A doença de Chagas, conhecida também pela complicadíssima expressão tripanossomíase americana, continua sendo um desafio para a ciência e a gestão da saúde. Mesmo bastante conhecida a essa altura por pesquisadores e agentes de saúde, e apesar de ter prevenção e tratamento, ela continua fazendo vítimas, porque é crônica e potencialmente fatal para as pessoas. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), em 2016 foram estimados 8 milhões de casos em todo o mundo, a maioria na América Latina, com 10 mil mortes anuais. Os dados de 2017 ainda não foram divulgados. No Brasil, foram registrados 1.570 casos entre 2000 e 2013.

A prevenção ainda é o melhor caminho para reduzir os riscos da doença provocada pelo protozoário Tripanosoma cruzi e transmitido principalmente pelas fezes de insetos sugadores de sangue, os famosos barbeiros, infectados com o parasita.

Fiocruz-Minas

A primeira página do aplicativo

Foi pensando nisso e entendendo que envolver a população e agentes de saúde pode surtir efeito, que os grupos Triatomineo e de Bioinformática, dos quais a bióloga Luciana Oliveira fez parte, desenvolveram um aplicativo que oferece informações para a identificação dos barbeiros e informa às autoridades onde o inseto foi encontrado.

“O trabalho teve início a partir da demanda do Centro de Pesquisas René Rachou (CPqRR), Fiocruz Minas, para inovar o treinamento e o trabalho dos técnicos em saúde pública envolvidos na identificação e notificação dos vetores da doença de Chagas”, explica Luciana, doutora em Bioinformática pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Era então o ano de 2015 e Luciana já fazia parte do grupo Informática de Biossistemas e Genômica e do grupo Triatomíneos da Fiocruz-Minas.

“Naquele momento, desenvolvemos um piloto, que era uma página de web e um protótipo de um aplicativo para dispositivos móveis (smartphones e tablets), contendo as imagens digitalizadas da coleção de triatomínios do CPqRR e uma breve descrição sobre cada um”. O desafio do grupo de bioinformática foi estabelecer relações entre os dados reais e virtuais, usando uma técnica de identificação via computador.

A ideia era treinar agentes de saúde para usar o app durante as visitas às comunidades. Caso encontrassem um inseto parecido com um barbeiro, poderiam recorrer aos dados e fotos contidos no aplicativo e ter certeza de que se tratava de um potencial transmissor da doença de Chagas. O local e a época do ano em que o inseto foi achado e identificado também era informado às autoridades e, assim, o controle da presença do barbeiro podia se pautar em dados concretos.

Batizado de Triatokey, o app vinha sendo usado e testado desde 2015. Agora, o dispositivo foi atualizado e ganhou novas funcionalidades. “Nesta segunda fase do projeto, a base de dados biológica foi integrada e reestruturada e as imagens dos insetos foram digitalizados em alta definição, permitindo a ampliação da imagem sem a perda de qualidade. Esta etapa permitiu a documentação virtual da coleção e a proteção dos exemplares contra a degradação pelo manuseio contínuo”, explica Luciana Oliveira.

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Novas imagens digitalizadas: maior precisão nas características

Agora, a grande novidade é que, nesse novo formato, o Triatokey, pode ser usado pela população de um determinado lugar. Homens e mulheres sem formação específica e sem necessidade de treinamento, podem acessar e identificar os insetos e saber se trata-se de um barbeiro ou não. “Esta compreensão é extremamente importante, pois em muitos casos insetos como o percevejo verde, popularmente conhecido como maria fedida (Nezara viridula), acabam causando pânico pois levam a fama de barbeiro”, explica.

Com as fotos e as informações do app, o usuário descobre se o inseto é um potencial transmissor de doenças de Chagas e, se for, pode notificar a Fiocruz-Minas sobre a captura do barbeiro. “Foi habilitada, inclusive, uma opção que permite fotografar o inseto e enviar as imagens para a base de dados da curadoria da coleção da Fiocruz-Minas para a identificação do inseto. Junto com a foto, o usuário também pode enviar as coordenadas geográficas do local da captura”, ensina.

O Tryatokey não precisa estar online para funcionar, apenas para enviar os dados, o que facilita a operação e a penetração do aplicativo em lugares distantes e desprovido de rede de internet fácil. Com essas informações despachadas em tempo real, as autoridades podem adotar medidas de prevenção e controle da doença de Chagas.

O aplicativo está disponível para Adroid OS, versões em português e inglês e o download gratuito pode ser feito na Googleplay. A página de web é esta aqui e para obter informações completas sobre o trabalho acesse o link do artigo no Database.

Este é um vídeo que a Universidade Federal de Minas Gerais fez com a pesquisadora Luciana Oliveira: