Tempo de ler

Francisco Bicudo | 11 de abril de 2016

d35fb763-0245-4bb3-9ccc-344e9dad59a4A vida é insuportavelmente louca. O trânsito caótico e agressivo da cidade, reuniões sem sentido e intermináveis, cobranças e pressões do chefe, incêndios profissionais a apagar a qualquer momento, é preciso estar sempre ligado, claro, não posso largar a casa, preciso ajudar nos afazeres domésticos, a louça, as camas, a roupa passada, pegar as crianças nas escolas, mas não tem jeito, preciso também responder imediatamente os zapzaps, sem falar nos e-mails urgentes e nos relatórios e orçamentos que são para ontem. Desligar o celular? Pirou? Não dá. É com ele que administro minha vida. E acreditem, na semana passada, numa conversa com um colega sobre projeto novo e sigiloso da empresa, o rapaz ainda cometeu o disparate de desviar o assunto para perguntar o que eu gosto de ler.

Absurdo surreal, total sem noção. Eu lá tenho tempo para leitura, cara pálida? Pensei, mas não respondi. Não dessa forma. Sou educado. Tudo bem, não nego a importância dos livros, a fantasia, a imaginação, o viajar e conhecer outras culturas sem sair do lugar, instantes de concentração e sossego (que inveja…), o escapar da zona de conforto e ser convidado a compreender o outro, a construção da linguagem e de repertório crítico, o prazeroso empurrãozinho rumo ao sonho e à esperança, o flerte com a diversidade e a tolerância. Sei de tudo isso, concordo com tudo, acho tudo muito legal, respeito tudo isso. Mesmo. Admiro profundamente quem consegue dedicar-se à leitura. Eu não tenho tempo. Impossível. O dia tem só 24 horas. E de vez em quando preciso também dormir um pouquinho. Ninguém é de ferro. Seria preciso abandonar e deixar de lado tarefas que são prioritárias. Não dá. Lamento, sinto muito.

Meu colega insistiu e tentou me convencer. Eu olhando para o relógio, papelada empilhada na mesa esperando por mim, angustiado só de lembrar o tanto de anotações feitas em minha agenda, a confirmar que o dia seria longuíssimo – e o cara com papinho furado fora de hora. Bem intencionado, é verdade, muito gentil. Mas eu preciso trabalhar. Por favor… ele fingia não perceber meu desespero. Falou de uma pesquisa feita pela Universidade de Emory, nos Estados Unidos, que revelou atividade cerebral mais intensa nos leitores de ficção, principalmente no córtex temporal esquerdo, associado à linguagem, quando comparados aos não leitores. Outro estudo, disse, dessa feita da Universidade de Stanford, também nos EUA (e citava tudo de cabeça, memória impressionante), sugeriu que os livros (romances, contos, ensaios, crônicas…) funcionam como exercícios de academia para nossos neurônios, mantendo ativa nossa capacidade de aprendizagem por toda a vida. Eu querendo cortar a prosa, mas com medo de parecer grosseiro. O colega não se tocava. Continuava falando. Lembrou em seguida de estudos publicados pela Science que apontam que leituras aceleram circuitos cerebrais e podem ajudar a enfrentar problemas associados à velhice, como o Alzheimer. Contou ainda que, durante a II Guerra Mundial, psiquiatras que atendiam as tropas aliadas perceberam que soldados feridos que liam conseguiam recuperar-se mais rapidamente dos problemas que enfrentavam. Emendou com uma tal recomendação da Academia Americana de Pediatria, a dizer que os médicos devem orientar os pais a ler em voz alta para seus bebês não apenas como exercício lúdico, mas também para estimular desenvolvimento de linguagens e de relações afetivas. Tudo lindo, maravilhoso. Para quem pode, tem tempo livre para esses caprichos. Não dá para mim. Estava a ponto de explodir, quase num acesso de fúria, prestes a berrar ‘chega de lenga-lenga, cara, vamos trabalhar e cuidar do que importa’.

Minha expressão deve ter me denunciado. O colega pediu só mais um minutinho, para fazer uma conta bem rápida, prometeu. Aceitei. Vai rápido. Ele passou a falar anotando números num pedaço de papel amarelado que estava perto do meu computador (preciso tanto trabalhar nesse computador). Vamos imaginar, começou, que você leia uma hora por dia. Nem precisa ser de uma tacada só, numa sentada. Quinze minutos no metrô vindo para cá, quinze minutos no almoço, mais quinze na volta para casa e os quinze últimos antes de dormir. Os especialistas sugerem que, para absorver e apreender de verdade essa leitura, com propriedade, precisamos em média de dois minutos por página. Nesse ritmo, você terá lido, ao final do dia, 30 páginas. Num mês, serão 900 páginas, para chegar ao final do ano com 10.800 páginas lidas. Vou exagerar, jogar para cima e considerar que um bom livro tenha em média 300 páginas. Sim, reconheço, são obras grandes. Há excelentes narrativas com 100, 200 páginas também. Mas vamos adotar as 300. Se eu dividir sua pilha de leitura anual acumulada – 10.800 páginas – por esse tamanho de livro – 300 páginas – vou concluir, matematicamente, que você poderá ler, a cada ano, 36 livros. Esse índice colocaria os brasileiros no topo de qualquer ranking internacional de leitura.

Uma hora por dia, ele repetiu, já educadamente pedindo licença para se retirar. Trinta e seis livros de 300 páginas por ano. Perdão por incomodar. Não quero mais tomar seu tempo. Sei que ele é precioso. Bom trabalho. Melhor, quero dizer… boas leituras.



Uma resposta para “Tempo de ler”

  1. Meu caro, cheguei aqui por conta de outro texto seu sobre mitologia grega, seu filho, a escola. Bom, temos filhos educados no Colégio São Domingos, mas não é por conta disso que estou aqui.
    Depois e burra velha e de tanto tomar metrô pra ir e voltar ao trabalho, redescobri um tempo de leitura. Pra me concentrar, ponho fone de ouvido sem som. Daí que levo meia hora pra ir e meia hora para voltar pra casa todo dia. Exatamente uma hora por dia, me dedico à leitura exclusiva de romances. E (re)ler Bioy Casares virou uma fantasia. E por que não Simenon? Exatamente feito seu interlocutor nesta crônica. E não se trata de fazer contas de páginas. É puro deleite. Ou para satisfazer mentes inquietas.
    Parabéns pelos seus textos. Já li dois e gostei muito.
    Mari-Jô Zilveti

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