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Esse insuportável racismo de todo dia

Por Thaciana de Sousa Santos

Em pleno século XXI subsiste a inacreditável sugestão a jovens negras de “embranquecer” seus descendentes para que sofram menos; mas por que, interroga a colunista, em vez de tentar mudar o mundo para os que virão, temos que mudar a cor com que virão?

Eu pensei em continuar a saga de curiosidades astronômicas em que estávamos, mas aconteceu algo mais forte, que me impede de deixá-lo sem comentários.

Deve ter já ficado óbvio que é sobre o caso de Vini Jr, que anda sofrendo tantos ataques racistas. Até daria um descontinho se, em algum momento, reclamassem de uma atuação dele nos jogos, mas o cara é bom demais, não dá nem motivo para reclamações.

Mas o atacarem por causa de sua cor? Chegou ao ponto de ele sofrer um mata-leão no jogo do dia 21 de maio, e ele ser expulso, um trágico absurdo, visto que ele foi agredido.

Eu queria muito ter a convicção de que isso vai melhorar no futuro, e que os meus filhos e netos não sofrerão com o racismo.

Claro que eu não quero que eles passem por agressões racistas, e há gente até da minha família que acredita que, para tornar mais fácil a vida das gerações a que eu der origem, deveria embranquecê-las. Então, em vez de tentar mudar o mundo para aqueles que virão depois de nós, temos que mudar a cor com que eles virão?

A conta não bate, não faz sentido.

Eu queria poder abraçá-lo, Vini Jr, mas mesmo com mil palavras de conforto não mudaria em nada o que você está sentindo. Porque você está trabalhando, e o seu trabalho coincidiu com o que você ama, sabe que o seu tom de pele não define as suas capacidades, assim como não define a minha nem a de ninguém.

Eu não queria ter que ficar provando a minha capacidade porque sou dada como incapaz só pela minha cor. Fico incrédula, porque esse é um negócio tão ultrapassado que até parece mentira – mas não é.

O racismo mata e, não, não é exagero. Está na internet, tem dados, ninguém está inventando nada. E a aquela história do menino que foi baleado no peito por um PM, sendo que foi ele quem o chamou?

Fico pensando no dia que será necessário conversar com o meu irmão sobre isso, sobre o racismo. Dizer para ele evitar correr na rua porque vai que acham que ele é um assaltante e atiram?

Paulo só tem 7 anos, mas me cortou o coração quando ele falou que os amigos da van escolar o chamavam de feijãozinho. Paulo só tem 7 anos, mas eu expliquei para ele sobre a cor “tom de pele” na cartela de lápis. Ainda não falamos sobre raça ou algo do tipo, para identificar a cor das pessoas negras, ele utiliza o marrom, porque é a cor que tem na cartela.

Logo, eu, Paulo e Vini Jr. somos marrons, o nosso tom de pele não lembra macaco, nem cor de asfalto. Somos marrons!

Sônia Guimarães, física, cientista famosa, professora do Instituto Tecnológico da Aeronáutica (ITA),  é genial e ponto. Por muito tempo, a genialidade estava atribuída apenas a pessoas brancas, lembra de Machado de Assis? Ele foi embranquecido, porque um gênio não podia, em hipótese alguma, ser negro.

É uma tristeza tamanha que nem pode ser expressada, mas apesar de toda a dor de Vini Jr. imagino como deve estar a mãe dele. Imagine, você coloca um filho no mundo, quer que ele seja feliz, tenha um futuro brilhante, conquiste todos os seus sonhos, e situações como essa serem recorrentes? E na profissão que ele tanto ama?

Deve ser uma dor inigualável. E é nessas horas que penso em minha mãe, em como deve ter doído quando eu sofri racismo na faculdade ou quando o Paulo sofreu, mesmo sem saber.

Entra mês e sai mês e nunca sabemos quem será a próxima vítima de um sistema racista. Sei que sou só uma, mas o que eu puder fazer para melhorar a vida de quem está por vir, farei. Porque é de pouquinho em pouquinho que virá o muito.


Thaciana de Sousa Santos, a Tatá, é estudante de graduação do Instituto de Física da Universidade de São Paulo e escreve semanalmente para o Ciência na Rua

 

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