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Uma avó especial, seus afetos e impulsos

por Thaciana de Sousa Santos

Colunista curte lembranças de férias enquanto se prepara para a retomada das aulas na USP estudando cálculo

 

Conto uma última história engraçada da minha viagem de férias. Na próxima semana, acho, tudo volta ao normal, talvez em partes. As minhas aulas só começam dia 13 de março e, até lá, vou buscar soluções para não sofrer como sofri no ano passado.

Já voltei a estudar cálculo, estou tentando preencher as lacunas que ficaram, aquilo que não consegui realmente aprender. A verdade é que, com tanta coisa, com tanta matéria, às vezes não dá tempo de aprender, dá só para decorar para a prova. Claro que depois fica tudo pior, é mais conteúdo para correr atrás e vira uma bola de neve. Pensando em tudo isso, resolvi (tentar) aprender nas férias.

Enfim, ainda não é hora de falar sobre estudos e sim sobre férias e a minha viagem mais engraçada dos últimos anos.

Sempre fui muito apegada à minha avó por parte de mãe (há quem ache que sou a neta preferida), a avó Ildinha. E toda vez que chega o momento de me despedir dela, eu choro. Não consigo segurar as lágrimas – minha mãe sempre pede que eu não chore para a minha avó não ficar triste, mas não dá.

E esses anos de pandemia só me deixaram mais sensível a essa relação. Foram três anos em que não consegui ir vê-la, dois anos por causa da pandemia e um por causa do vestibular, então tentei ao máximo aproveitar o tempo que tive com ela nessas férias.

Ela sempre foi uma mulher muito forte e independente, com uma opinião forte e um coração generoso. E esse coração generoso causou uma história engraçada.

Acho que foi no dia de ano novo, ela saiu uns minutinhos sozinha e voltou com uma cachorra. Sim, isso mesmo, pegou na rua, achou linda e limpinha e botou debaixo do braço. Todos nós sabíamos que era de alguém porque estava bem cuidada, então, não era de rua.

A cachorra ficou meio que agoniada, queria sair na rua e falamos para deixar ir, talvez quisesse ir para casa, mas a minha avó cismou que não, que era coisa da nossa cabeça e ai de alguém falar para ela procurar a dona. Então deixamos daquele jeito mesmo, apelidaram o animal, agora se chamaria Laila. Laila comia carne, brincava com as outras cachorras que a minha avó já tinha e se sentia em casa.

De noite, as minhas primas mais novas, de 9 e 10 anos, tiraram a Laila da casa e levaram para a casa da minha tia, e como se já não bastasse a lesma, lá tinha carrapato também, e nem tinha cachorro.

No dia seguinte, a minha vó saiu, com os meus pais e tios, foram em uma cidadezinha, e o resto de nós ficou em casa. Não achei Laila em canto nenhum, mas logo em seguida vem a minha tia com ela, falando que estava cheia de carrapato. A coitada tinha chegado limpinha e cheirosa.

Depois de um tempinho, acham uma postagem da dona procurando por ela, no facebook. Não deu para segurar a risada, porque agora a Laila tinha que ir para casa e a minha avó não tinha como não devolver. Mandaram mensagem para a moça e de tardezinha a “mãe” dela veio buscar.

Ela até chorou e beijava tanto a Laila que nem tive coragem de falar que estava cheia de carrapato, foi embora assim mesmo. Ela agradeceu e queria dar um dinheiro, falei que não precisava (por um momento pensei: guarda o dinheiro para cuidar dos carrapatos).

De tarde a minha avó estava desolada, até parecia que a cachorra já era da família. Tenho certeza de que logo ela vai encontrar mais alguma cachorra arrumadinha pela rua e vai botar debaixo do braço de novo.


Thaciana de Sousa Santos, a Tatá, é estudante de graduação do Instituto de Física da Universidade de São Paulo e escreve semanalmente para o Ciência na Rua

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