Testes clínicos do soro antiveneno de abelhas vão começar

Mariluce Moura | 29 de março de 2016

video_abelha_02Veneno de abelhas africanizadas pode ser fatal, especialmente se a pessoa receber muitas picadas ou for alérgico a qualquer das toxinas que ele contém. Daí porque o lançamento mundial de um soro pioneiro e brasileiríssimo contra esse veneno, dentro de aproximadamente um ano, é uma bela notícia. Afinal, pelas estimativas, essas abelhas são responsáveis por 8% dos acidentes com animais peçonhentos, provocam cerca de15 mil casos anuais desses acidentes, que resultam em torno de 140 mortes (Vale a perna ver mais detalhes no vídeo).

Tudo depende de o produto passar nos testes clínicos que miram a segurança para o paciente e o ajuste de dose, agora que eles já foram oficialmente autorizados pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (Conep), com apoio do Departamento de Ciência e Tecnologia (Decit) do Ministério da Saúde.

Primeiro, um grupo de 20 voluntários nas cidades paulistas de Botucatu, Tubarão, e na mineira Uberaba receberão aplicações controladas do produto e, na dependência das reações que desenvolvam o soro entrará na fase de testes III, com cerc de 300 voluntários. Só depois estará pronto para produção e consumo. É possível que os testes estejam concluídos até o final deste ano.

“Os ensaios clínicos serão acompanhados por dois especialistas internacionais, Leslie Boyer, da Universidade do Arizona, Estados Unidos, que já aprovou outros soros para a Agência de Alimentação e Medicamentos dos Estados unidos (FDA) e também no México, e Felippe Chappaux, do Instituto de Pesquisa e Desenvolvimento da França (IRD) e consultor  da Organização Mundial de Saúde (MMS)”, conta Rui Seabra Ferreira Jr, diretor do Centro de Estudos de Venenos e Animais Peçonhentos (Cevap) da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Botucatu.

Foram pesquisadores dessa instituição, sob a coordenação do professor Benedito Barraviera, que desenvolveram o soro antiveneno de abelhas africanizadas em parceria com o Instituto Vital Brazil, de Niterói, Rio de Janeiro. E um belo feito deles é terem ido desde a pesquisa básica, com caracterização das toxinas, até a fase aplicada que permitiu a um produtor de soros e vacinas, como o Vital, levar a proposta até a fase de fabricação mesmo.

O próprio Rui Seabra, formado médico veterinário e pesquisador 2 da Unesp, o que equivale a professor livre-docente (bem perto do topo da carreira, ou seja, titular), vinha se empenhando nessa pesquisa do soro desde o seu mestrado, entre 2002 e 2004. Seguiu com os esforços no doutorado, também na Unesp de Bauru, e levou a pesquisa para o pós-doutoramento no Instituto Butantan. Em 2009 o Vital Brasil resolveu apostar no soro e as coisas começaram a avançar rapidamente.

As abelhas africanas entraram no Brasil em 1956, cruzaram-se com as espécies nativas e daqui as africanizadas passaram para outros países das Américas, inclusive Estados Unidos. Aí os problemas começaram. “Desenvolvemos o soro a partir das toxinas ativas e neutralizamos os peptídeos que eram pouco imunogênicos, ou seja, não produzem anticorpos suficientes, e os que provocavam muito dor. O animal tomava e deitava de tanta dor”, conta Rui.

“Purificamos o veneno, chegamos a uma nova formulação com técnicas de cromatografia”, ele prossegue. Os animais a que ele se refere, usados nessa fase, já eram cavalos, embora ele pessoalmente tivesse trabalhado antes com carneiros de abate. “No Brasil utiliza-se cavalos para esses testes de soros há mais de 100 nos”, diz, enquanto em outros países o carneiro é mais comum.

Para resumir, o soro antiapílico é imunoglobulina purificada (IGG) com peptina, uma SAB 2, livre do fragmento C e deve aumentar bastante as chances de uma pessoa sobreviver a um forte ataque de abelhas.

Os pesquisadores vão promover um encontro com autoridades e  imprensa no dia 8 de abril, a partir das 10 horas, em São Paulo, na sede da Unesp para esclarecer a população sobre os procedimentos que serão adotados na seleção de pacientes, O evento tem transmissão ao vivo e é só e cadastrar em http://www.transmitirnaweb.com.br/ensaio_clinico.

O medicamento é recebido na veia. Cerca de 20 mililitros (ml) trazem ao corpo uma quantidade de anticorpos capaz de neutralizar 90% dos problemas causados pelas picadas de abelhas africanizadas. “Temos um protocolo de atendimento com rígidos critérios de inclusão e exclusão. Os médicos participantes do projeto serão responsáveis por definir qual paciente tem a indicação de soroterapia específica e dose necessária”, diz Rui.

Quando um adulto é picado por mais de 200 insetos, o corpo recebe uma quantidade de veneno suficiente para causar lesões nos rins, fígado e coração, debilitando esses órgãos. A maioria das mortes acontece pela falência dos rins.

Após a escolha dos pacientes e aplicação do soro, os pesquisadores passarão para o “teste de fase III com mais de 300 pacientes”, complementa Rui.

Até o momento foram investidos, apenas nos últimos cinco anos, cerca de R$ 2 milhões no projeto.

 



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