DESFILE DE COBRAS E LAGARTOS

Francisco Bicudo | 15 de fevereiro de 2016

Já estava juramentado e sacramentado com Daniel, 9 anos, o caçula que diz ter vontade de ser cientista quando crescer, que o passeio faria parte da agenda de folia carnavalesca. Mais difícil foi convencer a primogênita Luiza, 13 anos, legítima integrante da ala dos adolescentes que, por princípio e dever de ofício, contestam tudo aquilo que é sugerido pelos pais. Precisaram entrar em cena a habilidade e a experiência dos diretores de harmonia, a reforçar que havia no programa fantasias, alegorias e adereços capazes de agradar plateia e jurados das mais diferentes idades. Superada a etapa dos ensaios técnicos (ligar par confirmar se estaria aberto mesmo e até que horas funcionaria, descobrir o preço do ingresso…), o Grêmio Recreativo Escola de Samba Unidos de Cobras e Lagartos desfilou lindamente pelo sambódromo do Instituto Butantan, na tarde de terça-feira que encerrou os festejos de Momo.

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Luiza e Daniel conheciam o enredo, já tinham visitado, quando menores e algumas vezes, a casa que abriga uma das mais importantes coleções de serpentes (exposição permanente e com espécies vivas) do mundo. A atração, no entanto, é diversão garantida. Há sempre o que descobrir por lá, possibilidade de novos olhares e releituras carnavalescas. Começamos a apresentação pelos serpentários externos, os grandes tanques localizados nos jardins do Instituto. Foi literalmente um esquenta da escola, já que a temperatura batia na casa dos quarenta graus e o vento, apesar das muitas árvores por perto, não tinha comprado ingresso para o desfile. Um calor pesado, grudento e sufocante castigava os foliões. As cobras, malandras e espertas desde os primórdios do mundo, tinham buscado justa proteção e estavam todas enroladas e enclausuradas nas casinhas de barro que lembram iglus. Não houve samba-enredo cantado a plenos pulmões pelas arquibancadas ou paradinha de bateria que as fizesse sair dos abrigos. Pareciam dizer “saiam para lá, deixem a preguiça chegar, já bateu ressaca, é quase quarta de Cinzas, nada de bloco do acorda”. Decidimos respeitá-las.

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Com as entradas em mãos, acessamos então o setor mais animado da avenida, o Museu Biológico; em ambientes mais frescos, que procuram reproduzir seus habitats naturais, as cobras nos aguardavam, com lindíssimas, coloridas e diferentes fantasias, muitas como destaques de bem cuidados e caprichados carros alegóricos. No abre-alas, a toda poderosa sucuri. ‘Mano, olha o tamanho dessa preuga’, espantou-se Luiza. Hipnotizados pela exuberância do animal, ela e Daniel não perderam tempo e começaram a brincar de Harry Potter. Mirando fixamente a serpente, pronunciavam palavras desconexas e sibiladas, cheias de ‘sssssss’, como faz o bruxo mais famoso de Hogwarts, que tem o dom de falar a língua das cobras. Apesar da insistência – e das gargalhadas de quem passava por perto -, não deu muito certo. A sucuri permanecia preguiçosamente imóvel.

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O museu estava cheio, mas a evolução da escola não foi prejudicada. A fila andava bem, as alas conseguiam deslocar-se com harmonia e desenvoltura. Talvez os jurados esqueçam de dar nota para esse quesito, mas aí são outros quinhentos. Num tanque atrás da gente, provavelmente embalados pelos surdos e tamborins, um jabuti e uma iguana resolveram apostar maluca corrida. Saíram num pinote. Quem cruzou primeiro a linha imaginária de chegada foi o cascudão. Luiza empolgou-se. ‘Mano, não é que ele corre mesmo?’. ‘Ué, já ganhou até da lebre’, completou o irmão. Nas diversas alas-tanques visitadas e observadas, o desafio era dizer – e apontar – onde estavam as cobras, escondidas pela vegetação e muitas vezes sorrateiramente paradinhas em troncos e galhos de árvores, deixando-se confundir com eles. Aplausos para a carnavalesca natureza, que graças a uma outra evolução (a das espécies, não a das escolas de samba), deu a esses bichos a artimanha da adaptação ao meio, habilidosamente usada como estratégia de sobrevivência.

 

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Durante o desfile, pudemos ver como destaques a píton da Índia, a jiboia, a coral falsa, a coral verdadeira… a cascavel, com quem Luiza resolveu dialogar em bom Português mesmo, era a rainha da bateria, chocalho sempre a postos na ponta da cauda. ‘Miga, querida, veja bem, só estamos olhando, não precisa ficar nervosinha’. Uma passista imprudente e que achou por bem desrespeitar as regras do desfile bateu com o dedo no vidro do tanque. Outra vez. Na terceira batida, ainda mais forte, a cascavel deu o bote. Nada tranquilo, nada favorável. A passista assustada foi sambar em outras freguesias. Daniel divertia-se procurando nos mapas as áreas de ocorrência de cada uma das migas cobras. ‘Essa é do Pantanal. Amazônia. Essa tem em São Paulo. Olha, pai, essa aqui vive também no Uruguai’, comemorou, quando encontrou a parelheira, digna representante das serpentes do país vizinho, que acabamos de visitar, em viagem de férias. Dani e Lui arriscavam também dizer quais eram as espécies venenosas, atentos ao formato da cabeça, às escamas e às pupilas. ‘Vixi, aquela mostrou a língua para você’, ele fez troça com a irmã. ‘É recalcada. Beijinho no ombro para ela’, respondeu Luiza.

Claro, lá estava a jararaca também, gliter nas escamas, enfeitada com plumas e paetês, bela e formosa, outro destaque da escola. Lembrei imediatamente de reportagem que fiz recentemente para a revista Pesquisa Fapesp a respeito de trabalhos científicos que revelam que plantas medicinais podem ajudar a reduzir lesões locais provocadas pela picada da jararaca, bichana perigosíssima, responsável por 80% dos acidentes registrados com cobras no Brasil (são cerca de 30 mil casos anuais, considerando todas as espécies). Já sem nem se dar conta da manha e do mimimi que tinha feito para participar do desfile, Luiza chegou arrepiada à ala das caranguejeiras. ‘Precisavam ser aranhas? Como diria o Rony Weasley, grande amigo do Harry Potter, não podiam ser borboletas?’. Quando deu de cara com o sapão cururu, anunciou que iria beijá-lo, para tentar transformá-lo num príncipe. ‘Sei lá… vai que você vira sapa…’, provoquei. ‘Pai, não gostei da sua hipótese’, fulminou a adolescente.

Ao final da primeira parte do desfile, esbarramos num impasse folião – vamos até o Museu de Microbiologia?. ‘Claro!’, berrou Daniel. ‘Ah, não, é chato. Tudo minúsculo e quase invisível. Eu sou das Humanas’, rebateu Luiza, exercendo novamente o direito de quem tem 13 anos de contestar qualquer sugestão paterna. Em rápidas negociações, até para que a escola, que vinha muito bem até ali, não perdesse o ritmo do desfile e pontos preciosos na apuração final, a mocinha acabou generosamente cedendo, reconhecendo, solidária, que a ala dos minúsculos era também importante para o carnaval do irmão. Deu gosto ver Daniel esbaldando-se com os microscópios e jogos interativos, Trypanosoma cruzi e Aedes aegypti (atenção, por lá o mosquito é ainda apenas citado como agente transmissor dos vírus da dengue e da febre amarela… cadê o zika?).

Ao final do desfile, escola já em delírio na dispersão da apoteose, depois de ter levantado as arquibancadas, o jurado mirim escreveu no livro de visitações. ‘Gostei de tudo. Quero voltar. Não tenho críticas. Daniel Pereira’.



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