PARA QUEM JÁ GOSTA DE LER

Francisco Bicudo | 16 de setembro de 2016

Já falei de livros por aqui. Peço licença para voltar ao assunto, não só porque a alfabetização científica está diretamente ligada ao hábito da leitura, mas também porque a Câmara Brasileira do Livro e o Instituto Pró-Livro divulgaram recentemente a quarta edição da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, que fotografa com bastante nitidez as relações que os brasileiros estabelecemos (ou não) com as letras. Em linhas gerais, o levantamento sugere que há motivos para um “otimismo comedido”, como resumiu Zoara Failla, coordenadora da pesquisa. O número de leitores no Brasil, por exemplo, aumentou um tantinho, passando de 50% da população em 2011 para 56% em 2016 (106 milhões de pessoas). Se, em 2011, líamos em média quatro livros ao ano, sendo dois deles na íntegra e outros dois ‘em partes’ (apenas alguns capítulos ou trechos), passamos a ler, em 2016, 4,96 obras (2,43 na íntegra e 2,53 aos pedacinhos). A falta de tempo é apontada como o principal obstáculo (43% dos entrevistados) à prática da leitura; 7% dizem não ter paciência e outros 7% afirmam que o livro por aqui é muito caro.

Permita-me o leitor, no entanto, observar também o copo meio cheio, ser otimista e destacar outros resultados que, acredito, merecem ser efusivamente comemorados, com estouro de champanhe e salva de palmas, em salão de baile e com traje a rigor. Tudo bem, podemos esquecer o fraque e a cartola, foi exagero de empolgação. Bermuda, boné e camiseta caem melhor, até porque vamos falar de uma molecada boa de leitura. De acordo com a edição 2016 da pesquisa, o índice de leitura entre jovens de 18 a 24 anos saltou de 53% (sempre 2011) para 67%. O ganho é extraordinário, um voo de 14 pontos percentuais. Além disso, 40% das crianças de 5 a 10 anos afirmam que leem porque gostam (nada de obrigação). E 42% dos adolescentes de 11 a 13 anos também afirmam que buscam por gosto o aconchego dos livros, desmontando – ou minimizando – aquela ideia do ‘vou ler porque o professor mandou e vai cair na prova’.

Vamos colocar esses três blocos em sequência – crianças que se divertem com os livros, adolescentes que não leem por obrigação e jovens cada vez mais procurando e se deliciando com as letras impressas (ou digitais). É nesse tripé que reside, na minha modestíssima percepção de leigo, um terreno fértil que precisa ser cultivado com muito carinho. São leitores que pertencem às nossas categorias de base, promessas de craques e de gerações que poderão marcar golaços e conquistar títulos literários importantes num futuro não muito distante – desde que, insisto, não viremos as costas para eles. O escrete precisa sempre de carinho, já escreveu Nelson Rodrigues. Que se multipliquem as festas e feiras de livros, as rodas de leituras, as contações de histórias, as bibliotecas circulantes, os encontros com autores e autoras, as dicas de youtubers e booktubers, os clubes literários presenciais e virtuais, as sugestões de obras pelas redes sociais, as tardes de autógrafos, os amigos que emprestam livros para as amigas, as amigas que emprestam livros para os amigos, os lançamentos infantis e juvenis, as sagas de Harry Potter e as crônicas de Paula Pimenta, as mitologias de Percy Jackson e as caçadas de Pedrinho, os diários de bananas e as lendas de Ilan Brenman, que se misturem as culpas das estrelas e o como eu era antes de você com os marcelos/marmelos/martelos e os meninos maluquinhos, que o senhor dos anéis possa conversar com a série vagalume.

Oxalá ainda as editoras e as autoridades que trabalham com livros no Brasil estejam dispostas a rever suas políticas de preços, principalmente para as crianças e os jovens, numa demonstração de que estamos de fato no mesmo barco, juntos e firmemente dispostos a investir nessa tarefa hercúlea de formação de leitores. Nesse sentido, a Bienal de São Paulo, evento que é um grande barato, pisou feio na bola. O ingresso para a feira custava 25 reais, 12,50 a meia entrada. Apenas para participar da festa, uma família – pai, mãe e dois filhos – desembolsou 75 reais. O estacionamento custava 40 mangos (transporte público batia perto disso). Se resolvessem tomar um lanche – simples, nada de extravagâncias gastronômicas, um pastelzinho com suco, por exemplo – lá se iam pelo menos mais 50 reais. Total? 165 reais. Responda rápido – quanto dinheiro sobrava ainda para comprar livros?

Pensando cá com meus botões – adoraria ver os jovens porretas e engajados, que ocuparam as escolas no ano passado e são protagonistas dos protestos de rua a exigir a volta da democracia, tomando as avenidas e marchando com faixas e cartazes em que leríamos ‘Livros e eventos literários mais baratos já!’. Vem, vem, vem pra rua vem… pela leitura!



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