Estudo inédito cataloga anfíbios dos Campos da Mata Atlântica

Pamela Gouveia | 06 de agosto de 2016
WikipediaVitreorana uranoscopa (conhecida como perereca-de-vidro)

Vitreorana uranoscopa (conhecida como perereca-de-vidro)

Bioma que abrange a costa leste, sudeste e sul do Brasil, a Mata Atlântica apresenta hoje as maiores taxas de declínios de populações de anfíbios, ou seja, todas as espécies de anfíbios ameaçadas estão nessas regiões, entre eles estão sapos, rãs selvagens e pererecas. Esse cenário motivou o biólogo Lucas Batista Crivellari a iniciar sua pesquisa de doutorado que envolve a catalogação das espécies que vivem nos Campos naturais da Mata Atlântica. Para isso ele avaliou as características da paisagem (cobertura vegetal e uso do solo) e dos habitats, onde os anfíbios se reproduzem, e identificou de que forma eles influenciam na diversidade das espécies.

Entre as espécies catalogadas, estão o Melanophryniscus vilavelhensis, popularmente conhecidos como sapos-de-barriga-vermelha-sulamericanos, além dos Pleurodema bibroniPhyllomedusa rústica e os Pseudis cardosoi, todos são exclusivos de áreas de campos naturais. Já em relação as espécies com perfil exclusivamente florestal Lucas destaca o registro dos  Ischnocnema henseliiVitreorana uranoscopa (popularmente conhecida como perereca-de-vidro),  Crossodactylus caramaschii e Scinax catharinae.

“O estudo representa a primeira tentativa de fornecer uma lista abrangente das espécies de anfíbios dos Campos da Mata Atlântica, no sul do Brasil e pode ser considerado o primeiro passo para desencadear um plano de conservação dos anfíbios nesta paisagem regional”, explica Lucas, que defendeu, no mês de junho, sua tese de doutorado em Biologia Animal, orientada por Denise Cerqueira Rossa Feres, na Universidade Estadual Paulista (Unesp), de São José do Rio Preto, no interior de São Paulo.

Em 2014, Denise coordenou uma pesquisa sobre a identificação de girinos de anuros em seis grandes formações vegetais, entre elas a Mata Atlântica, especificamente planícies costeiras do Estado de São Paulo. O objetivo da pesquisa era avançar no conhecimento da diversidade e naecologia de girinos, por meio da construção de uma base de dados aberta.

O projeto integrou o edital do Sistema Nacional de Pesquisa em Biodiversidade (Sisbiota) com financiamento conjunto entre o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e a CAPES e contou com 22 pesquisadores e mais de 30 alunos bolsistas em todos os níveis de formação.

63 espécies de 11 famílias

Entre 2013 e 2014 Lucas fez as amostragens utilizadas na pesquisa. Foram registradas 63 espécies de 11 famílias de anfíbios, das quais sete são endêmicas da floresta com araucária, ou seja, só são encontradas nessa formação vegetal. Vinte das espécies são associadas aos campos, 19 às áreas florestais de transição entre dois ecossistemas vizinhos e 21 espécies foram generalistas, ou seja, se adaptam a diferentes habitats, com alta taxa de dispersão.

“O registro de espécies que ocorrem exclusivamente em áreas de campos naturais e aquelas exclusivamente florestais, merece destaque por serem sensíveis e vulneráveis às alterações de seus habitats específicos”, reforça.

A pesquisa também avaliou como o uso do solo tem influência na riqueza das espécies, abundância de indivíduos e história evolutiva dos anfíbios. O trabalho também mostra que algumas características locais dos corpos d’água (acumulação de água) como tamanho, hidroperíodo (tempo em que a poça retém água) e vegetação também são responsáveis pelas ocorrências das espécies e dos padrões de distribuição da diversidade.

Impacto humano

Ao longo dos anos diversos estudos têm evidenciado que o impacto humano na paisagem e na estrutura dos habitats leva a altas taxas de extinções. A Mata Atlântica no Brasil tem sido o foco de muitos desses estudos, como os conduzidos pelo biólogo Célio Fernando Baptista Haddad, pesquisador na Unesp, em Rio Claro, interior de São Paulo, autor  do Guia dos Anfíbios da Mata Atlântica: Diversidade e Biologia”, lançado pela Anolis Books Editor em 2014, que  também está finalizando um estudo sobre espécies endêmicas e ameaçadas. Na pesquisa “Anfíbios do mosaico de áreas protegidas do Lagamar: diversidade, conservação e perspectivas”, ele busca ampliar o que se sabe hoje sobre as espécies de anfíbios do Lagamar paulista e paranaense, e com isso subsidiar pesquisas relacionadas a sua distribuição, diversificação e conservação.

Na pesquisa de Lucas, é estudada essa relação entre as alterações feitas pelos homens na paisagem e o impacto  nas espécies registradas, principalmente por serem sensíveis e vulneráveis às alterações de seus habitats específicos. Apesar de não ter registrado espécies que constam na Lista Nacional Oficial de Espécies da Fauna Ameaçadas  de Extinção (Ministério do Meio Ambiente,  as áreas estudadas por ele abrigam populações de várias consideradas em declínio pela União Internacional de Conservação da Natureza, IUCN (2016).

“Essas mudanças decorrentes da ocupação humana, são a principal ameaça aos anfíbios e pode promover o isolamento de muitas populações”, comenta Lucas. Além disso, explica, a intensificação destes impactos na paisagem regional pode promover a homogeneização e simplificação dos diferentes ambientes que compõem esta paisagem. Dentre esses impactos estão o cultivo agrícola, o reflorestamento,a  urbanização (desde desmatamento, estradas à pequenas vilas rurais e zonas urbanas) – todos associados associado à ocupação humana.

Para o pesquisador, apesar do grande avanço no número de pesquisas com anfíbios na região Sul brasileira, principalmente em regiões pouco amostradas, um grande número de lacunas geográficas e ecossistemas específicos ainda sofrem com a falta de dados e estudos.

“Até o presente momento, raras são as informações sobre os anfíbios que ocorrem neste local, sendo que a maior parte das informações disponíveis são provenientes de avaliações ecológicas rápidas”, diz.

A pesquisa foi financiada pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza. Também contou com apoio de pesquisadores da Universidade Federal de Goiás, Universidade Federal do Rio Grande do Sul e Universidade Federal do Paraná, além de suporte logístico do Instituto Neotropical de Pesquisa e Conservação e do Museu de História Natural do Capão da Imbuia, em Curitiba, Paraná.

Com informações da Assessoria de Comunicação da Unesp.



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