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Ajam como se a casa de vocês estivesse inundando – porque ela está!!!

por Luiza Moura

Colunista adapta frase de Greta Thumberg aos dramáticos eventos do litoral norte de São Paulo 

Destruição em São Sebastião (reprodução foto Governo do Estado de São Paulo)

Em 2019, a ativista sueca Greta Thumberg fez um discurso no Fórum Econômico Mundial que rodou o globo. Em Davos, a ativista disse: “Eu quero que vocês ajam como se vocês estivessem em uma crise. Eu quero que vocês ajam como se a casa de vocês estivesse pegando fogo. Porque está”. Hoje, em 2023, gostaria de pedir licença para adaptar o discurso de Greta para a realidade enfrentada por São Paulo, e por tantos outros locais brasileiros. A juventude climática quer que vocês ajam como se a casa de vocês estivesse inundando. Porque ela está.

Durante o Carnaval deste ano, a atenção da sociedade brasileira ficou dividida. Enquanto boa parte do público curtia blocos, escolas de samba e a folia paulistana, os moradores, e até mesmo os turistas, do litoral norte de São Paulo se viram com medo da chuva, perdendo suas casas, seus amigos e parentes. São Sebastião, Guarujá, Ilhabela, Santos e diversas outras cidades litorâneas foram imensamente afetadas pelas grandes chuvas da semana carnavalesca.

Estimativas apontam que já são, hoje, quarta-feira de cinzas, 48 pessoas mortas e muitas desaparecidas. Mais de duas mil e quinhentas perderam suas casas. Nesse sentido, é importante dizer que é necessário combater aqui um discurso que coloca a responsabilidade dessa tragédia na natureza ou “na chuva”. O que aconteceu essa semana no litoral é o mesmo que aconteceu em Petrópolis e Franco da Rocha no ano passado. É o mesmo que aconteceu na Bahia em 2022 e em tantos outros locais deste país, por anos consecutivos. Trata-se de uma falta de adaptação das cidades à emergência das mudanças climáticas, que já estão batendo na porta.

As tempestades torrenciais são exemplos dos chamados eventos climáticos extremos, ou seja, eventos com grande potência, mas que aconteciam de maneira esporádica, eram raros. Porém, com o aumento da temperatura do planeta e, por consequência, o agravamento das mudanças climáticas, os cientistas apontam que eventos como esse se tornarão cada vez mais frequentes. E é exatamente por isso que a hora de agir é agora. Não é mais possível esperar para tomar providências e adaptar as cidades, todas elas, para a iminência da crise climática.

É necessário agir agora e implementar medidas que a juventude que luta por justiça climática aponta há anos. Não por acaso, os mais afetados pelos desabamentos, pelas enchentes e pela perda de suas moradias são as pessoas mais vulneráveis. São pessoas pobres, majoritariamente negras e que vivem em áreas periféricas das cidades. É o chamado racismo ambiental. Não por acaso, um dos lemas das juventudes climáticas em diversas marchas, manifestações e discursos é a defesa de que não há justiça climática sem que exista justiça social. É preciso considerar, como diz a ministra Marina Silva, o problema de maneira transversal. Questões e vulnerabilidades sociais têm impactos diretos em quem sofre mais e de maneira mais contundente os efeitos da emergência climática.

Nesse sentido, vale muito a pena conhecer o trabalho de Vanessa Nakate, ativista climática de Uganda que, com muita propriedade discute os efeitos do racismo ambiental. No cenário brasileiro, é fundamental conhecer os trabalhos do Instituto Perifa Sustentável que mobiliza juventudes em prol de justiça social e racial.

Assim, gostaria de terminar esse texto fazendo um apelo aos líderes e governantes brasileiros: Não nos deixem afundar. Não nos deixem queimar. A emergência climática já é uma realidade e seus efeitos já estão sendo sentidos por milhares de pessoas em todo o país. Nós, os jovens que lutam por um futuro possível e diferente, vamos continuar aqui. Resistindo, existindo, pedindo passagem, cobrando e propondo soluções para esses problemas. Finalizo, novamente, retomando o discurso de Greta Thunberg em Davos. É hora de agir como se nós estivéssemos em uma crise. Porque nós estamos. E ela vai afetar todos nós. Porém, algumas pessoas já marginalizadas sofrerão mais do que as outras, que conseguem fugir e se proteger. E isso não é aceitável.

 

Deixo para vocês umas poucas referências bibliográficas:

OUR House is on fire: Greta Thunberg, 16, urges leaders to act on climate. In: https://www.theguardian.com/environment/2019/jan/25/our-house-is-on-fire-greta-thunberg16-urges-leaders-to-act-on-climate

NEVES, Rafael & SOBRINHO, Wanderley Preite. Eventos extremos provocam chuvas recordes e centenas de mortos no Brasil. UOL Notícias, 2022. In: https://noticias.uol.com.br/meio-ambiente/ultimas-noticias/redacao/2022/06/05/mudancas-climaticas-aquecimento-global-desastres-naturais-seca-chuvas.htm

HAMA, Lia. De Uganda para o mundo. Ecoa Uol. In: https://www.uol.com.br/ecoa/reportagens-especiais/vanessa-nakate-nao-existe-justica-climatica-sem-justica-racial/#page3


Luiza Moura é estudante de relações internacionais na PUC-SP e ativista socioambiental

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