VIVER BEM E COM FRIO

Francisco Bicudo | 22 de agosto de 2016

Que me desculpem os calorentos, mas um friozinho é fundamental. O vento que sopra mais fresco e derruba as temperaturas renova nossos ânimos, nos deixa mais dispostos e ativos. A previsão acertou, chegou a massa de ar polar anunciada pela moça do tempo na rádio? Aproveite. Divirta-se. Ótimo motivo e oportunidade para tirar do armário aquela malha de lã bonitona que estava guardada no fundo da gaveta desde o inverno passado. Os termômetros não passam dos dez graus, as madrugadas são geladas? Mantas e edredons estão aí para bem servi-lo ou servi-la. Das melhores sensações do mundo é mergulhar na cama com pijama de flanela, gorro e duas meias. Sentir os cobertores pesando sobre o corpo e esquentando os ossos e músculos aos pouquinhos, deliciosamente. A gente deita como um tatu, todo enrolado e encolhido, e vai esticando pernas e braços, até cair no sono profundo e gostoso.

Tem razão, concordo, é duro sair do aconchego dessa cama quase térmica na manhã seguinte, logo cedinho, e entrar no chuveiro, correndo risco de levar nas costas aqueles primeiros pingos gelados de água. Sugestão: ainda encapotado, feche a porta e a janela do banheiro e abra bem pouquinho a torneira da ducha, deixando correr por uns minutos aquela água bem quente e pelando e que embaça o ambiente, agora transformado numa sauna. Perfeito. Vista-se ainda nessa câmara climatizada, tomando apenas cuidado para não colocar a blusa do avesso, a calça de trás para frente ou meias de cores diferentes, uma marrom e outra azul, por conta da neblina. Por via das dúvidas, ao sair do banheiro, confira num espelho se está tudo nos conformes e como manda o figurino.

No frio, a gente tem mais apetite, come melhor. Fica abraçadinho e agarradinho com a namorada, com o marido. Desagradável mesmo é suportar aquele calor dos infernos do verão, o ar abafado, viciado, o virar de um lado para o outro na cama com o corpo suado e grudento, contando carneirinhos e implorando por uma mísera brisinha que insiste em não dar o ar da graça, mesmo com a janela escancarada. Não há roupa leve que alivie o bafo dos quarenta graus. E a moral e os bons costumes ainda não nos permitem visitar pelados os amigos ou aparecer nus em ambientes públicos e de trabalho. Seríamos imediatamente presos por atentado violento ao pudor. A nota triste, excrescência indecente, fica por conta do nosso descaso coletivo em relação aos moradores de rua, condenados a viver ao relento como se essa fosse uma condição natural.

Aos que destilam bravezas e exigem a imediata condução coercitiva do frio por obstrução das elevadas temperaturas, um alerta: o geladinho faz bem para a saúde. Maravilhoso mesmo seria poder viver nos mares friorentos da Groenlândia. Não é maluquice. A longevidade que tanto procuramos em pílulas mágicas, baterias de remédios e vitaminas e dietas e exercícios que prometem o mundo dos sonhos, pode ser encontrada perto dos icebergs do polo norte, lá mesmo onde o todo-poderoso Titanic afundou, em 14 de abril de 1912. Por lá, espécies como a baleia-da-Groenlândia (Balaena mysticetus) chegam a viver 211 anos; o tubarão-da-Groenlândia (Somniosus microcephalus) consegue apagar as velinhas por até 392 primaveras, ainda cheio de fôlego e vitalidade. O ming (Arctica islandica), um molusco achado na Islândia, é capaz de receber amigos para comemorar o aniversário e cantar ‘parabéns a você’ por até 507 anos.

O segredo para tentar chegar à idade de Matusalém? “No frio, a tendência é que todos os sistemas do organismo funcionem em marcha mais lenta, minimizando os danos que as células sofrem naturalmente com o passar dos anos. A vida nas águas geladas em torno do polo Norte provavelmente contribui para o metabolismo lento dos animais”, explica Julius Nielsen, estudante de doutorado da Seção de Biologia da Universidade de Copenhague e coordenador de um estudo sobre o tema publicado na revista Science e que recebeu destaque na edição de 17 de agosto da Folha de S. Paulo.

Minhas malas já estão prontas. Muitos casacos, jaquetas e malhas, obviamente. Daqueles bem peludos, felpudos por dentro. Pretendo desembarcar em breve num iglu tríplex que mandei erguer na Groenlândia, minha Guarujá gelada. Já comprei um terreninho mais afastado da zona urbana onde quero construir um sítio para passar as férias de inverno. Será a minha Atibaia do gelo. Levarei comigo minha estante e meus livros. Já estão empacotados. Porque fiquei sabendo também que leitores de livros têm mortalidade reduzida em 20%, de acordo com trabalho feito por pesquisadores da Universidade de Yale e publicada na revista Social Science & Medicine. Ao destacar o estudo, matéria da mesma Folha de S. Paulo (20 de agosto) explica que “vocabulário, concentração, pensamento crítico, empatia, comportamentos mais saudáveis e menos estresse,  a melhora de todos esses processos cognitivos, no fim, pode levar a uma vida um pouco mais longa”.

Se eu conseguir alcançar o campeão de longevidade groenlandística (o ming, 507 anos), acrescentando os 20% de ganho oferecidos pela leitura, terei conquistado uma expectativa de vida de 600 anos, para arredondar. Mesmo que por lá algum governo aventureiro e ilegítimo tome o poder e resolva instituir idade mínima de 70 anos para aposentadoria, teria ainda garantidos outros 530 anos para aproveitar minha velhice, deitado numa rede e em companhia dos livros, sentindo o ventinho gelado batendo no rosto. As portas do iglu estarão sempre abertas para os amigos e amigas. Espero vocês.



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