Tornados e microexplosões, entenda os fenômenos que atingiram Campinas

Pamela Gouveia | 10 de junho de 2016

Nessa semana a cidade de Campinas se recupera da destruição causada na madrugada do último domingo de um fenômeno climático raro, com ventos que chegaram a pelo menos 100 km/h, acompanhados de chuva – 74 mm em apenas 45 minutos e granizo. Inicialmente classificado como tornado, por ter se deslocado de forma circular mas, em um segundo momento, os especialistas do Centro de Pesquisas Meteorológicas e Climáticas Aplicadas à Agricultura (Cepagri) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) detectaram a ocorrência de microexplosões. Mas qual a diferença?

“Tivemos muita dificuldade de interpretação, pois não houve uma característica clara nem de um fenômeno, nem de outro. Em principio pensou ser um tornado porque saiu de um ponto para outro, mas nada impede que tenham ocorrido microexplosões sequenciais”, explica Hilton Silveira Pinto, pesquisador do Cepagri e professor da Unicamp. Apesar de muito parecidos, os dois fenômenos possuem correntes de ar extremamente fortes, há diferenças importantes entre eles.

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“funil”

Imagine um aspirador de pó gigante, jogando tudo para cima, esse é o tornado, explica Hilton. “É um evento caracterizado por ventos circulares que formam um funil, que toca o chão e gira no sentido horário”, completa. Ele não é momentâneo, dura um certo período que pode ser de alguns minutos ou até mesmo meia hora (como o ocorrido recentemente em Indaiatuba). Esse funil se desloca e por onde passa faz uma sucção de tudo a sua volta.

Rafael Coutinho/DivulgaçãoFormação do fenômeno da microexplosão em Campinas

Formação do fenômeno da microexplosão em Campinas

 

Agora imagine que você tenha um punhado de talco no chão e aproxima um ventilador sobre ele, o vento vai para todos os lados, espalhando tudo de forma constante, “semelhante ao que ocorre na microexplosao”, compara o pesquisador. A microexplosão é uma nuvem carregada de ar, água, granizo e acompanhada de ventos intensos que atingem até 120 km/h. “O fenômeno acontece quando a base da nuvem fica carregada de eletricidade, tanto que chega um ponto que ela descarrega e explode, fazendo uma corrente de vento muito forte de cima para baixo, na vertical. Essa corrente de vento bate na superficie como se fosse uma explosão”.

No caso do tornado, o que está do lado direito dele cai para trás e o que está no lado esquerdo cai para a frente, o estrago acontece em direções diferentes, já na microexplosao cai para todos os lados.

Apesar de raro, o fenômeno ocorrido em Campinas pode ser classificado como misto, segundo Hilton. “Acredito que pode ter ocorrido o tornado e em alguns pontos ocorreram as microexplosões”, analisa.

 

 

Arquivo CepagriTornado registrado na cidade de Mogi Mirim/SP em 24/06/2011

Tornado registrado na cidade de Mogi Mirim/SP em 24/06/2011

Corredor de tornados


Filmes sobre tornados são frequentes nas produções de Hollywood, isso porque os Estados Unidos é o lugar mais propício para esse fenômeno no mundo. Mas no Brasil essas produções cinematrográficas também poderiam ganhar força, já que as regiões Sul e Sudeste do país formam a segunda área de maior probabilidade de ocorrência de tornados.

Os estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, São Paulo, Triângulo Mineiro e Mato Grosso do Sul formam o chamado “Corredor de Tornados” brasileiro. Nessa área há um encontro de massas de ar frio vindas da Patagônia com ventos tropicais formados na Amazônia ou massas de ar quente oriundas do Oceano Atlântico.

A ocorrência desse fenômeno no país é mais frequente do que se imagina.  Segundo o estudo “Tornados e trombas d’água no Brasil: desenvolvimento de um modelo e proposta de escala de avaliação de danos”, do geógrafo Daniel Henrique Candido, do Instituto de Geociências (IG) da Unicamp, sob a orientação da professora Lucí Hidalgo Nunes, entre 1990 e 2011 foram registrados ao menos 205 desses fenômenos meteorológicos em território nacional, número que coloca o país entre aqueles que mais sofrem eventos do tipo no mundo.

São Paulo foi o Estado mais atingido pelos episódios nesse período, seguido pelo Rio Grande do Sul e Santa Catarina. Campinas, inclusive, está na lista de cidades com maior possibilidade de registros de novos tornados, ao lado de Indaiatuba e Itu, além da faixa litorânea. Um dos fatores determinantes é o fato dessa região estar inserida em uma área de depressão periférica, mais plana e mais rebaixada, inserida em um corridor favorável para o deslocamento de fluxo de ar, segundo a pesquisa.
Alguns registros históricos:
Em 30 se setembro de 1991, Itu foi atingida por um dos mais violentos tornados já registrados no país. Na ocasião, o fenômeno causou 15 mortes e destruiu casas, plantações e torres de transmissão de energia. Até então a ciência não considerava que esse tipo de episódio pudesse ocorrer no Brasil e a partir daí foram iniciadas pesqusias sobre o assunto.

Em 28 de novembro de 1995, outro episódio foi registrado entre Paulínia e Jaguariúna e dez anos depois, em maio de 2005, foi a vez de Indaiatuba ser atingida por um tornado. Com ventos que chegaram a 250 km/h, fábricas, prédios municipais e pelo menos 400 casas foram destruídas, forçando a prefeitura da cidade a declarar estado de calamidade pública.

É possível prever?

Segundo Hilton, a formação desses fenômenos é muito rápida, só é possível prever com antecedência de 20 a 25 minutos, ainda assim sem precisar uma região exata da ocorrências ou a sua extensão. “Para detectar com mais exatidão, somente 15 minutos antes da ocorrências”, afirma.

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Entenda o caso de Campinas
Choveu muito forte na madrugada de domingo, 5, em toda a região de Campinas, com ventos fortes e muitos raios, provocando o destelhamento de casas e muitos estragos pela cidade durante a madrugada. Segundo informações da Defesa Civil, 100 mil pessoas ficaram sem energia elétrica e pelo menos 100 árvores caíram.

As microexplosões atingiram três pontos diferentes da cidade, iniciando em cima da região do Galleria Shopping, nas proximidades da Rodovia Dom Pedro I (SP-065), em seguida atingiu a região do Instituto Agronômico de Campinas (IAC) no bairro Taquaral e por último o Bairro São Quirino.

 

 

 

 

 



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