia (UFBA), numa solenidade que terá entre seus ilustres convidados o alafin de Oyó, Oba Abimbola Akeem Owoade.
Registro importante: para as religiões de matriz iorubá, o alafin ou rei de Oyó equivale ao papa para o catolicismo. Por isso mesmo, lado a lado com as aproximadamente 60 autoridades da comitiva da Nigéria que irão a Salvador, incluindo o governador do estado de Lagos, Babajide Olusola Sanwoolu, mães e pais-de-santo de 11 terreiros de candomblé tombados da cidade, incluindo os famosos Gantois, Ilê Axé Opô Afonjá e Casa Branca, mais dirigentes de afoxés e blocos afro estarão distribuídos nos lugares de honra do salão nobre da reitoria (o chamado doutoral), prestando homenagem ao alafin,
O doutoral naturalmente receberá também autoridades políticas, diplomáticas e acadêmicas brasileiras, a começar pela ministra da Cultura, Margareth Menezes. A solenidade, que possivelmente vai lotar o salão de 400 lugares, prevê uma série de falas e apresentações artísticas, mas ela se organiza, a rigor, em torno do lançamento do livro Oyó: a cidade do patrimônio cultural iorubá, cujos autores são os professores Fábio Macedo Velame, da UFBA Paula Dias Gomes, secretária de cultura do Palácio Real de Oyó, Oluwatoyin Sogbesan, da Universidade de Oyó, e Tunij Adejumo, da Universidade do Estado de Lagos. Aparece também como coautor na capa o EtniCidades, grupo de pesquisa coordenado por Velame e, ao mesmo tempo, um quilombo.
A obra é, de fato, um sólido dossiê trilingue de 390 páginas (em português, inglês e iorubá), resultante do trabalho de pesquisa desenvolvido até aqui sob a coordenação dos quatro pesquisadores, que a UFBA entregará à comitiva nigeriana, responsável por levá-lo à Unesco (Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura). O volume embasa, assim, a proposta de que Oyó seja formalmente reconhecida como a cidade central do patrimônio cultural iorubá.
Arquitetura e alimentação afro-brasileiras
As origens do trabalho e, portanto, do livro, estão numa missão de um grupo de docentes da UFBA para a Nigéria, no começo de 2020, dentro do programa Capes Print (criado em 2017 pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal do Ensino Superior, ligada ao Ministério da Educação), voltado à internacionalização da pesquisa nas universidades federais brasileiras. Professor da Faculdade de Arquitetura, e atualmente seu diretor, Fábio Velame foi o coordenador dessa missão de três semanas na Universidade do Estado de Lagos, quando seu Centro Internacional de Estudos Afro-Brasileiros (Lasucas, na sigla originada do inglês Lagos State University Center for Afro-Brazilian Studies International) organizou sua primeira conferência internacional, durante a qual debateu a cooperação científica para o inventário do patrimônio iorubá.
Agora em Salvador, após a cerimônia da segunda-feira, desdobra-se nos dois seguintes, na Faculdade de Arquitetura, a 4a Conferência Internacional do Lasucas com o tema “Cooperação Sul-Sul: os papéis da Nigéria e do Brasil na promoção da colaboração entre economias emergentes”. Os debates vão abordar economia, desenvolvimento e tecnologias sustentáveis nas cidades; laços culturais e estratégicos na vida urbana; e línguas, linguística e comunicação no espaço vivido.
“A criação do Lasucas foi financiada pelos agudás, uma associação muito forte que bancou inclusive a construção do prédio onde o centro está instalado”, diz Velame. Agudás eram originalmente os afro-brasileiros que retornavam à África Ocidental, principalmente Benin, Togo e Nigéria, após comprarem suas cartas de alforria nos séculos XVIII e XIX no Brasil escravista, e hoje são os seus descendentes, que preservam com fervor traços culturais muito similares a manifestações da cultura brasileira. “Bumba-meu-boi, procissão do Senhor dos Navegantes, festa de Senhor do Bonfim, festival de Xangô, entre outras, são manifestações culturais que eles mantêm idênticas às nossas”, comenta. A destacar também, acrescenta Velame, que os agudás gostam bastante de se vestir de verde e amarelo.
Entretanto, antes dessa missão, em 2017, o então rei de Oyó, Obá Lamidi Olayiwola Adeyemi III, preocupado com as pressões dos cultos islâmicos e protestantes sobre as manifestações religiosas e culturais iorubá, pedira o apoio do governo brasileiro à sua intenção de propor à Unesco que iniciasse os trâmites para declarar o reino de Oyó cidade do patrimônio iorubá. Isso asseguraria proteção a sua riqueza arquitetônica e imaterial. Em decorrência, visando esse objetivo, na ocasião foram firmados três convênios pela UFBA com duas universidades, a Ajayu Crowther University of Oyó e a University of Lagos Akoka, e mais o palácio real de Oyó. Já em 2018, um encontro entre Fábio Velame e seu colega nigeriano Adejumo, na Universidade Harvard, faria andar mais um pouco as vias da pesquisa colaborativa entre Bahia e Nigéria.
No ano seguinte à missão de 2020, após o período mais dramático da pandemia e já acertados os detalhes da cooperação, foi iniciada a pesquisa de campo propriamente do patrimônio imaterial, não só em Lagos, mas também nas cidades de Oyó, Ibadan, Ileifé e Oxubô. Vilson Caetano, professor de Antropologia na Escola de Nutrição da UFBA, seria o coordenador da parte de alimentação e comida iorubá, e Velame, o coordenador da parte de patrimônio arquitetônico, que englobava palácios, templos, mercados e bairros étnicos.
“Foram muitos os elementos da cultura imaterial levantados sob esse guarda-chuva, nos cinco anos de idas e vindas entre a Nigéria e a Bahia, incluindo tecidos tradicionais, instrumentos musicais, atualização dos mitos dos orixás, sacralização do alafin, rituais de parto e nascença, sociedades secretas masculinas – egunguns — e femininas – geledé, yaladé, ebomi e alek”, conta Velame.
Disponibilizados daqui por diante, para instituições públicas dos dois países, os mil exemplares impressos com apoio de instrumentos como a lei Aldir Blanc, o livro não encerra a fecunda colaboração de pesquisa da UFBA com universidades africanas que comungam as origens do patrimônio cultural iorubá, bem longe disso. E nesse momento já estão sendo desenhadas novas parcerias com Angola e Benin.
“Devemos apoiar a restauração da Mesquita de Porto Novo, em Benin, por exemplo, muito famosa na África Ocidental por ser um templo islâmico cuja forma arquitetônica é a de uma igreja barroca baiana”, já anuncia Fábio Velame. Faz todo sentido mesmo a cooperação entre universidades da Bahia e da África Ocidental ser um programa mais permanente.