O surto populista de um candidato de direita no Brasil que ameaça virar a política do país de cabeça para baixo poderia ter enormes impactos nos orçamentos de pesquisa e políticas ambientais, alerta reportagem publicada na revista norte-americana Nature, ainda antes do primeiro turno. O controverso oficial militar da reserva Jair Bolsonaro, frequentemente chamado de “Trump Tropical”, delineou planos que enfraqueceriam proteções ambientais e eliminariam o Ministério da Ciência e Tecnologia.

Anos de aflições econômicas e escândalso de corrupção serviram de pano de fundo para esta eleição. O orçamento federal para ciência diminuiu consideravelmente por quase uma década, e políticos pró-industria estão aos poucos enfraquecendo as regulações ambientais. Contudo, os dois candidatos na disputa ofereceram visões muito distintas para abordar essas questões, deixando os cientistas inquietos.

Bolsonaro, deputado federal pelo Rio de Janeiro, costuma votar com a bancada ruralista, que busca ativamente enfraquecer regulações ambientais. Ele propôs retirar o Brasil do acordo climático de Paris e eliminar os ministérios da ciência e tecnologia e do meio ambiente, reorganizando-os sob o ministério da agricultura, pecuária e abastecimento. Na Amazônia, busca promover a expansão industrial e agrícola às custas das proteções ambientais e direitos das comiunidades indígenas. A mensagem para a indústria e a agricultura parece ser de que poderão fazer o que quiserem na Amazônia, disse à Nature Carlos Rittl, secretário executivo do Observatório Climático, uma rede de 37 grupos focados em política climática em São Paulo..

Seu concorrente Fernando Haddad – prossegue a revista – tem uma visão mais mainstream do Brasil, que enfatiza ciência, inovação e ação em políticas climáticas ambientais. Ele promete promover energias renováveis, combater o desflorestamento e manter proteções a territórios indígenas na Amazônia. Diferentemente de Bolsonaro, Haddad se comprometeu a aumentar o gasto federal com ciência. Ele propôs elevar o investimento nacional em pesquisa e desenvolvimento para 2% do PIB, combinando fundos públicos e privados, o que alinharia a ciência local à de muitos países industrializados. Não é claro se essas metas são factíveis. Uma das dificuldades é que, em 2016, o Brasil aprovou uma emenda constitucional que impede o aumento de gastos públicos por 20 anos, exceto por correções de acordo com a inflação. O físico Luiz Davidovich, presidente da Academia Brasileira de Ciências, observa na reportagem que o orçamento do ministério diminuiu em dois terços e diz que quaisquer políticas que reconheçam e invistam em ciência seriam bem vindas. Isso significa menos dinheiro para equipamentos, bolsas, viagens, parcerias e colaborações internacionais.

Apesar da falta de apoio público e de recursos, cientistas estão pressionando onde conseguem, segundo Davidovich. “Fazer ciência no Brasil agora é um ato de resistência, e é o que estamos fazendo”, diz. A despeito do que esteja sendo dito nas campanhas, ainda é cedo para dizer o que poderia acontecer depois da eleição. “O fato de terem ciência e tecnologia nos programas de governo não quer dizer que isso vá ser importante quando virarem presidente. Há uma grande diferença entre o que é escrito e o que é praticado”, completa.