Engenheiro cria robô-cobra para trabalhos em espaços confinados

Pamela Gouveia | 15 de abril de 2016

Fazer a manutenção de máquinas em espaços onde mal cabe o corpo, correndo o risco de ser prensado, manipular materiais nucleares, desarmar bombas, fazer busca e resgate em escombros e combater incêndios são atividades com alto grau de periculosidade, desempenhadas por milhares, talvez milhões de trabalhadores no mundo inteiro.Robô-Cobra

Foi pensando justamente no risco que essas atividades oferecem à saúde a à vida dessas pessoas que  o engenheiro mecatrônico Lincoln Lepri, 34 anos, criou um robô com o tamanho de um braço humano e a flexibilidade de uma cobra, habilidade que valeu o nome de snake robot ou robô-cobra para o equipamento.

Desenvolvido com tecnologia nacional no Laboratório de Automação da Manufatura do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), em São José dos Campos, São Paulo, o protótipo tem 1,20 m de comprimento e consegue entrar em espaços reduzidos, às vezes inacessíveis até para as mãos humanas.

Lincoln concebeu o robô-cobra foi durante o mestrado profissional em Engenharia Aeronáutica no ITA. Com custo em torno de R$ 60 mil, levou cerca de dois anos para ser produzido, com financiamento do próprio instituto e da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep).

O robô é controlado por um software, através de uma espécie de joystick e pode girar em espiral formando uma circunferência perfeita. A ponta do robô pode ser adaptada para os mais diversos usos da indústria, podendo acoplar uma câmera, pinças, sensores de temperatura, ultrassom, lasers e outras ferramentas.

“A ideia surgiu quando eu trabalhava na Embraer (a grande empresa brasileira fabricante de aviões) e observava a dificuldade na execução de trabalhos em espaços confinados”, conta Lincoln. Inicialmente a intenção era criar uma tecnologia inovadora para atender às demandas do setor aeronáutico, mas com o avanço do projeto, o robô foi adaptado a outros mercados, incluindo o automotivo.

“O snake é totalmente flexível e pode ser adaptado para resistir a altas temperaturas e ajudar a evitar os riscos que esse tipo de espaços oferece ao trabalhador ”,  enfatiza. O objetivo do robô-cobra é realizar trabalhos em espaços onde o acesso humano é impossível ou em locais com alto de grau de risco de acidentes, como usina nuclear, tanques reservatórios, manufatura aeronáutica e extinção de focos de incêndio.

“A área de manutenção e reparos, por exemplo, foco de trabalho do snake, é uma das quatro áreas que mais causam morte nos Estados Unidos”, destaca Lincoln. Estudos dos Serviços de Avaliação de Saúde e Segurança Ocupacional (OSHA, sigla em inglês) estimam mais de 67 mortes por ano, nos Estados Unidos, nesse tipo de serviço. Além das perdas humanas, o prejuízo econômico chega a US$1 milhão por acidente ocorrido.

No Brasil, segundo o último Anuário Estatístico da Previdência Social, apenas em 2011, foram registrados mais de 700 mil acidentes do trabalho. Desse total, 313.131 (44,0%) ocorreram na indústria. O país gasta cerca de R$ 70 bilhões com esse tipo de acidente anualmente e os mais frequentes são os que causam fraturas, luxações, amputações e outros ferimentos.

“O conceito do snake é destinado a zerar essas fatalidades e resultar em um trabalho mais preciso. Em vez do trabalhador ter contato direto com materiais ou locais perigosos, ele será capacitado para controlar um robô à distância, que executará a tarefa”, explica Lincoln.


Empreendedorismo

Nascido em Tambaú, interior de São Paulo, Lincoln é formado em Engenharia Mecatrônica na Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (Poli-USP). Ainda na graduação ganhou uma bolsa para estudar robótica na Politecnica di Milano, na Itália. De volta ao Brasil com diploma duplo, Lincoln trabalhou no projeto do maior avião fabricado no país (o KC-390), na Embraer.

“Meu sonho era trabalhar com tecnologia de ponta e sempre tive muita vontade de  inovar e empreender”, conta. A ideia do engenheiro era abrir uma empresa para colocar o robô-cobra no mercado, foi então que criou a startup Intelectron.

Em 2015 ele participou da InovAtiva Brasil — programa gratuito de aceleração em larga escala para negócios inovadores, realizado pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC), e foi um dos finalistas. A classificação rendeu à Intelectron a participação em uma missão técnica de internacionalização, em Londres.

Atualmente Lincoln está em busca de um parceiro para testar o snake na indústria e em negociação com empresas brasileiras e estrangeiras, dentre elas a sueca Saab, com atuação no setor de defesa.

 



Deixe uma resposta