Alexander Birbrair, 29 anos, cumpre um percurso inspirador da Universidade de Santa Cruz, em Ilhéus, Bahia, à capa da Science

Mariluce Moura | 12 de janeiro de 2016

Alexander Birbrair considera um sonho para qualquer cientista “ter um trabalho mencionado ou publicado na Science”, revista da Associação Americana para o Progresso da Ciência. Afinal, em seu olhar e no de grande número de colegas, trata-se “da mais prestigiosa revista de ciência do mundo”. Há quem discorde: para alguns, mais importante seria a britânica Nature. E, sonho por sonho, protestam essas vozes do contra, não há o que se compare ao quase inatingível Nobel, o grande galardão do campo científico.

Mas venham de irônicos ou céticos, opiniões em tom blasé nem de longe vão turvar a alegria genuína desse jovem nascido em Israel, brasileiro naturalizado e nordestino apaixonado desde que, chegado de Israel com os pais matemáticos, alo pelos 7 anos de idade, começou a viver em Fortaleza, Ceará. Alegria mais que justificada: afinal ele é um dos autores do artigo “O nicho das células-tronco hematopoéticas no fígado fetal está associado aos vasos portais”, que não apenas foi publicado na Science de 8 de janeiro, mas é objeto de sua capa.

Ao Ceará, Alexander Birbrair somaria em seu caminho de nordestinidade a Bahia, para onde foi em 2005 fazer graduação em biomedicina na Universidade Estadual de Santa Cruz (UESSC), em Ilhéus. Ali, ele garante, tornou-se definitivamente baiano.
Mas excelente aluno na UESC, já em 2009 ele alçaria voo das terras grapiúnas para sua conquista definitiva do mundo. Depois de um rápido estágio na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) no final da graduação baiana, ele seguiria para doutorado em Neurociência pela Wake Forest University, na Carolina do Norte, Estados Unidos e em 2014 viria o convite de Paul Frenette para um pós-doc no Albert Einstein College of Medicine, em Nova York. É lá que ele atualmente faz pesquisas com células-tronco. Foi de lá que saiu o artigo para a capa da Science, cujo primeiro autor é Jalal A. Khan, o autor correspondente é Paul Frenette, e Birbrair é o único brasileiro entre os outros 11 autores.

Na entrevista que se segue, longa para padrões de um veículo jornalístico eletrônico, mas imperdível, ele conta com simplicidade sua trajetória pessoal e científica. Fala da linda filha Tamar Ahava, que há menos de 3 meses ele e Veranika, uma bielorussa que adora o Brasil, segundo o marido, tiveram. Aliás, Alexander está certo de que seu futuro científico está no Brasil. Tomara!

Science: no figado fetal, esperança de expansão de celulas usadas em transplantes de medula

Science: no figado fetal, esperança de expansão de celulas usadas em transplantes de medula

 

Como você foi parar nos Estados Unidos?

A minha carreira começou na Bahia, eu fiz graduação em biomedicina de 2005 a 2009 na Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC), em Ilhéus. No começo de 2009 me formei, e logo fui convidado por alguns professores que me conheciam de congressos científicos para a Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), onde fiz um estágio breve em farmacologia. E logo, em um congresso, conheci um professor dos Estados Unidos que era da área em que eu estava atuando e ele gostou muito do meu trabalho. Numa conversa que tivemos eu lhe disse que queria trabalhar com células-tronco e com regeneração tecidual e ele me convidou a fazer doutorado nos Estados Unidos com ele. Eu decidi ir, e isso foi um desafio grande para mim.

Por quê?

Porque eu sempre fui bem infiltrado na ciência, sempre adorei fazer experimentos e ter novas ideias, mas meu inglês era precário, eu realmente não sabia falar inglês e, mesmo estando no Brasil o tempo todo, quem faz ciência normalmente fala inglês. Eu, filho de pais estrangeiros, sabia falar outras línguas, mas não inglês.

Você nasceu onde?

A minha história é complicada: eu sou brasileiro naturalizado. Fui criado a vida toda, antes de fazer graduação, em Fortaleza, Ceará. Mas eu me considero em grande parte baiano, porque me adaptei muito bem lá.

Como se dá esse seu trânsito do Ceará para a Bahia?

Na época do vestibular, eu sabia que queria ser cientista e pesquisador, e queria descobrir algum tipo de tratamento na área médica, especialmente porque tive um amigo que sofreu um acidente e ficou hemitetraplégico, sem movimento na metade do corpo. Somos grandes amigos, ele sempre me incentiva, mas enfim, houve algumas ocasiões na vida em que, em contato com doenças, me sentia mal e queria achar alguma solução para isso. Então sempre pensava em fazer medicina, não para curar, mas para inventar curas que ainda não existiam.

Seus pais são de onde?

São de Israel, são professores de matemática, ele, Lev Bribrair, da Universidade Federal do Ceará (UFC) e ela, Marina Sobolevsky, da Universidade Estadual do Ceará (UECE), então o ambiente acadêmico em sempre tive em casa. Mas como disse, a parte de medicina que eu não era apaixonado era exatamente ser médico prático. Mas prestei vestibular para Medicina na UFC e passei na primeira fase. Mas ao mesmo tempo apliquei para outras universidades, inclusive em Ilhéus, a partir da conversa com um amigo meu. Só que meus pais, quando estavam fazendo minha inscrição em Ilhéus, viram que tinha um curso de biomedicina que me daria a chance de fazer exatamente o que eu sonhava, pesquisa em medicina. Além disso, no vestibular de medicina em Ilhéus, a prova de inglês era obrigatória, não poderia ser outra língua. Assim, acabei meio casualmente em Ilhéus. E tive muita sorte porque encontrei um grupo muito bom, professores ótimos, com vida laboratorial e dando palestras o tempo todo. Tive dois orientadores muito queridos na iniciação científica, Raquel Passos Rezende e João Carlos Teixeira Dias, que continuam professores na UESC. E vários dos meus colegas se destacaram bastante, muitos estão em centros de pesquisa bem conceituados, um deles em Nova York, outro no Canadá, e a maior parte deles hoje está na USP, tanto em São Paulo quanto em Ribeirão Preto.

Por que razões seus pais decidiram mudar para o Brasil?

Eles decidiram mudar quando terminaram o doutorado em Israel, tempo em que se tenta buscar uma experiência adicional antes de virar professor. No começo foram para o Canadá, e depois para o Rio de Janeiro, por causa do Impa, o Instituto de Matemática Pura e Aplicada. Tiveram um período em que deram aulas lá, e assim se apaixonaram pelo Brasil. Minha família é de judeus, a ligação familiar na cultura judaica é muito forte, e meus pais viram que a cultura brasileira nesse sentido era muito semelhante, inclusive no tanto que as pessoas se pegam, no respeito pelos mais velhos, na forma como as amizades se transformam em relações familiares, tudo isso.

Em que ano isso aconteceu?

Em 1994, eu tinha seis ou sete anos. Fui mesmo criado no Brasil. Meus pais terminaram encontrando vagas de professor no Ceará e se estruturaram lá, fizeram amigos brasileiros etc. e continuam lá. Tenho uma irmã três anos mais nova, que já tem dois filhos, é enfermeira, e se divide hoje entre o Brasil e Israel.

 

Alexander, Veranika e Tamar Ahava, álbum de familia em Nova York.

Alexander, Veranika e Tamar Ahava, álbum de familia em Nova York.

 

Vamos voltar a seu desenvolvimento como cientista.

Eu tive na graduação um grupo muito bom de pesquisa em microbiologia e genética, e ganhei um prêmio na UESC pelo melhor trabalho na iniciação científica, no qual estudávamos avanços na diversidade genética de um certo tipo de bactéria chamada Chromobacterium violaceum. Ela é ambiental, não é uma bactéria que usualmente causa infecção, mas em Ilhéus, na época, tinham sido registrados alguns casos de falecimento provocados por ela. Então, com a ajuda dos professores e com o grupo – em ciência tudo se faz em grupo — conseguimos esses isolados e comparamos geneticamente. E num congresso de farmacologia, quando eu estava apresentando esse trabalho, alguém comentou “muito bem, você caracterizou muito bem, essas bactérias são diferentes, parece que houve uma mutação que tornou patogênica a bactéria que era ambiental, mas seria interessante que você estudasse todo o mecanismo, o que acontece quando essa bactéria infecta o organismo humano”. E para buscar modelo de animais experimentais nos quais pudesse analisar melhor a farmacologia, a sinalização celular que acontece quando essa bactéria infecta a célula humana etc., área em que a UESC não era forte, acabei parando na Unifesp, na Escola Paulista de Medicina, usando os ratinhos experimentais de lá. Acabei fazendo um vínculo entre a UESC e a Unifesp.

E quem foi seu orientador na Unifesp?

Trabalhei num laboratório muito grande da ex-reitora da Unifesp e atual presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), Helena Nader. Foi um período bem breve, e lá eu estudei o efeito da violaceína, proteína produzida pela C. violaceum, para tentar suprir leucemia, que é um câncer do sangue. Foi um projeto pequeno, no estágio de meu último ano na biomedicina, no final de 2008, começo de 2009.

E depois disso?

Eu sempre gostei de aprender algo novo nos congressos, nas palestras, além de sempre ter gostado de ler muito. Bem, depois que meu amigo ficou hemitetraplégico e os médicos diziam para ele que a única possível cura seria a regeneração do tecido nervoso, naquele momento em que as células-tronco começaram a ser muito discutidas, eu tinha enorme admiração pelo trabalho de Mayana Zatz. Ela era para mim um exemplo a ser seguido (aliás, há dois anos fui no laboratório dela fazer uma palestra). Bom, mas um dia num congresso eu estava conversando com um professor argentino que há muito tempo trabalha nos Estados Unidos e tem um grande laboratório na Carolina do Norte, Osvaldo Delbono. Falava com muita tranquilidade, fácil, porque sou fluente em espanhol, sem os problemas da conversa em inglês, e ele me convidou para fazer o doutorado.

Você então foi fazer seu doutorado na Carolina do Norte?

Sim, na Wake Forest, uma universidade muito forte na área de pesquisa médica, que fica na cidadezinha universitária de Winston-Salem. Chegando nos Estados Unidos, eu passei meio ano só falando e estudando intensivamente inglês e fiquei feliz porque, surpreendentemente para mim, ao fim desse tempo eu estava falando bem inglês. Fiz as provas e acabei passando no doutorado em neurociência, foi até em primeiro lugar…

E qual foi a sua pesquisa para o doutorado?

Eu comecei a trabalhar em maio de 2009 e fiquei na Wake Forest até agosto de 2014. Comecei a estudar um tipo de célula que se chama pericito, que estão ao redor dos vasos sanguíneos, em contato com as células endoteliais. E descobrimos que no músculo esquelético esses pericitos podem funcionar como células-tronco, quer dizer, células capazes de formar vários outros tecidos diversos, outras células. E descobrimos também que no músculo-esquelético tem vários tipos de pericitos, e os denominamos, os chamamos de pericitos do tipo 1 e do tipo 2.. Mas, então: descobrimos que o tipo 1 de pericito só formava tecido indesejável — gordura e tecido fibroso –, enquanto o tipo 2 formava tecidos benéficos — músculos, vasos e também células neurais.

Isso resultou em vários artigos?

Sim, vários artigos decorrentes dessa pesquisa foram publicados nas revistas mais conceituadas da área de recuperação tecidual e células-tronco, todas Quali A pela classificação da Capes no Brasil. Por exemplo, Pericytes at the intersection betwwen tissue regeneration and pathology, na Clinical Science.

Você se refere à gordura como um tecido indesejável, mas nem sempre ela o é.

Claro, a gordura que se forma no organismo em estado normal tem uma função de reserva de nutrientes. Mas no músculo-esquelético, especialmente na distrofia muscular, que a Mayana também estuda tanto, o que acontece é que o músculo tem uma deficiência de regeneração muscular, ela está debilitada, e as fibras musculares não são formadas como devido. Então o espaço vazio é ocupado principalmente por adipócitos, as células de gordura, e nós mostramos, pelo menos parcialmente, alguns desses adipócitos que vêm desse subtipo de pericito. Mas por que foi importante separar pericitos e descobrir que tem um tipo que forma alguns tecidos que necessitamos em certas condições e outro tipo que em algumas condições específicas de patologia nós não necessitamos? Isso foi legal porque agora o objetivo do laboratório é tentar achar como é que faz para parar os pericitos que não são bons. Nós sabemos agora quais são os pericitos que devem ser ativados para formar músculos ou para formar vasos.

Quando você diz “nós sabemos” está falando inclusive de uma caracterização molecular que já têm desses pericitos?

Sim, molecularmente nós descobrimos que os pericitos do tipo 2 têm uma proteína chamada nestin, e a expressam, enquanto os do tipo 1 não a expressam. Ambos expressam igualmente diversos marcadores de pericitos e está na nestin sua principal diferença. Portanto, temos uma maneira de separá-los. Para chegar a isso fizemos várias provas experimentais em camundongos e em placas de petri, ou seja, in vivo e in vitro, e conseguimos caracterizar muito bem a função dessas células e sua capacidade de formar tecidos. Está agora no objetivo do laboratório comandado pelo professor Delbono ativar os pericitos que formam tecidos bons e parar os que formam os tecidos indesejáveis.

Isso significa que se abriu uma estrada para lidar com novos tratamentos de doenças graves que afetam a mobilidade?

Se falarmos, por exemplo, num caso como o do meu amigo que teve uma lesão da medula espinhal, Rodrigo Bardon, o que acontece é que há morte de células neurais quando isso ocorre, e poucos dias depois já se forma no lugar da lesão uma cicatriz enorme formada principalmente por fibroblastos, que são células que produzem colágeno, o principal componente da cicatriz. E ela não deixa os neurônios penetrarem e fazerem de novo fazer a conexão entre o cérebro e os membros do paciente. Recentemente fizemos um trabalho mostrando que o pericito do tipo 1 é responsável parcialmente pela formação dessa cicatriz na medula espinhal. Então, no caso de pacientes desse tipo, é essencial tentar bloquear a formação dessa cicatriz para tentar promover a regeneração dos neurônios.

Valendo-se de algum modo do tipo 2 dos pericitos?

Não, porque no caso da medula espinhal não estamos falando de músculos e vasos, estamos falando de nervos, dos axônios dos neurônios motores. Os pericitos do tipo 2 também estão presentes na medula espinhal, mas não sabemos se eles podem formar neurônios novos nessas condições. Um ponto que eu gostaria de destacar é que nós nem sabemos ainda como inibir a formação dessa fibrose, sabemos das células que participam do processo de sua formação. Mas provavelmente se livrarmos o paciente dessa fibrose, um outro tipo de célula-tronco hipoteticamente poderia ser usado para a regeneração do tecido nervoso.

A capa da Science recupera esse trabalho dos anos da Carolina do Norte ou você traz algum achado inteiramente novo já de Nova York?

Em 2014 fui a um congresso internacional de células-tronco, apresentei todos os nossos dados e durante o evento tive a oportunidade de conhecer um cientista renomado da área de células-tronco hematopoiéticas, ou seja, do sangue, Paul Frenette. Ele trabalha no Hospital Albert Einstein e me convidou para eu fazer pós-doc com ele, para fazer parte de seu grupo. Em agosto de 2014 eu terminei o doutorado, casei, e fui para Nova York…

Você é rápido, hein?!!! Mas ainda não tem filhos…

Tenho uma filha linda de quase 3 meses, Tamar Ahava. Eu estudava principalmente as células-tronco do músculo esquelético. Quando vim para Nova York a proposta era estudar as células-tronco do sangue e também o microambiente nas quais elas se localizam e estão. Porque elas podem se diferenciar, ou seja, podem formar células mais maduras, que têm determinada função, ou podem simplesmente se replicar, ou seja, se multiplicar e manter o pool, a reserva das células-tronco hematopoiéticas do sistema hematopoiético. Esse microambiente da medula óssea, já foi demonstrado há alguns anos, é muito importante, e um dos constituintes muito importante desse microambiente são os pericilos. Depois de nosso trabalho no músculo esquelético mostrando os tipos de pericitos, outro trabalho desse laboratório novo onde estou, de autoria de um pesquisador japonês, saiu na Nature e nele se demonstrava que um tipo de pericito que também expressa nestin, a mesma proteína que encontramos, é muito importante para manter a reserva de células hematopoiéticas.

Aí vocês articularam esses dois achados?

O que aconteceu foi que quando cheguei no laboratório, devido a meu background, professor pediu que eu me incorporasse ao estudo que resultou no paper da Science era de um pesquisador americano que estava tentando pesquisar esse microambiente não na medula óssea, mas no fígado fetal. Porque durante o desenvolvimento, a hematopoiese ocorre em diversas regiões, na aorta gonadal, depois no fígado fetal, só depois do nascimento é que as células-tronco hematopoiéticas vão colonizar a medula óssea. O trabalho desse aluno de doutorado, primeiro autor do paper era tentar estudar o microambiente do fígado fetal. Eu ajudei e o que descobrimos é que esses mesmos pericitos que expressam nestin estão associados aos vasos portais do fígado e formam um nicho, ou seja, um microambiente que promove então a expansão das células-tronco hematopoiéticas.

Por que essa descoberta é importante?

Acontece que há muitos tipos diferentes de células-tronco, as quais são rotineiramente cultivadas em laboratório. Mas uma coisa especial das células-troco hematopoiéticas, que já são usadas na clínica há mais de 20 anos em transplantes de medula, é que elas são muito difíceis de cultivar, não se tem ainda uma maneira perfeita de fazer isso em escala grande para o transplante. Por isso, no transplante de medula em pacientes de leucemia, por exemplo, as células-tronco hematopoiéticas são coletadas do doador, isoladas e transplantadas quase imediatamente.

E o trabalho de vocês publicado na Science pode alterar esse quadro?

Sim, porque descobrimos que no fígado fetal esses pericitos que expressam nestin têm capacidade de expandir as células-tronco hematopoiéticas. Isso pode levar a aplicações clínicas, se alguém descobrir forma eficiente de cultivar as células em placas de petri. Não descobrimos a maneira de expandi-las, mas o nicho onde elas se expandem rapidamente no fígado ajudará a alcançar esse objetivo..

 



Deixe uma resposta