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IPBES aprova diretrizes para uso de cenários e modelagem em biodiversidade

Karina Toledo | Agência FAPESP | 21 de março de 2016

Além do relatório temático Polinização, polinizadores e produção de alimentos, um segundo documento intitulado Diagnóstico das Metodologias para Cenários e Modelagem em Biodiversidade foi aprovado durante a 4ª Plenária da Plataforma Intergovernamental sobre Biodiversidade e Serviços dos Ecossistemas (IPBES), realizada em Kuala Lumpur, Malásia, no fim de fevereiro.

As informações são da material publicada na Agência Fapesp, no dia 18 de março de 2016, com autoria da jornalistas Karina Toledo, leia a integra:

IPBES aprova diretrizes para uso de cenários e modelagem em biodiversidade

18 de março de 2016

Karina Toledo  |  Agência FAPESP – Além do relatório temáticoPolinização, polinizadores e produção de alimentos (leia mais em:agencia.fapesp.br/22748), um segundo documento foi aprovado durante a 4ª Plenária da Plataforma Intergovernamental sobre Biodiversidade e Serviços dos Ecossistemas (IPBES), realizada em Kuala Lumpur, Malásia, no fim de fevereiro.

Intitulado Diagnóstico das Metodologias para Cenários e Modelagem em Biodiversidade, a avaliação oferece para a comunidade de pesquisadores da IPBES diretrizes para o uso dessas ferramentas na elaboração de diagnósticos sobre o status da biodiversidade nas diversas regiões do globo e temas relacionados, entre eles os processos de degradação da terra e de restauração – previstos para serem divulgados até 2018.

“Este é um documento mais técnico, cujo público-alvo são cientistas. O objetivo é dar suporte para o desenvolvimento dos outros diagnósticos regionais, temáticos e global – estes sim voltados aos decisores políticos”, explicou o biólogo Jean Paul Metzger, professor do Departamento de Ecologia do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (USP) e autor de um dos capítulos do relatório.

Conforme explicou Metzger, a modelagem é uma ferramenta que permite representar de maneira simplificada o funcionamento de um sistema (pode ser um sistema climático, um bioma, o sistema de abastecimento de uma cidade, entre muitos outros). Já os cenários apontam para os futuros possíveis de um ou de vários componentes do sistema, de acordo com alternativas de mudança ou de manejo adotadas.

“Os modelos podem ser usados para ver a evolução de diferentes cenários. Nesse caso, os cenários representariam as condições iniciais, por exemplo, da adoção de uma política pública com diferentes alternativas de restauração da vegetação nativa. Num cenário, 100% da compensação poderia ser feita fora dos estados de origem ou, em outro cenário, toda a compensação deveria ocorrer dentro dos estados em que se deu a degradação de habitat. Cada cenário vai resultar em um futuro diferente, que pode ser projetado espacialmente em mapas por meio de modelagem. O objetivo é embasar a tomada de decisão em questões relacionadas à biodiversidade e serviços ecossistêmicos”, disse Metzger.

Em vez de estabelecer as condições iniciais do sistema, contou o pesquisador, os cenários também podem representar as metas que se deseja atingir em um determinado período.

“Se o objetivo for proteger 17% de todos os ecossistemas mundiais, por exemplo, existem diferentes caminhos a serem seguidos. Esses caminhos são cenários que podem ser modelados para ver quais as consequências de cada um deles. Claro que os modelos não são capazes de mostrar exatamente como será o futuro, mas possibilitam avaliar quais são as alternativas melhores e as piores. É um instrumento de decisão que permite usar o conhecimento existente mesmo que imperfeito”, explicou o professor da USP.

Na avaliação de Carlos Alfredo Joly, professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), co-chair do Painel Multidisciplinar de Especialistas (MEP, na sigla em inglês) da IPBES e um dos revisores do relatório, esse tipo de ferramenta permite que o processo de tomada de decisão em questões ligadas à biodiversidade saia de uma fase reativa para uma condição pró-ativa.

“A tomada de decisão sempre foi motivada por constatações sobre a perda da biodiversidade em uma determinada situação. Com essas ferramentas, podemos antecipar mudanças que vão acontecer e minimizar os impactos adversos dessas mudanças. Quando se tem a capacidade de fazer modelos e cenários, se consegue projetar o futuro e avaliar alternativas”, afirmou Joly, que também é membro da coordenação do Programa FAPESP de Pesquisas em Caracterização, Conservação, Restauração e Uso Sustentável da Biodiversidade (BIOTA).

Joly cita como exemplo o caso do Estado de São Paulo, que nos últimos séculos assistiu à destruição de sua cobertura vegetal nativa até um ponto em que foi afetada de maneira significativa a proteção de nascentes e águas superficiais, bem como a recarga dos aquíferos subterrâneos.

“Hoje, o estado faz um esforço para restaurar matas ciliares, áreas de proteção a nascentes e a cobertura vegetal nativa. Se tivéssemos, há 50 anos, uma ferramenta de cenários e modelagens, poderíamos ter previsto a chegada desse ponto crítico para o abastecimento de água. Como não tínhamos, seguimos ocupando novas áreas”, avaliou Joly.

Marco conceitual

O relatório Diagnóstico das Metodologias para Cenários e Modelagem em Biodiversidade foi produzido por uma equipe de 80 pesquisadores vinculados à IPBES com base em uma revisão da literatura científica existente sobre o tema.

“Nossa proposta era elencar os elementos mais importantes e fazer uma análise crítica e uma perspectiva sobre as potenciais formas de uso e sobre as lacunas a serem preenchidas no futuro”, contou Metzger.

O documento também tem como base o Marco Conceitual da IPBES (leia mais em: http://agencia.fapesp.br/ 20559), um modelo que busca traduzir as interações entre a humanidade e o mundo natural por meio de seis elementos: “natureza” (todo o mundo natural com ênfase na biodiversidade e ecossistemas), “benefícios da natureza às pessoas” (inclui valores espirituais, religiosos, culturais, comerciais), “ativos antropogênicos” (conhecimento, tecnologia, recursos financeiros, infraestrutura), “fatores indiretos de mudança” (como sistemas de governança e legislação), “fatores diretos de mudança” (alteração de habitat, mudança climática) e “boa qualidade de vida” (acesso a água, comida, saúde, educação, segurança, identidade cultural, prosperidade material, satisfação espiritual e liberdade de escolha).

“O relatório, em seus oito capítulos, buscou destrinchar cada um desses componentes, assim como suas relações. Há um capítulo, por exemplo, que trata de como os fatores diretos de mudança afetam a biodiversidade e os serviços ecossistêmicos. Outro que enfatiza os efeitos das mudanças da biodiversidade e dos serviços sobre os benefícios da natureza às pessoas. Também tem um capítulo com foco na capacitação de pessoas para uso de cenários e modelos entre outros temas”, contou Metzger.

Ainda durante a 4ª Plenária da IPBES, foi aprovado um sumário do documento direcionado aos formuladores de políticas públicas, que estará disponível em breve em www.ipbes.net/work-programme/scenarios-and-modelling.

“Não esperamos que o decisor político compreenda o que está neste sumário, mas acreditamos que, em sua equipe, existem pessoas com o treinamento necessário para compreender essas ferramentas e traduzir isso para a linguagem da política”, disse Joly.

Link para matéria original: http://agencia.fapesp.br/ipbes_aprova_diretrizes_para_uso_de_cenarios_e_modelagem_em_biodiversidade/22867/

 



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