No último domingo, 21 de outubro, uma mesa composta pelos representantes dos mais altos escalões da Justiça, do Ministério Público e da área de Segurança do poder executivo explicava e respondia aos jornalistas que o primeiro turno das eleições transcorrera dentro da normalidade, em segurança e em paz. No centro da bancada da entrevista coletiva, estava a presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ministra Rosa Weber. De um lado e de outro, sentaram os ministros Raul Jungmann, da Segurança Pública, e Sérgio Etchegoyen, do Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República; a procuradora-geral da República, Raquel Dodge; a advogada-geral da União, Grace Mendonça; e o diretor da Polícia Federal, Rogério Galloro. Apesar de completa, a mesa não foi capaz de responder como as autoridades do país tinham se preparado para a ameaça de difusão de fake news – que imprensa e observadores nacionais e internacionais já vinham alertando há meses –; para o combate às falsas notícias que, sim, marcaram a campanha eleitoral de 2018; e, ainda, como darão andamento às denúncias e à representação que partidos políticos fizeram em relação à enxurrada de informações falaciosas que circularam principalmente pelos grupos de WhatsApp. Em relação a essa última situação, a ministra Rosa Weber ponderou que o processo correria em segredo e que talvez o tempo da Justiça não fosse o mesmo dos anseios de parte da sociedade, mas que ainda assim ela confiava pessoalmente nos processos, nas investigações e no andamento do caso.

As fake news ganharam o centro das discussões e preocupações nessa segunda fase da campanha depois que uma reportagem do jornal Folha de São Paulo, do dia 18 de outubro, mostrou que um consórcio de empresas levantara R$ 12 milhões para financiar a difusão em massa e automatizada de notícias falsas contra um dos candidatos à presidência da República, Fernando Haddad (PT). O valor apurado não havia sido declarado como doação à campanha de Jair Bolsonaro (PSL), favorecido pelas falácias, o que configuraria crime eleitoral. No entanto, desde o início do pleito, a quantidade e a variedade de inverdades que circulavam livremente pelas redes sociais e a proximidade do norte-americano Steve Bannon, que atuou nas eleições dos Estados Unidos e no processo do Brexit britânico, já fazia desse assunto um dos mais importantes da campanha.

Enquanto as autoridades não conseguem dar respostas tão cabais quanto a situação pede, um grupo de pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) e Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) trabalhou para desenvolver uma ferramenta que verifica a autenticidade e a veracidade das notícias. Ou seja, um aplicativo que avisa se o conteúdo é válido ou é fake.

Essa história começou em 2017, quando o doutorando Roney Lira entrou no doutorado no Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação (ICMC) da USP, em São Carlos. “Naquele momento, já era sabido que as fake news tiveram um papel bem importante nas eleições dos Estados Unidos. Resolvi, então, enviar um projeto para o laboratório analisar notícias em português do Brasil”, explica Lira. O laboratório a que ele se refere é o Núcleo Interinstitucional de Linguística Computacional (NILC), coordenado pelo professor Thiago Prado. O projeto foi aprovado e resultou na criação da plataforma e na publicação do artigo Contributions to the Study of Fake News in Portuguese: New Corpus and Automatic Detection Results, apresentado no final de setembro na 13ª Conferência Internacional de Processamento Computacional do Português.

O texto do artigo conta como a plataforma gratuita – e que ainda passa por ajustes, mas já funciona pela web ou via WhatsApp – trabalha. “Nós atuamos com linguística computacional, ou seja, trabalhando com variantes do texto. Usamos as palavras e a construção do texto para achar padrões linguísticos que diferenciem as notícias falsas das verdadeiras”, conta Lira, autor do paper.

A premissa dos pesquisadores é que o enganador, aquele que redige as notícias falsas, escreve de forma inconsciente, não se preocupando muito com o estilo ou a correção do texto. “Assim, desenvolvemos um modelo computacional que pode ser acessado por todos por meio de uma página web e alguns apps de serviços de mensagem instantânea, como o WhatsApp”, explica. Na prática, o usuário da plataforma acessa o site, coloca um texto completo de uma notícia e o modelo computacional, que utiliza algoritmos de inteligência artificial, faz a classificação da autenticidade do texto por meio dos padrões linguísticos. Por exemplo, em notícias falsas há maior presença de palavras escritas de forma errada, enquanto em notícias verdadeiras, por passar sempre por revisões de jornalistas, isso não acontece. Outra característica das notícias falsas é o uso dos verbos auxiliares, como o “poder”. Em geral, reportagens bem apuradas afirmam que um fato aconteceu. “Já as fake news abusam do ‘pode ter ocorrido’ e, portanto, a presença desses verbos é um sinal de que a notícia pode ser falsa”. Depois de varrer o texto todo em busca dessas pistas, o sistema devolve para o usuário a conclusão se a notícia tem mais chance de ser falsa ou verdadeira. “Ainda não dá para cravar o resultado”, brinca Lira, “o sistema ainda está na fase final de ajustes, mas essa é também uma maneira de estimular o usuário a procurar informações mais confiáveis na rede”, completa.

Para ver a ferramenta funcionando no WhatsApp, acesse o link: https://otwoo.app/nilc-fakenews e uma janela de troca de mensagens do aplicativo vai abrir com os dizeres “Nilc-FakeNews”. Nesse momento, basta apertar a tecla enviar e chegará outra mensagem: “Olá! Seja bem-vindo ao detector de fake news do NILC-USP – Detecção Automática de Notícias Falsas para o Português! O sistema irá utilizar o modelo de detecção para avaliar se a notícia é falsa ou verdadeira. Insira o corpo de uma notícia.” Sistema acessado, agora é só colar a notícia que deseja checar. “Se forem verificados indícios de fake news, o sistema alerta, dizendo: ‘Essa notícia pode ser falsa. Por favor, procure outras fontes confiáveis antes de divulgá-la’”, ensina o pesquisador.

ICMC/USP

Roney e Rafael Augusto Monteiro testam o aplicativo diretamente no WhatsApp

Mas o trabalho dos pesquisadores da USP e da UFSCar está longe de terminar. A ideia dos autores é conseguir fazer a checagem de fatos de forma automática. “Hoje existem sites que fazem esse tipo de checagem de forma manual, como o Boatos.org, o AosFatos, E-Farsas, entre outros, onde eles pegam cada parte da notícia e tentam procurar se cada parte é verdadeira ou falsa e no final divulgam um relatório completo informando ao usuário a veracidade ou não da notícia ou boato”, lembra Lira. O desafio é conseguir que o próprio sistema avalie e responda automaticamente, usando o texto da notícia e fazendo essa pesquisa em sites confiáveis “e também utilizando vertentes da nossa linguagem em sua estrutura sintática e semântica, o significado da frase, por exemplo”, explica. Essa possibilidade vai ajudar a superar algumas dificuldades da plataforma que ainda não analisa a manchete das notícias, porque precisa de grande quantidade de texto para aferir a autenticidade. Também há planos para fazer transcrição e análise de áudios, vídeo e imagens.

Já pelo meio da entrevista coletiva do domingo, a ministra Rosa Weber sugeriu aos jornalistas e demais presentes que se tivessem ideias e sugestões para detectar e impedir a circulação indiscriminada de fake news, que enviasse a ela. Talvez a plataforma dos pesquisadores do Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação da USP e os colegas da Universidade Federal de São Carlos possa ser um começo.