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Espalhando geociências para crianças

por Vinícius Nunes Alves

Entrevista com Andrea Sander, do Serviço Geológico do Brasil

Andrea Sander, 61 anos, é geóloga, professora e pesquisadora da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos) e, também, profissional do Serviço Geológico do Brasil (SGB), empresa pública vinculada ao Ministério de Minas e Energia. Em ambos os cargos, Andrea acumula experiência de décadas e integra ensino com pesquisa, funções que Paulo Freire, patrono brasileiro da educação, já defendia que são, ou deveriam ser, indissociáveis.

O que mais chama a atenção no campo da comunicação científica é a experiência que Andrea tem ao coordenar oficinas para crianças em escolas públicas ou privadas do Brasil afora. Essas oficinas fazem parte do SGBEduca, programa do Serviço Geológico do Brasil destinado à divulgação e popularização das geociências.

Em conversa feita por Google Meet, Andrea conta a sua trajetória profissional, além das visões e experiências sobre divulgar geociências para as crianças. Confira abaixo a entrevista.

O educador Rubem Alves dizia que crianças ainda têm olhos encantados. Na sua infância, você já tinha interesse por rochas, fósseis e dinossauros? As escolas onde estudou ajudaram a nutrir o seu interesse por ciências da natureza?

Eu acho quase impossível uma criança passar pela ciência sem que isso chame atenção. Quando eu era pequena, adorava catar pedrinhas com aquela fantasia de que poderia achar algo raro. Mais do que a geologia, acho que a passagem pela paleontologia básica é impossível de não exercer um fascínio nas crianças. Claro que também depende do jeito que ela é explicada, mas acho que mostrar peças paleontológicas já fascina. Se só falar? Talvez. A gente da área costuma dizer que a paleontologia é a porta de entrada no mundo da ciência para as crianças. Eu acho que é uma porta brilhante que convida para uma viagem no tempo, conta histórias de seres incríveis que já existiram e isso mexe com a imaginação. Eu tive professores muito bons em ciência e isso fez muita diferença para estimular esse interesse e encantamento. Isso pesou muito na hora que eu decidi qual carreira seguir. A princípio, eu escolhi fazer geologia por causa da paleontologia que sabia que teria muito no curso. E depois na faculdade é que outras áreas do curso foram me chamando mais atenção. Como profissional, eu acabei seguindo em uma linha diferente que trabalha com rochas duras e com petrologia ígnea, mas o meu ingresso no curso foi pela Paleontologia. Ainda acho que é o que mais chama atenção das crianças, além dos fenômenos naturais como vulcões e terremotos.

Onde você nasceu e cresceu? Daqui para frente, quais são seus planos de carreira?

Eu nasci e cresci no interior do estado do Rio Grande do Sul, em uma cidade chamada Cachoeira do Sul, que tem uma economia basicamente agrícola. Eu me formei em geologia em 1987 e, logo depois, fiz uma seleção para dar aula na universidade Unisinos que é onde estou até hoje. Em 1989, passei no concurso do Serviço Geológico do Brasil (SGB) e comecei a trabalhar aqui na Superintendência Regional de Porto Alegre com mapeamento geológico regional. Olha, eu já passei da metade para o fim da minha carreira dentro do SGB. Eu, como todo funcionário público, ao completar 75 anos, terei que automaticamente me aposentar e posso dizer que não pretendo me aposentar antes disso. Falar sobre geociências é ver o encantamento das crianças com os minerais, é poder embarcar com elas nessa viagem do tempo da Terra, é uma coisa muito gratificante mesmo. Para mim, é impossível a gente ter esse contato com crianças e jovens sem se deixar contagiar. Eu me contamino positivamente com o encanto dos estudantes, com o entusiasmo que eles têm com a geologia e com a história do nosso planeta que é incrível. Então, eu acho que os meus planos daqui para frente são continuar fazendo esse trabalho e conseguir expandir ele da melhor forma possível. De um tempo para cá, temos o apoio institucional do programa SGBEduca que busca atingir o maior número de crianças e jovens na divulgação das geociências.
Você não é uma geóloga restrita ao meio acadêmico.

Qual é sua trajetória profissional, e como e por que começou a fazer disseminação das geociências?

Quando me formei em 1987, a geologia estava muito em baixa, quase não existiam empregos. Era uma época em que o Brasil estava mergulhado numa crise econômica grande. Então a solução naquela época foi ingressar no mestrado. Eu participei de uma seleção, ingressei no mestrado para trabalhar com geoquímica e, pouco antes de defender a minha dissertação de mestrado, comecei a trabalhar no Serviço Geológico do Brasil (SGB). Em 1995, um colega que é um grande colecionador, mineralogista e até famoso na área, que é o Pérsio de Moraes Branco, trouxe parte do acervo pessoal dele para a unidade regional do SGB em Porto Alegre e abriu um museu. No começo eram 11 expositores com uma grande coleção de minerais, rochas, fósseis e meteoritos. E ele me convidou para trabalhar com ele no atendimento às escolas, então, a gente passou a receber escolas gratuitamente para fazer uma visita guiada no museu. A partir da vinda dessas escolas, a gente viu que simplesmente mostrar as rochas e os minerais numa visita formal de museu não era o suficiente porque outras questões iam surgindo, alunos e professores tinham muitas dúvidas e questionamentos que realmente eram difíceis de compreender para quem não é da área. Por exemplo, questões sobre o tempo geológico, às vezes, geólogos conversam e comentam que algum evento ou peça tem “apenas” milhões de anos, como se isso fosse pouco quando comparado a bilhões de anos. Mas milhões de anos para a maioria das pessoas já é tempo demais, para a média das pessoas, quando se fala em muito tempo atrás, elas imaginam o tempo dos egípcios. Então existe esse descompasso entre o tempo da Terra e o tempo dos humanos, é uma noção muito difícil das pessoas internalizarem.

A disseminação científica foi uma passagem natural quando eu comecei a trabalhar com o Pérsio nas questões do Museu de Geologia. Como receber as escolas e conversar com as crianças já era uma coisa muito gratificante, comecei a pensar também em como expandir isso. Na comunicação da ciência, eu sempre pergunto quem ensina quem e não sei se sempre consigo explicar geociências para as crianças. Acho que elas me ensinam os caminhos de fazer divulgação científica. Para mim, sempre foi um desafio pensar em como conversar da melhor forma com crianças, pois sempre surgem muitas perguntas curiosas para as quais a gente não está preparado para responder. Já tive contato com perguntas de crianças do ensino infantil ao ensino fundamental I que eu nunca havia me feito, pois é a geologia pelos olhos das crianças e isso foi muito importante para eu crescer nessa trajetória de divulgar geociências. Posso dizer que aprendi e ainda estou aprendendo na marra a me comunicar com esse público.

O saudoso Carl Sagan defendia que a efetiva divulgação científica não se restringia aos resultados, mas também em esclarecer como são empregados os métodos para obter os achados. Quais são para você os grandes desafios para divulgar geociências de forma mais completa?

Eu sou muito fã do Carl Sagan. Lembro que quando começou o programa Cosmos, eu não perdia um episódio. Eu acho que aquela forma de se comunicar ainda é efetiva e a gente busca aquele tipo de fala. Ele tinha uma forma de falar que não infantilizava nem arredondava a ciência. Explicar tudo dentro da correção científica e numa linguagem inteligível para a sociedade é um desafio fundamental para o Serviço Geológico do Brasil (SGB). Na comunicação científica, talvez a principal dificuldade seja transpor as barreiras de vocabulário porque a gente passa toda a formação aprendendo termos que permitem que a gente se comunique em Congressos da área, mas se falarmos da mesma maneira em outros espaços não acadêmicos é como excluir a conversa com a maioria da população. Não esclarecer os métodos, como você bem colocou na pergunta, favorece a aceitação da informação científica ou não sem questionar nada. Então, por exemplo, como é que a gente sabe que o núcleo da Terra é de ferro e níquel? Nunca ninguém foi até o núcleo da Terra para estudar. Nós sabemos dessa composição do núcleo porque a geofísica tem métodos indiretos de identificar que, inclusive, se relacionam com os meteoritos que caem na superfície da Terra. Em qualquer livro didático de ciências terá a informação de que a Terra é formada por três camadas principais – crosta, manto e núcleo, mas explicar como basicamente se chegou a isso é tão ou mais importante do que passar a informação pronta. Falar sobre os métodos e os bastidores da ciência é bom para todo mundo, mas principalmente é bom para a ciência até para fazer a distinção entre aquilo que é pesquisa científica e aquilo que é pseudociência.

O SGBEduca lembra que a Constituição Brasileira considera minerais e fósseis como riquezas naturais que pertencem à União, ou seja, a todos brasileiros. Isso inclui respeitar uma legislação que permite extrair minerais e fósseis em casos específicos, como para pesquisa e museus. Especialmente sobre bens minerais que estão espalhados na sociedade humana, quais cuidados devem ser seguidos para extraí-los de maneira sustentável? 

Eu posso responder melhor como geóloga e não paleontóloga. Raramente tenho oportunidade de visitar afloramentos fossilíferos porque eles são bem restritos e, quando isso acontece, eu sou sempre visitante e nunca pesquisadora. Eu costumo visitar áreas pela Unisinos, mas não para fazer retirada e sim como excursão didática. Existem locais com afloramentos rochosos que são extremamente didáticos e vão mostrar para os alunos algum evento importante, alguma rocha diferenciada. Nessas visitas eu sempre peço para que os alunos não martelem, não retirem nada daquele local. Quando é uma coleta para montar as coleções didáticas para o Programa SGBEduca, normalmente as fontes são pedreiras porque nelas as rochas já estão naturalmente cortadas em um tamanho menor e estão frescas. A gente vai lá para fazer uma coleta específica, mas dizer que a retirada de minerais, que o uso dos materiais geológicos é sustentável, aí já é um pouco complicado, né? Porque a gente está falando de materiais não renováveis, pelo menos não renováveis no ciclo da vida humana. Ao mesmo tempo, a gente não pode esquecer que os bens minerais são indispensáveis na nossa vida. Nós estamos tendo essa conversa com você aí no interior de São Paulo e eu aqui em Porto Alegre porque existem fios de cobre que levam energia e porque existe a fibra óptica que transmite esse sinal. Todo esse equipamento que tu tens aí na frente e que eu tenho aqui na minha frente, é, basicamente, produto da mineração. Mesmo as nossas roupas, os óculos que estamos vestindo agora têm um toque de mineração. E quando a gente consumir a última tonelada de minério, acabou, não tem mais.

No ciclo da humanidade, é provável que não seja presenciada a formação de uma nova jazida de ferro ou a descoberta de um novo grande depósito de petróleo ou cobre. Então, a gente tem que usar esses bens minerais com sabedoria, reciclar o seu uso no máximo que puder. Mas a demanda por esses bens minerais não vai diminuir. Normalmente, quanto mais tecnologia e conforto tem a vida humana, mais bens minerais são usados. Eu acho que um papel importante dos geólogos é informar a população sobre o protagonismo que os bens minerais têm na nossa vida, mas falar sobre isso é difícil até para geólogos, pois a primeira coisa que vem à cabeça das pessoas é impacto ambiental. O que os geólogos podem explorar melhor é como fazer uso mais racional desses bens minerais. O nosso estilo de vida atual demanda muita tecnologia e os aparelhos eletrônicos que usamos têm muitos metais. No celular mesmo tem ouro e platina em concentrações relativamente grandes. Eu não sei se algum dia isso será sustentável, mas acho que podemos reduzir impactos, sendo cada vez mais cautelosos ao retirar esses bens. Grandes acidentes com mineradoras também sempre são lembrados quando falamos de mineração, mas esses acidentes são muito mais um problema de gestão, de responsabilidade, do que da mineração em si. A mineração sempre tem impactos? Sim, pois os bens minerais extraídos não ficam para as próximas gerações. A gente vai ter que investir muito em pesquisa, buscando outros materiais e formas para atender às nossas demandas.

Segundo página oficial, nos últimos 50 anos o Serviço Geológico do Brasil tem sido referência para a comunidade geocientífica, com trabalhos técnicos que são utilizados tanto em pesquisas acadêmicas como para trabalhos de geólogos em empresas. Pode comentar exemplos desses usos na sociedade?

Os melhores exemplos são os mapas estaduais de rochas. Um mapa geológico é um documento muito complexo que usa uma terminologia bastante específica e hermética. Eu até ousaria dizer que, antes do terceiro período do curso de geologia, nenhum aluno está preparado para ler um mapa geológico. Ele realmente é um documento feito por um geocientista para outro geocientista. Entretanto, conhecer o local onde mora é um fator muito importante para toda população, pois as rochas definem o desenho geomorfológico da cidade e a geomorfologia define o seu uso. Uma cidade que está localizada sobre rochas sedimentares, por exemplo, é uma cidade com planícies de inundação de rio que vai ter uma distribuição espacial específica. Já uma cidade que cresceu sobre rochas duras, na forma de um relevo acidentado, vai ter um outro tipo de ocupação humana. Em um curso de atualização para professores em geociências, uma das perguntas foi – Por que tem ouro em Ouro Preto? Na verdade, a questão é outra – Por que tinha ouro lá que a cidade de Ouro Preto se desenvolveu? Pois a cidade só se instalou e cresceu ali porque tinha um bem mineral que foi explorado e isso é verdade para muitas cidades brasileiras. A ocorrência de um determinado bem mineral ou de um determinado tipo de rocha dá a vocação para aquele lugar, né? Por exemplo, na região da Bacia Carbonífera, em Santa Catarina, as cidades só se desenvolveram porque já existia um bem mineral.

Conhecer a geologia da sua região é uma coisa importante e isso também deve ser apresentado de forma inclusiva. Por exemplo, um mapa escolar de rochas é uma tradução que pega o mesmo desenho do mapa geológico, mas limpa, sintetiza e traduz as informações de uma forma bem simples, reconhecendo apenas as rochas clássicas presentes – ígneas, sedimentares e metamórficas. Então, informar que o morro do Pão de Açúcar na capital carioca é uma rocha metamórfica faz com que as pessoas digam: ah, eu conheço uma rocha metamórfica, eu sei o que isso é, eu já fui lá, e isso aproxima a população das geociências. Os mapas geológicos do Serviço Geológico do Brasil nascem e crescem com 100% de pesquisa, formado por vários pesquisadores. E a transcrição desses mapas geológicos em mapas que podem ser utilizados pela comunidade escolar e são exemplos de pesquisa virando extensão na educação e na divulgação.

Recentemente, você teve um relato de experiência aprovado para apresentar no II Encontro Brasileiro de Divulgadores de Ciência e que trata sobre a divulgação geocientífica em comunidades isoladas do Brasil. Quais aprendizados você destacaria dessa experiência?

O trabalho que eu submeti foi mediação científica em comunidades isoladas. Foi um trabalho que a gente fez com comunidades indígenas. Eu realmente não sabia o que ia enfrentar, apenas sabia que eram escolas multisseriadas, mas não sabia se as crianças dominavam a língua portuguesa. As crianças já eram de comunidades aculturadas, eram comunidades macuxis. Depois, mais tarde, eu fiquei sabendo que há mais de 50 anos, todas falavam português. Achei interessante ver que essas crianças indígenas têm uma percepção muito diferente do meio que a cercam. Quando falava com elas, percebi que elas têm um olhar diferente das crianças que eu estou acostumada a trabalhar, mesmo as de escolas rurais. As crianças macuxis são muito atentas ao meio que vivem. No começo, eu achei que ia ser muito difícil falar do mapa, mas elas já sabiam os locais, quando eu mostrei o mapa, elas já sabiam localizar onde tem o rio tal, onde tem as furnas, e isso foi muito encantador. Pude ver o quanto elas estão integradas com seu ambiente, inclusive elas sabiam me apontar no mapa coisas que eu não sabia. Elas tinham um domínio da geomorfologia local que eu não tinha. Esse trabalho a gente fez usando o mapa escolar de rochas do local e abordamos bastante as paleotocas. Essas comunidades indígenas que trabalhamos vivem em uma área próxima do geoparque Caminhos dos Cânions do Sul aqui no Rio Grande do Sul, e toda essa área abriga muitas paleotocas que foram tocas cavadas por animais da megafauna, como preguiças gigantes. São mais de 150 paleotocas e essas grandes tocas costumam ser complexas e interligadas com várias câmeras formando cavernas. Essas tocas são chamadas pela população local como furnas de índio porque realmente alguns povos originários aproveitaram essas estruturas para fazer suas moradias. Essas paleotocas carregam a fantasia local de que são locais assombrados. Então levamos as crianças até elas para explicar que são estruturas únicas, raras, cavadas por animais gigantes que não existem mais, como as preguiças pré-históricas que tinham até cinco metros de altura. Poder mostrar esse outro lado, que isso é algo exclusivo desse território, é uma coisa que enche aquela comunidade de orgulho. Isso foi uma experiência de ver como a informação científica promove uma releitura do local onde se vive. De alguma forma, isso empodera quem mora ali – eu moro aqui, eu conheço as paleotocas, elas são da minha cidade, isso é uma coisa rara. Ser uma mediadora na transposição de uma visão supersticiosa em uma visão científica não tem preço.

Na introdução teórica da oficina de fósseis ministrada para as escolas municipais de Botucatu-SP, você mencionou a definição científica de dinossauros e que também é uma definição oficial do SGB: “Dinossauros são répteis terrestres que dominaram a Terra a partir […]”. Considerando isso, animais pré-históricos como o crocodilo imperador gigante e os mais conhecidos e exímios voadores pterossauros não são dinossauros. Esses e outros animais ainda são bem confundidos no imaginário popular como dinossauros? Se sim, a quais fatores você atribui essa confusão até hoje?

São confundidos sim e isso acontece principalmente por conta do cinema. Mas ele tem um papel importante quando apresenta os dinossauros, como nos filmes do Jurassic Park, mesmo considerando que nas histórias os dinossauros estão bem misturados, com espécies que têm idades de ocorrência bem diferentes na Terra. Os paleontólogos brincam que o Jurassic Park deveria se chamar Cretaceous Park porque os animais que estão ali representados não são predominantes do Jurássico, mas sim do período Cretáceo. No filme Dinossauros, da Disney, também mostra um grande grupo de animais, incluindo os pterossauros que voavam e os mosassauros que ocupavam o mar. Mas eu acho que o filme é lazer, não tem um compromisso com a ciência, então mesmo colocando esses outros animais no pacote de dinossauros e causando confusão, acho que é válido ter filme ou animação que trate de animais pré-históricos. Para mim, é melhor apresentar de uma forma meio confusa do que não apresentar nada, mesmo que seja para a gente poder fazer estas discussões sobre quem realmente é dinossauro, quem veio antes. Então o cinema pode ser o ponto de partida, né? O próprio jogo Minecraft, muitas crianças o conhecem e jogam, e nesse jogo tem alguns minerais importantes. Um dos materiais geológicos do jogo é a obsidiana, que é um material de muito valor no jogo. Então, quando tu mostras uma obsidiana e diz, “olha, esse aqui é um vidro vulcânico”, as crianças já associam, “ah é a obsidiana que tem no Minecraft“. Com isso, é possível abrir um diálogo porque já existe uma referência que pertence àquele universo das crianças, que desperta interesse e pode ser conhecido de outra forma. A precisão podemos ajustar, por exemplo, está no jogo que obsidiana é um mineral, mas podemos explicar para criança que é um mineralóide, por causa disso e por causa daquilo. Assim, tu partes daquela informação de entretenimento para formar um novo nível de conhecimento.

A oficina de descrição e pintura de fósseis do SGEduca que passa por escolas do Brasil todo, recentemente também passou em escolas municipais de ensino fundamental I onde sou professor de Experiências em Ciências da Natureza. Não faltaram relatos das crianças e notícias contando o sucesso da oficina. A parte mais prática e interativa com as turmas foi quando as crianças receberam réplicas de fósseis de dente de Megalodon (tubarão gigante), garras de Velociraptor (presente no Jurassic Park), Deinonychus (eficiente predador), concha de Amonite (molusco), exoesqueleto de Trilobita (artrópode) e garra do bicho- preguiça gigante. Durante a oficina, alguns estudantes não usaram apenas o guache servido por sua equipe para pintar as réplicas de gesso, mas também glitter que é um microplástico considerado um grande problema ambiental. Por que não aproveitar a oficina também para conscientização ambiental das crianças nessa questão?

Eu nunca tinha pensado nisso, mas tu deves ter observado que o glitter é a única coisa que não fica disponível na mesa, né? O glitter é colocado no final da atividade e uma gotinha em cima do prato. O aluno tem que molhar o pincel e espalhar, não são como as tintas que ficam ali disponíveis e, quando acabam, a gente repõe. O glitter chama muita atenção e é usado pontualmente. Geralmente oferecemos o glitter quando trabalhamos com grupos que já estão terminando e grupos que pouco exploraram as réplicas. Existem muitas velocidades diferentes dentro da oficina, há alunos que levam toda a oficina para pintar uma ou duas peças e alunos que pintam todas as peças nos primeiros dez minutos. Daí a oficina começa a ficar chata para quem já terminou. Então, a gente usa essa ferramenta, o glitter, para os alunos que já estão quase prontos ou muito adiantados para que eles voltem a atenção para suas réplicas e não dispersem. Mesmo em uma turma pequena de 20 crianças, algumas vão ser muito rápidas e outras não. Não são todos os lugares, como nas escolas que você trabalha, que as crianças têm outras atividades para fazer depois ou que têm a participação dos professores. Em Botucatu, sempre ficaram com a nossa equipe três ou quatro professores. A gente sabe que, ao contrário do guache, o glitter não vai se dissolver integralmente e pode vir a ser um problema. Mas ele é um recurso que a gente ainda utiliza para esticar a vida útil da oficina. Isso porque a oficina provoca muita agitação e, às vezes, é necessário.

A literatura científica aponta que a extinção em massa dos dinossauros não se deve apenas ao impacto do asteroide que caiu no Golfo do México há 66 milhões de anos, mas principalmente por alterações climáticas que começaram antes do asteroide com os vulcões e, também, após o asteroide com alterações da atmosfera. Comente como você trabalha a ampliação de perspectiva sobre o fim da era dos dinos.

Quando a gente fala que os dinossauros foram extintos a partir da queda do meteorito, parece que o meteorito caiu em um dia e no dia seguinte todos os dinossauros estavam mortos. Então, falar sobre isso abre espaço para questionamentos. Esses animais não existem mais, mas eles foram extintos apenas porque caiu o meteorito? Caiu o meteorito na cabeça de cada dinossauro? Existia dinossauro no mundo todo. Será que caiu tanto meteorito assim? Ou seja, a história não é bem assim, né. O meteorito foi um dos fatores que provocou uma mudança no meio ambiente, uma mudança no clima. Esse clima alterou de uma forma que os dinossauros que nasciam não eram suficientes para repor os que morriam e, aos poucos, esses animais foram sumindo. A curiosidade é despertada pelo dinossauro, que é uma coisa que todo mundo sabe que está extinto, mas a gente mostra que a extinção é uma coisa gradual e está acontecendo agora. As grandes extinções estão relacionadas a mudanças ambientais, e nós somos um fator de mudança ambiental. Outra questão é – Os dinossauros se extinguiram por uma mudança climática, mas a gente não está também numa mudança climática? Estamos, só que por outras causas que não são meteoritos. Se nós mudamos o clima, temos que ficar muito alertas porque o que aconteceu com os dinossauros pode acontecer com vários outros animais, se não cuidarmos do meio ambiente. Se com o impacto do meteorito, o clima mudou e faltou alimento para os dinossauros sobreviverem, então também não podemos alterar o clima ao ponto de faltar comida. Falar sobre o fim dos dinos, é uma oportunidade de passar essa ideia de que extinção é gradual e que outras extinções ocorrem.


*Vinícius Nunes Alves é biólogo pela Unesp-IBB, mestre em Ecologia pela UFU-Inbio e especialista em Jornalismo científico pela Unicamp-Labjor. Foi Professor Substituto da subárea Filosofia da Ciência na Unesp-IBB. Atua como professor de ciências da Prefeitura de Botucatu e como jornalista colaborador do Notícias Botucatu, Natureza Crítica, O Eco e ComCiência.

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