Um ambiente de disputa já cerca a busca pela vacina contra zika

Mariluce Moura | 05 de fevereiro de 2016

A pesquisa científica em torno do Aedes aegypti e as doenças que ele transmite segue por múltiplas rotas em numerosas frentes pelo mundo, Brasil inclusive, envolvendo uns poucos milhares de pesquisadores. Há muitas questões básicas ainda a conhecer, como, por exemplo, de que forma o zika vírus infecta o mosquito transmissor. Mas tudo indica que daqui por diante uma concentração gigantesca de esforços e recursos – financeiros, principalmente — terá por alvo o desenvolvimento de uma vacina contra o zika.

Não poderia ser diferente, porque o prêmio para quem chegar primeiro a um produto eficaz na imunização do organismo humano contra efeitos devastadores do vírus pode ser alguns bilhões de dólares, a compensar por larga margem o investimento feito.

Claro, para cientistas, governos e organizações internacionais de pesquisa ou de saúde, está em jogo resolver uma emergência mundial de saúde pública e evitar a catástrofe ainda mal imaginada de um desmedido e inaceitável percentual de crianças com graves lesões neurológicas no universo total das novas gerações. Para a própria população mundial, como um todo, está em jogo a necessidade de se ver livre de uma grave ameaça à saúde e à vida, em especial de seus descendentes.

Já para as empresas que se lançam à corrida pela vacina está em cena a possibilidade de grandes lucros, e isso é simplesmente da regra do jogo. Empresas têm o lucro como um objetivo central. Daí o ambiente disputado em que as investigações científico-tecnológicas têm lugar e que poderão, alvíssaras, encurtar o caminho até uma imunização eficiente da população mais vulnerável aos efeitos da zika que, até agora, tudo indica ser as mulheres em idade fértil.

Uma boa visão desse cenário de disputa foi oferecida pelo correspondente do Estado de S. Paulo, Jamil Chade, a partir de Genebra. Em reportagem na página A12 ele fala de queixas de representantes do setor privado internacional contra supostas restrições impostas pelo Brasil para a obtenção de amostras do vírus e, de outro lado, de reclamações nacionais contra as dificuldades de acesso a materiais de pesquisa importantes para os estudos daqui a avançarem.

Paolo Zannoto, uma das lideranças na pesquisa do zika no Brasil, disse a Chade que o Centro de Controle de Doenças (CDC) e os Institutos Nacionais de Saúde (NIH) dos Estados Unidos estão recebendo tudo: soro, placenta, vírus. “Os estrangeiros que dividam o material que já têm lá. Não recebi nenhuma proposta, nenhum convite, para ter acesso ao material que a gente precisa desesperadamente para testar, por exemplo, os métodos de diagnósticos”, reclamou o virologista do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo (ICB-USP). Outros pesquisadores brasileiros propõem que colegas de outros países venham até o Brasil para trabalhar aqui com as amostras.

No âmbito da produção da vacina, além do Butantan, cujo diretor, Jorge Kalil, anunciou na noite de segunda feira, 1º de fevereiro, no programa Roda Viva da Tevê Cultura, a possibilidade de a instituição apresentar um produto para testes dentro de um ano, e da Sanofi Pasteur, que no dia seguinte soltou um comunicado sobre sua decisão de desenvolver também a mesma coisa, já se colocou também na disputa uma empresa indiana. A Bharat Biotech “surpreendeu as gigantes do setor ao anunciar que fez o pedido por patentes para duas candidatas a vacina” na quinta, 4 de fevereiro, relatou Chade no Estadão.

Cientistas respeitados na área de epidemiologia apostam que antes de três anos não haverá uma vacina contra zika disponível para a população. Há que se acompanhar o assunto para ver se estão certos.



Deixe uma resposta